Convergência


I

Os peitos eram pequenos. Cabiam na boca. Podiam ser totalmente cobertos com a palma da mão. Pequenos, delicados, como duas, na pior metáfora que um medíocre drogado como eu poderia pensar, como duas maçãs novinhas, macias. A pele que envolvia aquelas duas bolinhas de carne, era suave, doce. Cada vez que mordiscava o bico róseo, ela ficava toda arrepiada, e ela soltava um gemido fraquinho, mistura de dor e prazer.

II

Não dá. Não dá para escrever um conto com esse começo. Parece conto de menina que perdeu a virgindade com o menino dos sonhos e quer bancar a ninfomaníaca para que o ego seja inflado pelos seus leitores, público constituído de pré-adolescentes masturbadores cheios de espinha, que lhe derramarão elogios condescendentes e mentirosos (alguns até verdadeiramente elogiosos, pois não se pode esperar muito da cabeça de alguém que fica lendo esses textos), e que escondem (ou escancaram) a real intenção de apenas comer a pessoa que escreveu. Não dá pra escrever essas coisas. Não dá pra enganar os leitores com essas baboseiras (até daria, mas me cansa mentir pra mais de uma pessoa que não seja eu). Eles não gostam dessas idiotices e babaquices juvenis (até gostam, mas não ficam dizendo isso por aí, pois hoje está na moda gostar de Godard, Tarkovski, Andrey Hepburn, e tudo que seja em preto em branco, contos metidos a intelectuais e escritores que conseguem vender mais de uma dezena de milhões de livros por semana). Por isso pense em escrever outras coisas. Ou pode ser as coisas de sempre: fale da sua incapacidade de escrever, dos seus poemas que beiram a débil mentalidade, ou ainda das transas decadentes que você teve na semana passada. Talvez seja uma boa opção falar sobre qualquer coisa sobre as suas aventuras masturbatórias. Você sempre escreve sobre isso e dá certo. Até algumas coisas legíveis saem dessa vitrine da falta de talento. Vai, escreve algo que eles gostem. Pensa logo e comece a preencher essa folha vazia aí na tua frente.

III

De novo isso, tento escrever um conto e só me saem essas escrotices. Estou cansado de uma noite em que eu deveria ser o homem da noite, mas acabei me tornando apenas o amigo do homem da noite. Ou seja, uma estrela menor. Não gosto de perder o foco, não o da disciplina, mas o do holofote. Passei uma vida sendo apenas o segundo homem, o segundo elemento, o terceiro da lista, o terceiro premiado, o que ficava sempre no segundo ponto mais alto do pódio. Todos olham para o primeiro, o segundo é figurinha invisível. Será que vão querer ler sobre o porre que tomei, ou das estranhas que beijei sem saber que estava beijando? Vão querer saber do rapé que cheirei e me fez lagrimar e vomitar por meia hora e depois melhorou minha respiração, que acabei estragando dentro de um bar cheio de fumantes? Não, não vão querer saber.

IV

O sono está cansando mais do que o normal hoje. Sinto as pálpebras com pesos diferentes. Ela não queria mais conversar. As respostas eram curtas e grossas. Não eram mal educadas, mas não tinha educação alguma. Poderia dizer que não queria mais conversar, sendo direta em dizer isso de forma clara, do que por meio de sinais nas entrelinhas. Se fôssemos um pouco mais diretos, as coisas se resolveriam muito mais rapidamente. Pra quê tantas burocracias nos relacionamentos? Se ela fosse direta em dizer quando quer ou não transar, me evitaria um conjunto conjugado de problemas que enfrento só pra ver se ela vai ou não dar essa buceta insossa dela. Por enquanto não tenho outra, então preciso usar minha paciência pra me manter comendo essa. Já faz dois anos que estamos nisso: conversas condescendentes, transas obrigatórias, orais insuportáveis, programas frios. Ela está morta. Alimento o cadáver que queria ainda ter comigo, mas não posso. É para se sentir pena. Ela está aí do meu lado na cama, mas sinto que está tão distante que nem consigo tocá-la, típico drama de casais que casam cedo, sem saber o que estão fazendo. Em todas as transas, automáticas e maquinais, sinto náuseas. O seu corpo me causa asco. Um corpo lindo, daqueles que os meninos endurecem ao ver numa revista. Mas insuportável. Traímo-nos, trocamos de corpos todos os dias, e nos suportamos, num convívio pacífico, porém intragável. E assim seguimos. Não nos separamos porque dependemos da presença do outro pra dar uma razão mórbida a nossas vidas. Éramos duas bostas que precisavam da outra pra ignorar o próprio fedor. Um amor às avessas.

V

E nada tinha continuidade. Cada vez mais distante ele estava de mim. Não sei o que tinha feito. Fazia algumas semanas que estava assim. Desconfiei de outra pessoa entrando no relacionamento. Pensei logo em traição. Não teria outro motivo pra mudar tão rápido em pouco tempo assim. Não seria ruim se tivesse outra pessoa entrando e transformando essa reta monótona do casamento monogâmico num interessante triângulo polígamo.

VI

Hoje meu filho chegou sorridente do colégio. Tinha conseguido a nota máxima na prova que tinha feito. O sorrisão era de orelha a orelha. Por isso deixei ele comer sorvete antes do almoço, assistir os jogos que queria e dormir um pouco mais tarde. No outro dia ele nem foi à escola, por ter acordado atrasado. Não tinha problema. Era o melhor aluno da turma.

VII

Ele foi colocando tudo aleatório no papel. Eram coisas confusas, que nem saberia explicar se pedissem pra fazer isso. Não sabia o que estava escrevendo. Apenas precisava escrever aquilo pra se sentir um pouco leve, pra fazer com o que o efeito do álcool e do pó passasse mais rápido. Escrever era a terapia que não podia pagar. Até então tinha dado resultados: deixou de bater na mulher para escrever, deixou o filho, o melhor aluno da escola, faltar algumas aulas para escrever; começou a comer a empregada menor de idade, mas que já tinha corpo de mulher feita, pois ela o ajudava a escrever.

A empregadinha era uma menina que tinha vindo à cidade grande (grandemente estúpida, insensível, egoísta, massacrante, estressante e barulhenta) para tentar emplacar seu projeto de vida: conseguir terminar os estudos e começar uma faculdade. Por enquanto isso era impossível. Foi trabalhar como doméstica na casa desse casal estranho, que há semanas não se falava, e que tinha um filho que vivia escondendo a cabeça atrás das folhas dos livros e não comia direito. O patrão era pura educação, gentileza. E ela, mesmo sendo menina interiorana, sabia qual era o objetivo dessa tão devotada atenção. Não era o primeiro. Ela sabia até onde os homens iriam para comer bem. Sabia que ele queria comê-la, que tinha sede na sua vagina, que fantasiava comer a empregadinha do interior. E iria usar isso a seu favor, como todas usam o sexo: para tirar proveito próprio. Começou a flertar com ele, até que pouco tempo passado, já estavam transando às escondidas. O sexo era bom. Mesmo sendo um senhor de meia idade, o pênis era jovem e o fôlego era muito. Passavam horas trepando. Ele tinha fascínio pelos seus seios. E toda vez que ia comer o cu, ela gozava feito um animal. Gritava para tremer as paredes. Era a melhor dor que sentia. Mas de tudo o que nela tinha de lindo, o que ele mais gostava de ficar olhando, lambendo e mordendo eram os seios.

Foi a empregadinha, 17 anos, corpo de 25, conversa de 12, sexo de 30, que lhe deu novos ânimos para voltar a escrever seus contos sacanas, uma tentativa burra de imitar Miller, e assim ele começou um novo conto, totalmente inspirado na menininha que lavava suas louças:

VIII

Os peitos eram pequenos. Cabiam na boca. Podiam ser totalmente cobertos com a palma da mão. Pequenos, delicados, como duas, na pior metáfora que um medíocre drogado como eu poderia pensar, como duas maçãs novinhas, macias. A pele que envolvia aquelas duas bolinhas de carne, era suave, doce. Cada vez que mordiscava o bico róseo, ela ficava toda arrepiada, e ela soltava um gemido fraquinho, mistura de dor e prazer.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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