O universo paralelo da Copa


Meu Brasil, brasileiro, esse gingado, esse jeito. Que maravilha de país! Ainda mais agora que estamos sediando o mais fantástico dos eventos do mais adorado esporte: A Copa Do Mundo (assim, com tudo começando em maiúsculo). Como estamos felizes! Nós, o país do futebol (e de outras tantas coisas que não podem ser ditas assim, em público), somos só alegria! Tudo graças aos nossos fabulosos parceiros da Fédération Internationale de Football Association, vulgo FIFA (e eu jurando que a sigla era algo como Filhos Ingratos que Furtam Adoidado). Graças a eles, que foram tão queridos e votaram no nosso país, estamos em êxtase por tudo o que tem acontecido por aqui, nas terras da seleção canarinho, a nação ideal para ser sede da Copa. Porque, meus amigos, não tem choro e nem vela: vai ter copa sim!

copadomundo

Tanto vai ter que já começou hoje, com a estreia fabulosa da nossa seleção, aquela pela qual os publicitários da Globo dizem que nos transformamos em um só. E como foi bonito, como foi belo! A abertura foi um show de bola! Organizada, por meio de um concurso discreto e nacional, por todos os alunos da oitavo ano do ensino fundamental da rede pública de escolas do nosso país, a abertura foi um espetáculo. E nós, que estávamos bastante preocupados com o que a tal da comunidade internacional (aquele grupo de países fifis que gostam de ficar fofocando da vida de um e outro) ia falar de nós, esfregamos na cara, lacramos tudo com a nossa abertura. Só tenho lido elogios rasgados!

JLo, Pitbull (que não fez muito jus ao nome com aquela calça) e a nossa fantástica-esplêndida-loira-soberana-rainha-da-música-brasileira-e-o-melhor-cover-da-Ivete-Sangalo Cláudia Leitte (que contou com a nossa ajuda pra comprar o seu modelito que custou módicos 2,7 milhões de reais – porque artista de verdade é assim: faz campanha pra conseguir montar o seu look) arrasaram. Sim, eles arrasaram com a abertura da Copa. O melhor playback que já vi em apresentações desse calibre. Ô coisa linda que foi. Arrepiei na hora que vi (na timeline do meu twitter). Mas sabe o que é mais engraçado? Tem um povo que vive de luto, que fica reclamando e faz quebradeira do nosso patrimônio, que fica dizendo a barbaridade de que #NãoVaiTerCopa. Não sei porque o povo foi encasquetar com a Copa, meu deus!

Pode até ser que uma ou outra obra chegaram a não ser concluída, que saiu um pouquinho a mais de dinheiro (eles até inventam a história de que a nossa Copa foi a mais cara da história! Pode uma coisa dessa, Arnaldo?), que tivemos que “realocar” algumas poucas comunidades de gente que não usa anticoncepcional e mora em favelas, comunidades pequenas de alguns milhares de pessoas (usaram a expressão horrível e mentirosa, uma da tal de “higiene social”), que receberam um apoio do nosso governo que, aliás, tem feito um grande trabalho pelo povo. Olha só:

–       O povo, o verdadeiro povo brasileiro, composto por cidadãos de bem(ns), não queria ser incomodado durante a abertura da Copa, o governo foi lá e reforçou as fileiras dos nossos defensores: os policiais militares e as Forças Armadas, que não deixaram os vândalos estragar a beleza do nosso evento, tratando-os de forma enérgica.

–       O povo brasileiro não queria poder tomar uma nos estádios? Ainda que o nosso governo tenha cometido a gafe de proibir bebidas alcóolicas nesses locais, não existe nada que a FIFA não nos peça chorando que a gente não faça rindo: LIBERADA A BREJA NOS ESTÁDIOS! Bolsa-Budweiser pro povo, Dilma!

–       O povo brasileiro não queria ser visto na abertura com os nosso melhores modelos? O Governo resolve fácil essa: tirou aqueles neguinhos da classe G e colocou uns bons capoeiristas brancos e europeus na abertura. Se é pra se espelhar no bom, que seja na Europa né!

Eu poderia é passar uma vida inteira dizendo o quanto de coisa boa foi feita pelo nosso governo pra que esse mundial fosse o que está sendo: uma perfeição de evento. Mas o dono desse blog aqui é meio de esquerda (sabe aquele povo de esquerda, que come todas as mulheres da faculdade, usa barba grande e usa a camiseta da Mídia NINJA? Pois é, ele é desse calibre), e insistiu comigo que existe um “universo paralelo” nessa Copa tão bonita. Discordo, mas como defendo a liberdade de expressão, ainda que seja dos esquerdistas estúpidos-filhos-da-puta-que-não-acreditam-em-deus, vou me despedindo por aqui e vou deixar ele falar. Mas não se esqueçam: VAI PRA CIMA BRASIL, QUE O HEXA É NOSSO (a Dilma já se certificou de garantir isso)!

A realidade paralela da Copa

Como representar bem um povo que não é um povo só? Chamando uma belga pra fazer uma coreografia pra gente, porra! Não é genial? Mas sabe o que é genial mesmo? É a nossa Copa paralela. Somos o país do futebol, correto? O país com mais títulos em mundiais, não é? Logo, somos o país onde futebol não discute, se vive como religião, certo? Se você me responder sim a todas essas perguntas, vou concordar com você. Afinal de contas, por aqui futebol é religião mesmo e povo fica cego com isso. Mas ao contrário do que os publicitários da Globo, os marqueteiros do governo, e o marketing dos patrocinadores da Copa dizem, essa não é a Copa dos brasileiros e ninguém se sente um só ou unido com toda a nação, por estar sediando esse evento FEITO E PRODUZIDO pela FIFA.

Copa do Brasil

Por que não estamos felizes com a Copa? Por que as ruas não estão apinhadas de bandeiras verdes e amarelas? Por que a nação não comemora numa só voz a edição Brasileira da Copa? Porque não há motivos pra se comemorar. Em mais um quesito o Brasil fez o seu papel (de ridículo). Vale entender porque #NãoVaiTerCopa.

A Copa não é um evento nosso, é um evento estrangeiro, produzida por uma federação europeia de futebol. É engraçado ver como funciona o mecanismo da FIFA, a produtora da Copa. Vou tentar resumir como se eu fosse a própria FIFA: nação amiga, é o seguinte:

–       Nós queremos que vocês nos deem o máximo de recursos possíveis dos cofres de vocês para bancarem a estrutura do nosso evento;

–       Queremos que vocês nos isentem de todos os impostos em todas as esferas;

–       Que obedeçam a todas as nossas diretrizes sem questionamentos: não queremos gente pobre-negra-favelada perto dos estádios ou poluindo as cidades-sedes, não queremos estádios velhos, não queremos que as leis de vocês valham pra gente, não queremos que vocês interfiram em nada sem o nosso aval;

–       Queremos que os estádios fiquem do nosso jeito e que agradem os investidores multimilionários (que se diga, não vão fazer negócios com vocês, mas somente com a gente) não importa o quanto vocês precisem usar de recursos pra isso;

–       Queremos, esse detalhe é bastante importante, deixar claro que: todo o lucro que for gerado pela Copa irá cair diretamente na nossa conta, sem nenhuma interferência do fisco de vocês;

–       No caso de vocês, queremos o máximo de segurança: botem todo o contingente de policiais e também das Forças Armadas pra que nada saia do protocolo;

–       Aliás, falando em protocolo, queremos que a presidente (não entendemos porque vocês insistem em chama-la presidenta) de vocês, que não é benquista pelos seus, não discurse na abertura, pra evitar possíveis problemas.

Não consegui resumir nem a metade, mas é basicamente isso. A FIFA é como aquele parente gringo que chega em casa e pode fazer o que quiser, só por ser gringo e “bem relacionado”. Não importa se descumpre as regras da casa, se rouba toda a comida da geladeira, se muda os móveis de lugar ou joga todos fora e obriga a comprarem outros novos. Ele pode, é gringo, tem uma pinta legal, pode tudo.

“Mas a Copa vai trazer benefícios pro nosso país!”. Não, não vai. Usar 270 milhões num estádio (o de Manaus) que será usado somente por 4 dias, e que não poderá ser usado por nenhum time local (porque não tem) e que ainda exigiu uma logística absurda pra sua montagem (todas as peças, que não existiam em Manaus, foram trazidas pelos mares depois atravessando o Rio Amazonas por meio de balsas) que foi, literalmente, dinheiro jogado fora. Sem contar que todo o recurso usado para todo o resto, quase todos os bilhões saíram dos nossos cofres, saindo quase nada da iniciativa privada (outra que vai trazer pra si lucros estratosféricos). Em suma: todo o dinheiro usado saiu dos cofres públicos para obras megalomaníacas (que ficaram incompletas) e que não vão trazer o mínimo retorno para o país.

Sem contar na inacreditável postura do Governo quanto ao aspecto social que se desdobra dessa Copa. O país que se preocupa, assim como peruas e dondocas, tanto em ser bem visto pelos outros países, começou a fazer uma verdadeira higienização por todas as cidades-sedes do mundial: removeu, à força, comunidades inteiras sem o mínimo apoio ou sequer aviso prévio de um lugar para o outro, retirou, no mesmo método, mendigos e pedintes das ruas. Tudo isso num verdadeiro estado de ebulição de greves e paralisações, todas legítimas mas reprimidas brutalmente pelo aparato policial do Estado. Governos (pois as falhas e absurdos foram em todas as esferas de governança) desesperados e tresloucados, cometendo loucuras contra o seu povo em favor de gringos de colarinho branco.

O mais cômico de tudo isso é contra-discurso dos brasileiros médios, educados e guiados pelos telejornais e meios de comunicação em massa que jorram, despudoramente, as suas estupidezes na consciência coletiva do país. Esses brasileiros, de classe média, intelectualidade média (o que pode até ser considerado um elogio, no caso deles), conhecidos como coxinhas, acham que sobre a Copa, o certo a se dizer é: o que tinham de roubar, já roubaram. Talvez algo que se assemelhe muito ao discurso do “rouba, mas faz”. O que foi superfaturado, desviado, e descaradamente roubado pelos gestores públicos nessa Copa é algo também histórico. Mas isso é normal, não é? Os coxinhas bradam aos quatros ventos que “agora não tem mais jeito, o jeito é vestir o manto verde e amarelo e mostrar que estamos juntos pela nossa seleção”. Estamos juntos é o caralho! Não existe a mínima possibilidade de apoiar essa Copa que, assim como em todos os outros países, vai sugar ao máximo todos os nossos recursos (humanos e financeiros), saindo daqui já rumo a outro país, nos deixando em frangalhos. A FIFA é um parasita, que na sua figura de bom moço, suga o máximo que pode e parte para outras fontes. Então não venha dizer que a Copa é algo bom para o nosso país, que está agregando valor ao Brasil, porque não está.

Isso ficou tão claro, quanto a nossa ridícula abertura, assim como também a sua cobertura, que preferiu dar mais destaque a um ônibus manobrando do que ao avanço tecnológico feito por um brasileiro que é um forte candidato a Nobel. Para ver como são as nossas prioridades!

Que vai ter, vai. Mas que essa Copa não será bem vinda, isso ela não vai.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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Uma resposta a O universo paralelo da Copa

  1. iEx Nihilo diz:

    Olhando as paredes turbilhonantes do vácuo dinâmico do mundo, lançamo-nos numa encruzilhada entre a esperança e o tédio. Qualquer fruição que nos livre de nós mesmos, que faça-nos emergir para emoções sublimes, é tido como bem e verdade por nossos hedonistas contemporâneos. Por outro lado, qualquer fagulha de mudança, qualquer mitologia, utopia ou revolução que surja na imaginação individual ou popular é abraçada como uma quimérica saída. Será saboreada uma doce verdade por ambos os lados, surgindo comemorações esfuziantes (ou tristezas arrasadoras) e mensagens e protestos furiosos.

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