Prefiro as vadias


Existem milhões de tipos de mulheres no mundo. Umas muito interessantes, outras insuportáveis, outras fúteis, outras desligadas; e outras ainda que não são facilmente definíveis. Mulher é o que não falta no mundo. Elas sempre foram maioria, e tiveram fundamental importância na configuração das primeiras sociedades, foram grandes líderes (vide Cleópatra), revolucionárias (Joana D’Arc), foram catalisadoras de guerras épicas (vide Helena de Tróia), pensadoras de alta estirpe (Hannah Arendt). Não importa para onde você focalize a visão, elas vão estar lá, sendo maioria e importante.

Em determinadas épocas e sociedades, elas foram comandantes, em nações sob o governo ginecocrático, onde eram as mulheres as líderes que decidiam tudo o que acontecia e tinha que acontecer (até hoje existem governos que estão sob a tutela feminina – mas os governos atuais onde mulheres são gestoras não são governos femininos, só que isso é assunto pra outra conversa). Hoje a coisa é diferente.

No decorrer do tempo, graças a pequena porém dominante parte masculina, a imagem da mulher foi sendo descaracterizada, tornando-se figura de segundo plano (isso consequência de diversos fatores, históricos e sociopolíticos). Devido à essa descaracterização, a mulher acabou se transformando num ser subserviente, e subjugado; acabou se tornando uma plataforma de exibição da suposta vontade masculina. Foram os homens que construíram a visão que a maioria das pessoas tem hoje a respeito das mulheres. Mesmo depois de todo o processo de emancipação conquistado por meio de lutas e embates que as mulheres conquistaram, elas ainda são estimagtizadas por estereótipos que tentam diminuí-las.

Existe atualmente uma parcela exponencial das pessoas que querem definir qual deve ser o comportamento adequado para uma mulher ser considerada “decente” (essa conversa sobre o que deve e não deve ser feito é mais antiga do que a humanidade). O discurso que impera hoje ainda é o discurso machista, aquele que prioriza o que tem no meio das pernas e não na cabeça. Aquele discurso que te dá um salário maior pelo simples fato de ser do sexo masculino; discurso esse que diz que lugar de mulher é na cozinha, que mulher boa é mulher que obedece; o discurso que ainda é replicado numa velocidade assustadora ainda é o que defende a ideia de que mulher não pode ter direitos iguais aos homens. O mundo ainda é machista, e ainda tenta emplacar a ideia de que um sexo é melhor do que o outro. Deixa eu reformular a frase anterior: o mundo ainda é sexista; ainda tenta fazer com que um sexo ache-se melhor do que o outro. E nessa luta um lado tem vantagem histórica: o lado masculino. É esse lado que tem delimitado regras e mais regras.

Graças a essas regras fomos colocados dentro de caixinhas padronizadas que delimitam que tal comportamento só pode ser definido de uma forma. E assim caminha a humanidade. Se uma mulher é motorista de caminhão, ou trabalha em áreas de predominância masculina, ela é lésbica (pra não dizer sapatão); caso recuse uma cantada, ou fique com quantos caras quiser, é considerada vadia.  Mulher tem que obedecer aos homens. O sexo frágil tem que se tutelar ao sexo seguro (o sexo frágil que aguenta o tranco de ter que sangrar durante alguns dias todo mês, padecendo de cólicas excruciantes; o sexo que tem muito mais resistência a doenças e condições extremas – homem é só ter uma gripinha que já está “inutilizado”; o sexo que, sendo tão frágil, consegue administrar jornadas duplas e não perde o jogo de cintura). Mulher é “bicho” preso. A liberdade que a mulher tem é limitada (muito mais por aspectos simbólicos do que jurídicos ou legislativos – apesar desses pontos também carregarem, ainda, uma boa porcentagem de sexismo nas suas abordagens). Mulher é sempre a culpada: é sempre ela que está errada no trânsito, se uma negociação milionária não deu certo e tinha mulher metida no meio a culpa é dela, obviamente; culpa delas se o filho vai mal na escola. São culpadas por demorarem muito para escolher uma roupa e atrasar todo o programa da noite e, em casos extremos, são culpabilizadas pela maneira como se vestem, sendo taxadas logo de vadias, caso se vistam de forma sensual. Mulher que é vadia, é mulher que não presta.

Imagine a situação: uma moça vai à delegacia prestar queixas por ter sido estuprada e quando o policial que está de plantão a vê, manda a seguinte frase: “como você não queria que isso acontecesse, sendo que você está vestida como uma vadia¿”. A situação parece improvável, mas aconteceu de fato e, pior do que isso, reflete a forma como as mulheres são vistas hoje. É sob essa persectiva, sexista e estúpida, que as mulheres são vistas. Se são cantadas e vistas como objetos, é porque elas que estão provocando essas reações. Essa lógica é tão burra que fico pensando como as pessoas (não só homens, pois existem muitas mulheres machistas por aí) conseguem ver alguma razão nisso. Como conseguem achar algum sentifdo nesse ponto de vista. Graças a pergunta idiota do policial canadense (o caso que citei no começo do parágrafo aconteceu em Toronto), um grupo de mulheres, em mais uma etapa de sua série de lutas, se reuniu para formar a Marcha das Vadias (SlutWalk, na versão gringa), que é uma manifestação pela defesa da mulher autônoma sobre o seu próprio corpo. A Marcha veio para o Brasil em 2011 e já está proliferando-se Brasil afora.

Mulher tem que ser vadia mesmo. Quem disse que ser vadia é algo ruim¿ Temos que ressignificar esse termo, tirando  sua conotação negativa e vulgar. Mulher vadia é aquela que luta por seus direitos, que é dona de si, que não preocupa e nem se minimiza com uma opinião machista, que não se subjulga, nem submete a vontade de ninguém; vadia se veste do jeito que acha melhor, não se objetifica, não é idiotizada, não se vende a modelos estereotipados de comportamento. Por isso prefiro as vadias. Prefiro mulheres independentes, libertárias, que capitaneam suas próprias vidas. Mil vezes as vadias, do que mulheres que estão “dentro do padrão” e não se enxergam fora dele. Prefiro as vadias, que decidem com quem (e com quantos) se relacionar, e que preferem a liberdade do que a prisão dos paradigmas.

E você, prefere que tipo de mulher?

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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6 respostas a Prefiro as vadias

  1. Amanda diz:

    Eu prefiro a mulher que decidi ser o que quiser…vadia ou santa. Trabalhadora ou dona de casa. Namoradeira ou fiel a um unico homem. O ruim do feminismo é que ele impõe um estilo de vida e comportamento que considero repressor. Digo, so a mulher que trabalha fora tem valor…Aquela que decidiu viver para cuidar exclusivamente de sua familia, é burra, amelia, acomodada, sem ambição. A mulher feminista quando decidi ter um filho ja esta velha demais e classificada como gestante de risco e como ela trabalhou bastante e tem dinheiro pra isso, ela entao se submete a frustantes tratamentos para engravidar. Logico, nao sao todas. E tem tambem aquelas que engravidam na idade adequada e são obrigadas a deixar os filhos com estranhos em creche e nao pode acompanhar de perto o crescimento de sua prole. Somos fisiologicamente diferentes, temos ate os 35 anos para engravidar e nao a hora que bem entender. É ridiculo comparar os generos. Se hoje existe mulher fazendo serviço que no passado era exclusivo de homens, nao significa que todas precisam trilhar esse caminho. Ainda existe mulher que deseja apenas ser mulher, mãe esposa. Ninguem tem o direito de falar que essa mesma mulher não tem valor. O que quero dizer é homens e mulheres sempre serão diferentes, nao adianta querer forçar a barra. Quantas mulheres ja foram estupradas em missão de guerra pelos EUA. De que adianta colocar uma mulher no meio de uma guerra no deserto? O instinto animal falara mais alto. Certo não é, é monstruoso mas um fato. Enfim, mulher seja o que quiser e nao o que o feminismo manda voce ser.

  2. Deborah diz:

    Mais uma vez, o texto está bom, mas a imagem de ilustração reforça esteriótipos que vem sendo negado pelo feminismo e pelas próprias mulheres, sobre a qual você escreve, em sua identidade solidária com vadias, ou seja, do trabalho doméstico, do padrão estético midiaticamente imposto.

  3. Samila diz:

    Gosto das santas… se estas forem santas em essência, não por uma indução misógina, machista, imbecil, castradora. Gosto das santas livres, assim como gosto das vadias livres, das danadinhas, das intelectuais, das artistas, filósofas, pensadoras, atrevidas, loucas. Todas essas que desviam aquilo que imaginamos se correto ou ‘natural’. Estás de parabéns pelo texto meu caro! Bom ver um homem com pensamento dignos. Para mim, são esses os homens de verdade, e não aqueles que por insegurança precisam se apegar a crenças tão antiquadas quanto o machismo!
    ps: add você no facebook quando vi o cartaz da Marcha das Vadias

  4. Legal o texto. Concordo com seu ponto de vista. Só cuidado com as referências históricas… Mulheres foram subjulgadas durante a história da humanidade inteira. Desde o início das religiões (Islamismo, Judaismo e Cristianismo) até os grandes pensadores (de Platão até Hegel). Sexismo é tão antigo quando a própria história da humanidade.

  5. Tom R diz:

    Belíssimo texto, Ricardo.

    E respondendo a pergunta final.. Eu prefiro as vadias, é claro.

  6. André Prado diz:

    Palmas pro texto, muito bem escrito, concordo com tudo!

    Mulher mesmo é aquela que é livre, é valorizada por aquilo que pensa e principalmente pelo que faz, é mulher que precisa ser conhecida. As passíveis de julgamento, servem para povoar e só.

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