Não gostou? Justifique sua resposta


Tenho percebido, em conversas corriqueiras, que as pessoas estão ficando cada vez mais interessadas no que se convencionou a chamar de Cultura (esse conjunto de comportamentos e obras veneradas e alçadas ao nível de incriticáveis por um pequeno grupo de pessoas, que também se convencionou chamar de elite). Essas pessoas têm uma grande sede de Cultura (essa com C maiúsculo): entopem as peças de teatro, empilham as galerias, enchem as salas de cinema (claro que somente na sessão daquele filme iraniano ou russo), e fazem questão de postar no Instagram a foto do ingresso da apresentação de música erudita. Essa turma tem engrossado cada vez mais as fileiras de quem está consumindo Cultura hoje. Não vejo problema nenhum nisso (exceto o fato de que, as que entopem as peças de teatro levam crianças pequenas e não param de conversar; as que enchem as salas de cinema, não saem do celular; as que vão aos concertos batem palmas no final do primeiro movimento). Essas pessoas gostam de Cultura porque hoje é bonito e muito cool ser alguém eruditizado. Só que tem um problema, esse filão que têm ocupado as cadeiras dos locais de “elite”, não sabem muito bem explicar porque gostaram do que viram-ouviram-leram, estão lá porque esse é o movimento das coisas agora. Gostam de Clarice, mas nunca leram um livro sequer. Gostam de Prokofiev (ok, exagerei porque eles só gostam dos pops do tipo Beethoven, Chopin, e etc), mas não nunca ouviram “O Amor das Três Laranjas” ou “Guerra e Paz”. Gostam apenas por gostar, não têm base para explicar porque gostam. Essa turma não me preocupa; os que me preocupam mesmo são os lidos, aqueles que dizem pra você “precisa ler mais pra falar que os filmes do Woody Allen (diretor que, aliás, gosto muito) são ruins” ou coisas do tipo. Esses são terríveis.

Esses intelectuais de bar não são os ditos pseudocults (aqueles que compartilham qualquer coisa que tenha os seguintes nomes: Nietzsche, Freud e Kafka), eles são pessoas instruídas, que realmente leem os livros que têm nas suas estantes, que realmente conhecem o cinema indiano (têm os dvds originais), que têm na suas casas a obra completa de Heitor Villa-Lobos, são pessoas eruditas de fato. Não são pessoas chatas (estou sendo sincero, longe de mim a ironia); suas conversas são as melhores, seus programas os mais divertidos. Mas não suportam uma frase (que é a que eles mais usam): “Não gostei”. Essa frase jamais pode ser dita depois de um concerto de Beethoven (principalmente se for sob a regência de Gustavo Dudamel), jamais pode ser pronunciada diante de um quadro do Jackson Pollock, nem imaginada depois de um filme de Ingmar Bergman. Caso você cometa a estupidez de dizer a frase maldita, terá que responder a infernal pergunta: “Mas por quê você não gosta?”. Nesse momento a coisa esquenta. Nem pense em dar uma resposta qualquer (aquela que você daria para o seu priminho irritante). Tem que ser uma resposta com tom de tese de doutorado, citando os mais diversos teóricos-pensadores-especialistas para dar suporte ao seu argumento. Se não gostou, tem que justificar.

E diante disso me pergunto: por que tenho que justificar?Existem coisas que não se gosta no primeiro olhar (e nem venham com o contra-argumento de que o primeiro olhar não revela todos os detalhes, porque tem obras de arte – e os pseudocults vão achar que estou falando de pinturas – que mesmo se olhando uma vida toda, não agradam) e nunca vai se gostar. Existem músicas clássicas que são horríveis, livros canônicos que são uma bosta, filmes de diretores idolatrados que são insuportáveis (poderia dar um exemplo de cada um, mas quero evitar a fadiga e comentários estúpidos), e que não dá pra gostar por uma razão muito fácil de entender: não agrada. Não é uma questão de gosto (coisa muito discutível), mas de preferência. Não gosto e pronto. Não preciso montar um arcabouço teórico para justificar isso. Cansa ter que dizer minunciosamente as razões que me levaram a excecrar Avatar (e estou usando um exemplo muito novo de filme babado, para não tocar nos clássicos). Me enfada dizer porque não considero respeitoso chamar de “arte” (esse conceito que depende muito do humor dos marketeiros) qualquer quadro de Andy Warhol. E dizer que não gosta por não gostar não é um argumento fraco ou menor (claro que é muito melhor você construir uma defesa cheia de referências eruditas), é apenas um argumento feio. Você não precisa ler uma dúzia de livros pra montar sua justificativa de porque você não gosta de Basquiat. Essa mania de referenciar tudo é proveniente de um hábito academicista muito taxativo e excludente (“Se o que você está de me dizendo não tem referência, não tem validade”). Isso impossibilita a construção de conteúdo não-teórico, e permite apenas uma réplica exata de um determinado conjunto de conceitos que aprisionam qualquer opinião. Aí a coisa fica feia. Claro que a justificativa vai vir de qualquer forma, mas não precisa seguir uma fórmula específica para ser aceita, não precisa estar dentro de uma norma pra que seja válida. Não preciso citar Bashevis Singer pra dizer que não gosto de Franz Kafka (é só um exemplo gente, pelo amor de Deus! Eu amo o Kafka!).

Você tem plenos direitos de não gostar e obrigatoriedade nenhuma de justificar. Se não achou bom (e quem delimita o que é bom ou não, é você apenas), não precisa dizer mais nada (só não vá bancar o babaca que vai usar isso pra tudo na vida). Só pra fixar: o não-gostar não precisa de aval teórico, menos ainda de justificativa. Ponto final.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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10 respostas a Não gostou? Justifique sua resposta

  1. Tiago Luiz diz:

    Ricardo, primeiro você critica quem gosta por gostar, sem razão, e depois clama pelo direito de não gostar sem justificar. Por que de um lado precisa de justificativa e o outro não? Me pareceu controverso.

  2. Lílian Cunha diz:

    curti seu blog! não curti esse texto! haha, é sempre bom divagar o porquê de se gostar ou não das coisas, a discussão pode gerar frutos interessantes (quem sabe reavaliar uma opinião?). Dizer um não gostei e ponto final é rigoroso demais, é tipo esse “não gostou? que tal ir embora” ai do lado, tira toda a vibe, com ou sem referências, dialogar é ótimo, cara. Sua preocupação sobre quem está consumindo determinada cultura também é meio bobagem, quanto mais gente tiver acesso a qualquer tipo de cultura que seja, melhor! ‘Pseudocults’ (por que você os cita tanto por aqui? rs) ou não, tudo é valido. Pra alguém que prega tanto a liberdade do corpo, como vi nos seus textos recentes, a liberdade de pensamentos e o próprio debate, deveriam ser mais incentivados.
    (e andy wahol é incrível, você não pode tá falando sério, haha).
    abraço! :))

  3. Às vezes. a gente, ao justificar, quer testar a eficiência do discurso. Tentamos explicar o porquê porque – neste caso, refiro-me a mim – requer um esforço mental e corporal tremendo. Penso que defender uma paixão vale esse esforço.

  4. Não gostei! Tu não precisavas se justificar porque não gosta que as pessoas não gostam quando os outros dizem que não gostam de coisas que elas gostam!

    =o]

  5. É interessante como o gostar transcende a própria satisfação, torna-se um gostar para o outro. As pessoas estão mais preocupadas com o que aparentam ser que esquecem o que realmente são. “Bem, se a fulaninha consegue explicar, contestar e criticar o pq gosta de fulanão, é… Então ela gosta!” Isso é mto sofista, isso na verdade, remete ao paradigma das ciências naturais, ultrapassado… Mas que os pseudoqualquerdesgraça não cansam de usar. Gostar não é uma questão de explicar de modo elucidativo pq gosta. A gente gosta porque dá a liga, pq toca a alma, o gostar vem de dentro do peito, gostar é sentir arrepios, é ficar excitad/o com a coisa, em frenesi… Não é raciocinar. Eu fico excitada qndo leio Lacan, principalmente qndo demoro para entender… Já chorei assistindo filmes do Bergman, do Lynch, assim como chorei semana passada assistindo MIB, Homens de Preto. “Trocou o CineParaíso pelo CineImperator? Oh! Ela é uma burguesa” rs. Esqueçam a cabeça, percebam-se enquanto um organismo vivo… E vivam! Indepente do pq ou para quê!

  6. Cláudia Helena diz:

    Gostei muito do artigo porque também acho Basquiat um embuste, uma grande enganação. Fala sério! É muito feio e mal feito!

  7. Edmar Oliveira diz:

    Muito bom, Ricardão. Bem argumentado e embasado (eu falei embasado? Mas para quê embasar? hehehehe No caso de um artigo, é preciso mesmo embasamento). Não gosto de cinema e acho que cinema não é arte. Prefiro livros e música. Como assim, por quê?

  8. Milena diz:

    Eu gostei, preciso explicar?²
    Concordo plenamente com o texto, cansei de ter que discutir duas horas com algum amigo só pra tentar convencê-lo do porque de não gostar de tal coisa. Esse tipo de pessoa tem uma vestimenta de presunção tão absurda que não aceita um não como resposta, ainda bem que sempre tive um meio bem fácil de terminar “brigas” assim. Um belíssimo “FODA-SE eu não gosto e ponto final” sempre dá certo.😀

  9. Muito bom! De uma vez só, duas pedradas, uma na modinha e outra na intransigência. Vou compartilhar!

  10. Marcella Viana diz:

    Eu gostei, preciso explicar? rs Abraços

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