Sacando dos rolezinhos


Vamos dar um rolê por ai? Chamar uns amigos e ver o que está rolando de top nas vitrines massas lá do shopping da cidade? Chama os irmãos do setor que hoje vamos ostentar!

rolezinhoartigo

O (falso) discurso inclusivo da classe branca de classe média é totalmente derrubado com a reação dada aos rolezinhos. Os brancos ricos e consumidores vorazes não suportam a ideia de conviver de forma tranquila e, principalmente, normal com aqueles durante o dia são os seus empregados ou estão isolados nos “distritos sociais” longe do olhar cotidiano da classe média brasileira.

Mas o rolezinho não é militância política da favela do pobre contra o rico, da plebe contra o burgo, não tem um discurso teórico embasando as suas premissas. Não segue uma cartilha. Não têm porque seguirem regras. Não estão pensando na quebra de paradigmas antropológicos. Não se preocupam com isso.

Só que também não se pode negar a veia anarquista dos rolezinhos. Os rolezinhos são um tapa na cara da hipocrisia da sociedade (assim, nos clássicos dizeres da esquerda clássica). Deixam todos sem jeito, fazendo os gestores públicos e o grande conglomerado do empresariado que ocupa os espaços lojístico dos shoppings reagirem de acordo com a sua real visualização de como se divide o mundo: ser violento com aqueles que eles acham repugnantes e que, segundo eles, precisam estar isolados.

Mas também não podemos chegar dizendo que o rolezinho é um projeto de constragimento pertencente a esquerda. Nem de longe. Os jovens do rolezinho gostam de ostentar todos os “símbolos podres” do capitalismo ou do neo-capitalismo com toda a pompa de suas marcas excludentes e discriminadoras. Os jovens do rolezinho estão fora do padrão da esquerda, porque amam ser capitalistas (só não tiveram como armanezar de forma individualista e mesquinha uma quantidade maior do vil metal do que em relação aos outros, os brancos e bem criados, que acumulam muito mais do que o necessário). Eles não são fruto do projeto da esquerda contemporânea (que transmutou-se numa luta coletiva por privilégios individuais), porque não se importam com nada dessas coisas. Mas eles também não se deslocam para o lado diametralmente oposto, e também não estão no meio. Eles são o remix da imagética pobre (pele queimada e oleosa, cabelos de cores claras e vivas, contrastes entre roupas e acessórios) mesclada com as referências de bom gosto do universo branco burguês. A “beleza” deles não está dentro daquilo que pode ser aceito num templo do desperdício consumidor e ostentação (ainda que eles queiram estar ali para, do seu jeito, ostentar também),  habitado exclusivamente pelo “seus patrões”. Eles não são bem aceitos, benquistos. Eles estão fora do padrão e o que está fora do padrão tem que ser excluído, segundo a lógica do capital.

O rolezinho coloca tudo em cheque, porque deixa a voz do gueto e periferia muito mais altas. Essa voz que nunca calou, mas nem sempre foi ouvida. Só que eles não estão  ali para coitadismo. Estão ali pra disputar de igual pra igual. Além disso, para escancarar o que no Brasil tem uma força gigantesca: o apartheid social. Que nessas últimas semanas gritou para todos ouvirem em alto e bom som: EU EXISTO!

Esses meninos que se vestem dentro da imagética marginalizada provocaram um novo colapso nos formadores de opinião, nos gestores públicos, nos conversadores. Um colapso teórico, porque eles estão fazendo aquilo que nunca poderia ter sido feito na prática: “invadindo os espaços de paz e tranquilidade da classe dominante”. Eles não querem ser dominados. Eles quebraram a barreiras e expuseram as feridas escondidas. E mais, eles chegaram “no pior momento” para os seus detratores: época de copa, em que qualquer país quer aparecer bem na foto da comunidade internacional, quer se exibir para os países vizinhos e ser elogiado pelos europeus. E os meninos do rolezinho estão aí pra mostrar “que aqui mano, o buraco é mais embaixo e bem mais sujo”.

Não é “defesa de vagabundo”, como alardeia os coxinhas de plantão, é a defesa do espaço, da sua livre ocupação, da sua não-exclusividade social. é a defesa do direito básico de qualquer um, seja um branco rico ou um negro pobre (ou vice-versa): liberdade de ir e vir.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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Uma resposta a Sacando dos rolezinhos

  1. Amanda diz:

    Excelente visão. Também acho que o pobre, favelado, tem o direito de frequentar o ambiente que quiser. Teve um shopping que durante a divulgaçao era anunciado que foi projetado para o publico AA. O proprio empreendedor ja começa implantando na cabeça das pessoas o preconceito…
    Brasil, um país de poucos!

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