As eleições da desinformação e da desumanidade


Esse ano está puxado. Um ano onde os fracos não têm vez. E mais forte que o filme dos irmãos Coen, esse ano está se revelando muito mais imprevisível do que qualquer expectativa realista poderia presumir. Achávamos que o ano passado, com a sua intensa movimentação e o surgimento de novos métodos de enfrentamento dos déficits das gestões públicas, tinha sido o modelo de ano da agitação, do burburinho, de discussão política por todos os lados, do surgimento de uma nova consciência crítica, de uma geração mais engajada, de novos começos. Não foi. Esse ano de 2014 mal chegou no segundo semestre e está varrendo tudo, com um gigante redemoinho de acontecimentos.

Dilma, Áecio, Eduardo

Nesse ano, tudo que poderia passar em 5, se passou em meses: tragédias áreas, sumiço de pessoas, prisões de manifestantes no estilo Minority Report, a ridícula Copa das Copas (a mais absurda e cara edição de uma Copa em todos os tempos), a maior crise do vírus Ebola na história (o que, depois de 40 anos da descoberta da doença, enfim, provocou alguma movimentação para a elaboração de uma cura para o que, até agora, ainda não tem), a morte dos imortais Ariano Suassuna, Ivan Junqueira, João Ubaldo Filho; Bakunin sendo suspeito de fazer parte do planejamento de manifestações, pessoas sendo presas por portarem perigosos artefatos como livros, camisas vermelhas e latinhas de nescau, os assustadores suicídios do humorista Fausto Fanti (do Hermes e Renato) e do ator e também humorista Robin William e os ataques desumanos que Israel está promovendo na Faixa de Gaza.

Aconteceu muito mais do que isso, mas são esses os acontecimentos que ainda estão borbulhando na cabeça daqueles que não sofrem de memória curta.

Esse é um ano decisivo. Ano de eleições. Ano em que nenhum passo pode em falso, e tudo precisa ser convertido em aspectos positivos. E para conseguir isso, quem melhor souber a conduzir a informação, melhor estará posicionado nessa guerra memética e de símbolos que está sendo travada diariamente.

Eleitores, desinformai-vos!

O Brasil é um país engraçado mesmo: em época de eleições todos os orçamentos são contidos, todas as verbas retidas e todos os cortes reduzidos. Por que? Queria realmente dizer que não sei, porque os caixas e cofres das repartições e instituições públicas são alimentados e mantidos com recursos públicos, que devem se manter pleno funcionamento durante todo o período dos governos eleitos. Mas cá no Brasil a coisa funciona diferente: todos sabemos que parte desse recursos são utilizados em favor das campanhas dos candidatos que lutam ou para manter-se no comando da máquina pública ou para entrar no comando dela. Mas não nos percamos em digressões, porque vim por aqui para comentar sobre outros aspectos das eleições desse ano.

Existe hoje no Brasil um clima perene de guerra. Onde as bombas são de gás lacrimogênio, os combatentes são estudantes, e os  grandes pólos de posicionamento são apenas dois: ou voce é de esquerda ou é de direita (o que nem de longe é uma verdade e/ou realidade). E nesse maniqueísmo ideológico onde ninguém mais se sente representado por ninguém, surge uma campanha/corrida política baseada na desinformação.

Na luta pela presidência de uma das maiores nações e potências econômicas do mundo, desinformar se tornouu necessidade (talvez a aplicação daquele famoso pensamento atribuído a Maquiavel de que “os fins justificam os meios”).

Os defensores do atual governo tentam desesperadamente ocultar, varrer para debaixo do tapete, o mundaréu de irregularidades, ilicitudes, promessas incumpridas, corrupção elevada a enésima potência, e todos os podres que existiram nesse período de continuidade da atuação política do Partido dos Trabalhadores à frente do país. Enquanto isso, a oposição segue firme na sua estratégia de não deixar nenhuma brecha de acusação passar, em transformar a sua falta de tato, de capacidade política, ou mesmo de intelecto, em lides positivas nos semanários de todo o Brasil. O campo de batalha virou um escarcéu onde todo pedaço de madeira vira espada.

Não existe pudor, escrúpulos, humanidade nessa briga. Tudo que puder ser usado pra agredir, usado será. E a internet virou a maior vitrine de tudo isso. São os loucos anti-petralhas criando chistes de tudo, fazendo links de uma rinha de galo com os “desmandos desse governo comunista esquerdopata que tem implementado uma ditadura vemelha nesse país”. Tudo se transformou em motivos para cuspir burrice e estupidez para todos os lados. E qualquer cartaz mal feito que polariza questões profundas e superficializa assuntos importantes, vira informacão pura, perigosa, ou mesmo uma inacreditável revelação de o quanto o PT está destruindo o Brasil. E as lideranças da oposição percebendo que ser anti-petralha, anti-esquerdopatas, anti-comunistinhas, acabou virando uma espécie de religião nas redes sociais, está usando isso da única forma que pode usar sem se associar diretamente com a horda anecéfela que vocifera as mais inacreditáveis declarações podemos ler nesse mundão chamado internet: criar falsas e viralizantes informações. Não importa a veracidade do que está sendo repassado, o que importa é jogar todos símbolos negativos somente para um lado. Isso é o desespero como combustível da burrice generalizada.

Não me espanta ver o uso de páginas populares no Facebook com canais da desinformacão. Seja uma TV Revolta, um Quer Café? ou a Dilma Bolada. O que, nesse jogo, não pode é perder a oportunidade de sujar o opositor. O desespero é o que fala mais alto.

Desespero como combustível da burrice generalizada

O ódio desenfreado de tudo seja vermelho e penda à esquerda é tamanho que nem os mortos têm paz no Brasil. Num acidente macabro, morre o terceiro maior nome na corrida presidencial: Eduardo Campos. Morrendo no mesmo dia em que morreu seu avô, Miguel Arraes, Eduardo estava num voo que não se completou. Morreu um dia depois de ter dado um importante entrevista no Jornal Nacional, no dia 13 de Agosto de 2014 (reparem só nesse fatídico número!). 40 anos, pai de 5 crianças, o presidenciável mais jovem morreu num trágico acidente aéreo no meio da campanha.

Qual foi a reação automática a tudo isso? Foram diversas: os jornais espetacularizaram cada momento, transformando tudo num circo de horrores; nas redes sociais o espetáculo foi ainda pior: a oposição não perdeu tempo em linkar o acidente com o seu demônio particular, a presidente Dilma. Tentando camuflar com piadas, as mais mirabolantes teorias conspiratórias foram rapidamente criadas e, na mesma velocidade, viralizadas. Mais uma vez a desinformacão a serviço da estupidez! Os analistas políticos de Facebook soltaram seus prognósticos, os cientistas políticos cuspiram suas declarações horrendas. A balbúrdia ainda acontece enquanto escrevo esse texto. Todos tentando ganhar em cima de uma morte. A zueira, aquela que não tem limites, também não tem respeito.

Vivemos em tempos de cólera que, aparentemente, também não tem amor. Pode aparecer sentimentalista a frase, mas ela nunca se mostrou tão real quanto agora. Só que a corrida continua: desrespeitosa, imoral, cega, doente.

E dessa vez escolher um lado é um vaticínio do caos inescapável: não há lado que preste. Em um vemos décadas de corrupção e apodrecimento do Estado brasileiro, no outro os representantes do atraso mental, defensores da ignorância disfarçada de prepotência.

Mas não dá ter pausa pra respirar, tudo segue veloz na velocidade das redes (sociais, de interesses, de contatos, e da estupidez), tão rápido que as pessoas estão esquecendo de que são humanas; a velocidade é tanta que luto é perda de tempo.

Ainda sigo com certo ânimo, afinal, diante de grandes estagnações que se mostram como muros desafiadores, também aparecem aqueles que topam encarar o desafio.

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Sobre Ricardo Silva

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