Um corpo só se esquece com outro


A vida é um processo de começo e recomeço (até aqui nenhuma novidade). Estamos sempre iniciando uma coisa, terminando-a, ou parando na metade e deixando incompleto e seguindo. Ou não seguindo. Ficamos também perdidos em planos e projetos futuros e vamos conseguindo realizar alguns e outros não (os motivos não importam). A vida é assim, ela segue esse fluxo, funciona dessa forma. Isso às vezes é comum e outras, muito dolorido e cruel, mas sempre passa (a dor, a decepção, a raiva ou a ansiedade). Dentro desse processo que é viver tudo que disse antes é potencializado de forma muito maior porque somos ligados a outros. E o Outro é o que mais tem de complexo. É com o Outro que vamos montando todos os nossos projetos, construímos os tais dos sonhos (olha isso de ser sonhador é coisa perigosa). Dependemos sempre do Outro. Mas isso é arriscado. Muito arriscado, porque o Outro pode não estar na mesma sintonia. E quando acontece o choque pode ser muito maior do que se imagina.

Como viver é troço complicado, perigoso, arriscado, difícil e, para piorar e melhorar tudo, existe o Outro, as coisas se tornam mais complexas ainda quando nessa relação com o Outro entra um sentimento (que descreio da existência) que chega  avassalando com tudo (prefiro a expressão “fode com tudo”, é muito mais sincera): o tal do amor. Amor é uma coisa que a gente criou pra justificar as cagadas que fazemos por uma determinada pessoa (como se fosse um porre onde fazemos tudo o que queremos fazer, e que não faríamos em outras circunstâncias, e depois dizemos que foi culpa do álcool), mas não quero entrar no mérito da questão. Onde quero chegar é no ponto onde estamos (e só estou falando assim, me incluindo, para ser um cara solidário) em que temos uma relação amorosa com alguém e nos envolvemos a tal ponto que não conseguimos mais ver nossa vida sem a presença dessa pessoa. Quase todo mundo já viveu isso ou ainda vai viver (sua hora está chegando, leitor querido). Não vejo mal nenhum em amar desvairadamente (olha a redundância), é uma coisa boa (quando está sob alguns limites que podem ser facilmente estipulados pela única parte verdadeiramente linda do corpo humano: o cérebro).

Quando estamos ligados assim a alguém, nunca queremos pensar no fim dessa relação (que sempre acaba), porque sabemos que vai doer. Mas acaba, como tudo na vida. Aí chega o momento mais triste na vida de um amante: o cair na realidade. Esse é momento em que o amante se dilacera, sofre aos montes e toda sua vida perde o sentido (expressões tão conhecidas pelos meus queridos leitores adolescentes). É o fundo do poço, a pior coisa que poderia acontecer com alguém (exagero, óbvio). Tenho muitos amigos e amigas que viveram e estão vivendo um processo de separação, porque é um processo que pode demorar (dependendo da pessoa). E cada um reage de uma forma. Alguns disfarçam e segue a vida muito bem, outros se entregam a tristeza e remoem cem milhões de vezes (e esse número não é um exagero) todas as cenas do momento da ruptura, de como era a vida com o ex-amor (ou ex-atual-amor); pensando no tamanho do espaço que ficou, de como poderá ser preenchido, e outras coisas mais (muitas coisas mais). Dói ver as pessoas do segundo grupo, pois elas realmente estão sofrendo com a distância do objeto do seu amor (não se ofendam pela palavra “objeto”, afinal somos isso um para o outro). Choram muito, pensam muito, remoem demais. Tudo é hiperbolizado a enésima potência. Coisa dolorida pra qualquer um ver. Claro que isso é ocasionado pela ilusória idealização construída na visão ocidental do amor e dos amantes que faz as pessoas pensarem tantas coisas desnecessárias e se martirizarem de forma quase que sádica. E diante disso, de tudo isso, é sempre salutar perguntar: como resolver isso?

O grande problema das pessoas hoje é o medo. Ninguém vive de fato. A vida acaba sendo uma anulação da própria existência, seja pela covardia ou qualquer outra coisa estúpida. Se vivêssemos de forma a potencializar nossas vontades sem enquadrá-las nos padrões do “certo” ou “errado”, ou do que “deve” ou “não deve”, a coisa seria totalmente diferente. A grande questão é arriscar. Risco: sempre bom correr. Temos que viver a vida dessa forma: como se ela fosse uma piscina na qual temos que pular sem saber se tem ou não água nela. Alguns pulam sem querer saber, e se tiver água, a coisa vai ser linda; outros não pulam nunca e ficam na impossibilidade de saber a temperatura da água, caso tenha alguma. Os que pulam são aqueles que tentam descobrir novas experiências com novas pessoas e se abrem a possibilidade de sentir novas coisas por novas pessoas. Elas podem se decepcionar, claro. Mas também podem sair da fossa sentimental e curtir (essa palavra tão juvenil e adolescente) um novo amor ou uma nova paixão. Tudo o que escrevi foi apenas pra falar o chavão: um amor, só se esquece com outro (não estranhem, meus habituais leitores, estou no clima de colunista da Capricho). Ok, não acredito no amor, entrei em contradição. Quase. Como sou descrente do amor e de sentimentos afins, prefiro a seguinte frase: um corpo só se esquece com outro. Não se pode é hesitar em explorar, experimentar e nem se jogar. Cada vez que dizemos “não” pra uma nova paixão-amor-corpo, estamos dando abertura de um “sim” para a tristeza e solidão (e não existe coisa pior do que solidão, depois de ficar sem internet).

É isso, queridas leitoras da Caprichos da Existência: parem de medo, deixem de pensar demais, racionalizar demais, vivam, e se joguem, se a piscina vai ter água ou não, é apenas um detalhe desnecessário.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
Esta entrada foi publicada em Coisilidades, Filosofando com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

6 respostas a Um corpo só se esquece com outro

  1. Alcir Ferreira diz:

    “O grande problema das pessoas hoje é o medo”. É quase um combustível.

  2. Thayse Panda diz:

    O Amor é desconhecido, mesmo que já o tenha antes..
    De fato, sempre se ama pela primeira vez.. mesmo na segunda, terceira, e quarta, e outra..
    Detalhe: (e não existe coisa pior do que solidão, depois de ficar sem internet).

  3. Edmar Oliveira diz:

    Belo texto, Ricardão. Deixe o amor e a paixão fluírem. Ninguém, por mais “durão” que pareça, é só razão. Todos somos raciocínio, sentimentos, impulsos. Ego, superego, id. E você está apaixonado, rapaz. Amor e paixão nem sempre estão juntos, o que parece não ser o seu caso. Curta isso à vontade, amigo. Abrir o coração publicamente assim é louvável, mostra confiança, autenticidade, maturidade. Além de reforçar laços afetivos. Abraço

  4. Kelly diz:

    Preferia quando tínhamos conversas ao vivo e você falava…

  5. Marcella Viana diz:

    Te amo ricardo

Faça seu comentário. Exponha sua opinião!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s