Só aceitamos o Chico Bento


franciscoQuem tem achado que é somente o tal do papa Francisco que tem vem por ai, ta redondamente enganado. Papas só andam de gangue. Funcionam como mafiosos italianos, cheios das confabulações. Nunca dão ponto sem nó. Aquela imagem delicada e frágil de um senhor de parcos e brancos cabelos, voz suave, olhar meigo, e jeito de “ai que vovô fofo, quero um pra mim” é somente capa. Nenhum papa é fofo, santo, e menos ainda delicado. Todos, exatamente nesse termos gerais de todos, os papas são chefes de Estado. E como tais, não podem se dar ao luxo de ficar construindo uma imagem, ainda que minimamente, negativa de si. Tem que ser a mais positiva possível, com todos os enfeites imagináveis. E por ser o chefe de uma das mais ricas instituições do mundo, ainda traz em si a bagagem da áurea religiosa que o envolve: paciência, bondade, amor, caridade (ok, nada disso é “criação” do cristianismo, mas na cabeça deles, convenhamos, isso tudo é fruto dos ensinamentos do Nazareno), todos cristalizados com os adornos da santidade e consagração da religião cristã. Uma complicação.

Papa Francisco, primeiro papa da América Latina da história, e que chega, nesses poucos meses de seu pontifício, construindo a imagem necessária para o líder maior da Igreja Católica Apostólica Romana: a da humildade, tão necessária nesse tempo tão prepotente de tantos “sabem tudo”; abertura ao diálogo, outro dilema do nosso século em relação as lideranças e gestores; como também a simpatia, coisa que os latinos ganham de letra dos papas do “Velho Mundo” (mundo que, acho, deve estar ficando caduco). O Papa Francisco, prefiro chamar o sumo pontífice de Chico (coisa de brasileiro, que já nos primeiros minutos de conversa cria intimidade), está indo bem na sua estratégia de conquista. Tem momentos seus de extrema simpatia, de fato. Como quando se abriu às perguntas de crianças, que, graças a Deus, não têm papas (com perdão do trocadilho) na língua, e as respondeu com bastante sapiência. Ou nas suas outras boas demonstrações de “humildade” ao renegar os luxos e privilégios relegados a todos aqueles que ocupam o cargo em que está (que, vale frisar, não é de ser o representante máximo de Deus na terra, e sim de conseguir gerir, estando na linha de frente, o caos em que a Igreja Católica está). Esse Papa, como João Paulo II, é bem pop. Mas não fiquemos assim tão empolgados com ele.

Um papa latino não é escolhido assim no aleatório. Aliás, poucos foram escolhidos assim. Um papa da América Latina foi escolhida pela posição estratégica que um papa dessa região pode representar para a Igreja. No velho mundo, a Igreja está com uma imagem desgastada, devido aos casos (inúmeros) de negligência com a pedofilia descarada que aconteciam nas paróquias. Já no novo mundo (que parece nunca querer ficar velho, sempre marteiro e metido a malandro), a força da Igreja (essa com I maiúsculo) ainda está em voga, com fiéis de fato fiéis, que defendem sua amada igreja com unhas e dentes, e suas lideranças como se fossem parentes próximos. Eis ai o ponto nevrálgico e politicamente estratégico de um papa latino: retomar a força e potência da Igreja, mas agora de “baixo para cima” (questão de ponto de vista no mapa, poupem-se desse debate), saindo dos países baixos e trazendo essa força para os países altos (posso usar essa expressão, politicamente corretos?).

Porém, a América Latina apresenta um grave problema: por ser tão aberta a religiosidade (também contando com o fator histórico de ter sido colonizada por países cristãos), quem tiver um bom discurso e for persuasivo, consegue conquistar pro seu grupo. E isso tem acontecido nos últimos anos de forma bem categórica com as igrejas protestantes, que têm conseguido angariar cada vez mais fiéis para os seus rebanhos, de forma fragmentada nas mais de 30 mil denominações religiosas existentes só por essas bandas de cá. É muita opção, para todos os gostos. Eis o problema com tanta oferta (e procura), e ofertas flexíveis, que se adaptam ao gosto do freguês, as pessoas começaram a escolher essas opções ao invés da inflexível e considerada retrograda Igreja Católica. O efeito, previsivelmente, foi o em cadeia: com a baixa cada vez crescente da lista dos católicos e a alta no rebanho protestante, a Igreja Católica foi perdendo seus privilégios. E entendamos mais a fundo esse processo: as igrejas e a religião hoje, assim como sempre, tem uma importância política fundamental (vai me dizer que nunca viu um discurso político do Marcos Feliciano?). Imagina você ter uma legião de pessoas ouvindo e acreditando em qualquer absurdo que for dito, que esteja calcado na Bíblia (o mais bem sucedido livro de ficção de todos os tempos). Além da força política que dominar uma multidão de bitolados tem, existe também algo bem valioso nessa relação ai: o dinheiro. Sim, o dinheiro, a força motriz e moeda (no sentido ilustrativo, nesse caso) de troca das barganhas que a religião consegue ter para suas negociações (espero realmente não estar contando nenhuma novidade, tendo em vista que sempre foi assim, desde que o mundo é mundo). Por isso o desespero da excelentíssima Igreja Católica: ela está perdendo gente e dinheiro. Qualquer pessoa que viva nesse benquisto mundo capitalista sabe que isso significa muitos problemas, muitos! Como sanar isso, Vaticano amado? Exato, vamos mandar o Papa (e o papo) para o Brasil! (Elementar, meu caro Chico!).

O Brasil é o maior país cristão do mundo, um exemplo para todo o planeta no que concerne a religiosidade (Sherazade e seus pertinentes comentários estão ai para comprovar). Bem já no restante das coisas, não precisamos comentar aqui por enquanto. Além de ser o mais cristão dos países, o Brasil também é o mais católico deles (ainda que mais de 90% desses católicos se encaixem no pejorativo grupo dos “não-praticantes”). E na desadesão do Bento, que pediu pra sair, e entrada do Chico, o carismático argentino, a Jornada Mundial da Juventude foi escolhida para ser sediada no Brasil (apesar, antes que algum esperto faça observação sagaz, da escolha da sede ter sido anunciada pelo próprio arregão Bento), esse país lindo abençoado por Deus e bonito por natureza.

Estamos sabendo que Papa não anda sozinho. O cara é de gangue, galera da pesada que não brinca em serviço. Essa vinda está gerando diversas polêmicas, algumas poucas válidas e outras pertinentes. Uma deles é o custo da visita: valores, a depender da fonte que você pesquisar, oscilam de 100 a 300 milhões de reais. Não importa qual valor você encontre por ai, seja nas redes sociais ou em jornais, eles sempre serão altos. O que não é de se estranhar num país tão laico quanto o nosso que designa aeronaves militares para fazer o carregamento do veículo (que foi feito especialmente pra essa ocasião) onde o papa vai fazer seus traslados oficiais. Óbvio que o nosso querido Chico não perderia a oportunidade de bancar o humilde (um fofo, não?): nada de grandes hotéis luxuosos, vai ficar numa simples paróquia (já toda modificada para a recepção) numa cama de solteiro. O Brasil, que tem andando com o filme queimado na comunidade internacional, vai fazer de tudo pra receber bem nosso querido pontífice. Mas, nessa época de manifestações e desprezos até mesmo pelo tão idolatrado futebol maroto e moleque, a vinda e os gastos estratosféricos com o papa estão suscitando represálias. Com receio dessas represálias serem mais agressivas do que já estão sendo (não entro no mérito de ser certo ou não, que fique para outra conversa), o Estado (laico e cheio de bom senso) já deixou de prontidão a força armada para conter qualquer tipo de exaltação que não seja para o Senhor! O que numa ópera bem resumida pode ficar assim: o papa não será bem vindo por representar o que não tem agradado mais. E aos desafetos dessa visita somam-se todos (com exceção dos milhares de católicos que encaram essa visita com fervor de fã do Justin Bieber e que já se inscreveram na Jornada): de protestantes a ateus militantes (quase a mesma coisa, com mínima diferença de estarem em diferentes pontas).

Os protestantes se manifestam por acharem ridículo gastar uma fortuna com o líder da igreja que eles mais abominam e que perde um tempo terrível, segundo eles, venerando estátuas. Os ateus militantes, que nesse caso são os ridículos, estão fazendo suas manifestações pelo gasto de dinheiro público de um Estado laico em eventos de uma denominação religiosa específica, além de considerarem ultrajante a manipulação descarada que pode ser feita com a juventude brasileira (perdão, mundial) nessa Jornada, segundo eles, claro; já propondo a ridícula (essa palavra tão querida na nossa conversa) ideia do “desbatismo”.  Enfim polarizações diversas para algo irreversível.

Não suportava o Bento, por inúmeras razões que se forem listadas aqui, estenderão ainda mais essa nossa conversa, e não simpatizo com Chico. Me soa levemente forçado, além de revestido de uma santidade que não tem. Chico é conservador e inflexível, talvez tanto quanto Bento. Não acho interessante a proposta da Jornada Mundial da Juventude por ela ser tão estúpida quanto nonsense (outra longa lista de razões inviável para o momento). Por isso acho válido dizer que, entre chicos e bentos, o único que é aceitável por aqui é o Chico Bento, o único que de fato representa os tão utópicos “desejos do povo”.

Está consumado!

Opa, quase consumado. Uma das melhores considerações feitas a respeito dessa lenga lenga de papa e juventude, foi feita pelo jornalista paraense Vladimir Cunha. Fiquem com a pérola:

“Jovem tem que tocar guitarra, foder, fazer fanzine, viajar, fumar um, pegar o primeiro porre, montar banda, ir pra festival, ver filme, ler gibi, se encantar com o Kerouac, fazer merda, sofrer por amor. Não tem porra nenhuma que ir atrás de papa. ‘Juventude’ e ‘papa’ são duas palavras que não ornam na mesma frase.”

Agora sim: está consumado!

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
Esta entrada foi publicada em Notícias ou Atualidades com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

2 respostas a Só aceitamos o Chico Bento

  1. “Se as pessoas acreditam em tudo o que ouvem, então não há diferença entre a verdade e a mentira.” Uma frase que se aplica perfeitamente aos católicos fervorosos desse mundo

  2. Guilherme diz:

    Mesmo se for o papa essoa simpaticîssima e boa, não muda muda o fato de ser o lider de uma organização medieval e reacionária. Se não conseguem mais os bons espaços no primeiro mundo, … , bom, vamos lá pegar o que nos resta entre os ignorantes do mundo atrasado.

Faça seu comentário. Exponha sua opinião!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s