O homem que demonstra


Homem-ChorandoMuito se tem reclamado a respeito de o quanto nos mantemos presos a velhas roupagens de pensamento, de o quanto o mundo de hoje é a apenas a sofisticação das estupidezes de ontem, de o quanto estamos apenas reforçando antigos erros. Em parte, isso tem seu lado (lados, eu diria) de razão (razões também, não?). O humano é a perpetuação da ignorância (característica essa exclusiva sua). E das várias ignorâncias tradicionais que alimentamos, uma das piores ainda é o machismo: aquilo que você nega ter, mas demonstra o contrário todos os dias.

O machismo é a representação áurea da capacidade de um gênero conseguir definir superioridade por meio da força física. Não preciso me prolongar em dizer que a origem do machismo está na força: do caçador que conseguia arrecadar mais caças, do macho alfa que conseguia matar de forma mais cruel os seus inimigos, do homem mais forte da tribo que conseguia ser o mantenedor do maior número de fêmeas. Assim se deu a base do que hoje chamamos machismo. Hoje, essa primeira característica, se mantém, com poucas ou quase nenhuma mudança. E dessa primeira característica, originou-se outro sustentáculo do machismo: a da não-demonstração de fraqueza. O que seria fraqueza pra essas mentes? Qualquer sinal de que você, homem, se assemelha ao gênero “fraco”,  mulher. Se elas não conseguem carregar peso, e você também não, fraco; se elas choram, e você também, fraco; se elas se desesperam em momentos de tensão e você também, fraco; e tantos e tantos etcs. Talvez, das bases do machismo, a não-demonstração seja uma das mais cruéis. Pois é por meio dela que você anula o que se é. Anula sua humanidade. Ou por acaso vocês ainda não perceberam que o machismo não é humano?

Logo no primeiro momento do machismo, ele já mostrou a que vinha: destituir de qualquer credibilidade aqueles que se encaixam no seu oposto. Se você não possui as características de um macho-alfa e soberano, é um inútil. Isso foi a base do nazismo, das guerras étnicas que dizimaram milhares do mundo. Porque, ao contrário do que Marx achava, a real guerra do mundo não é a de classes, mas a de gêneros. Porque para os machos, se você, homem, não é forte o suficiente, não aguenta a barra, a pressão, e chora, você não é um homem: é no mínimo uma bicha, um viadinho, um afeminado. Tudo que para o macho não vale, é colocado do outro lado, do lado feminino. Desde sempre e talvez hoje mais, devido a sua sofisticação, o machismo nunca afetou tão somente as mulheres, apesar delas serem, também desde sempre, as suas maiores vítimas, o machismo é também contra o seu próprio gênero. Porque pro macho não importa se é homem ou mulher, o que importa é estar acima de todos aqueles que não se encaixam. O machismo afeta tantos homens quanto se pode imaginar.

Mulheres, as machistas, que excluem homens que “não têm pegada”, que não “têm como me bancar”, que choram. Isso é desdobramento do machismo. Homens que demonstram, seja felicidade, seja tristeza, esses estão fora da roda. Gays masculinos morrem mais pelo fato de terem coragem de demonstrar, do que tão somente por serem gays. E os héteros que demonstram são recharçados, seja por piadinhas, seja agressões verbais. Demonstrar é pecado, dos piores. Ser extremamente romântico é rídiculo, chorar em público é ser fraco. Homem não pode demonstrar.

Mas estamos na época das rupturas, das reviravoltas, das necessidades de transmutações. Hoje é dia de reformular. Homem tem o livre direito de demonstração de suas emoções, sejam elas quais forem. De dizer que ama outro homem, de beijar outro homem, de chorar quando vê um filme, de rir desbragadamente, e de se desesperar. Se você, homem, for recriminado por alguma mulher (ou qualquer pessoa) por demonstrar, não dê bolas, é somente mais uma mulher machista reprodutora de um sistema excludente. Se sujeitar ao machismo para ser aceito é que não deve ser uma opção aceitável.

O ruim mesmo é querer se adaptar à isso, e se tornar mais um reprodutor e perpetuador  de um erro, de uma burrice. Não se prive das demonstrações, não se reprima. Chore, grite, se desespere, ame quem você quiser. Seja homem!

E não se esqueça: precisamos de homens feministas.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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Uma resposta a O homem que demonstra

  1. Amanda diz:

    Achei meio gay esse texto. kkkkk, brincadeira.
    Quando o homem decidi assumir que é um ser dotado de emoções, ele tem que estar psicologicamente preparado para as prováveis repressões que irá sofrer. Por que nesse mundo capitalista tudo tem um preço e muitas vezes paga-se cara por querer nadar contra a maré. É mais facil o rapaz seguir o modelo machista pre determinado do que lutar sozinho por uma causa que é verdadeira…afinal a maioria quer ser aceita pelo grupo e topam qualquer parada, até anular os próprios sentimentos.

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