Sexo, traição e a propriedade do corpo


O humano é sexual, de forma completa e plena. Não existe outra coisa que influencie mais na vida de alguém do que o desejo da carne (a expressão pode soar religiosa demais, entretanto é a que melhor explicita o motor que nos move). Somos carnais, puramente carnais. Temos vontades que negamos, desejos que reprimimos, mas que estão lá, aguardando a hora de serem realizados. E o que mais deixa claro sob que tutela estamos é o sexo.

O sexo é aquilo que mais nos torna humanos (paradoxalmente o que nos animaliza, pois perdemos as estribeiras quando estamos transando ou querendo transar). O maior problema do sexo foi o significado negativo e proibitivo que ele adquiriu no decorrer dos séculos. O sexo se tornou uma moeda de troca (as prostitutas captaram logo como poderiam usar o sexo como ferramenta de sustento financeiro), apenas um mecanismo de chantagem e jogo de poder (quantos já não tiveram que jogar com alguém que pode oferecer o melhor sexo do mundo, e a principal moeda de troca no jogo era isso¿). Fomos feitos para o sexo, somente para ele.

Como todo bom animal, nossa função primordial tem matriz no corpo (claro que perdemos boa parte do nosso tempo tentando negar isso) e o que esse corpo possui é movido pela vontade de unir-se a outro(s). A primeira vontade não é pelo prazer, é apenas para multiplicar-se, transformar-se em outros. Afinal, estamos aí pra espalhar nossa semente nesse mundão. Mas como o mundo já está cheio demais, o sexo acabou tendo essa importantíssima responsabilidade de nos dar prazer. Entretanto, como é de se esperar, o sexo acabou, graças à influência da religião, adquirindo uma aura negativa, sendo transformado num pecado, num erro e, por consequência disso, um tabu. Como o corpo é visto como uma prisão, dentro da perspectiva ocidental de mundo, tudo que o envolve costuma ser visto de canto de olho. Mas como também somos espertos no que diz respeito a busca satisfazer nossas vontades, acabamos criando mecanismos que pudessem nos ajudar a fazer o que queremos: transar como animais. Escondidos e com todas as precauções do mundo, realizamos as nossas “escusas” vontades, damos vazão ao que a carne deseja. Porém tudo tem que ser escondido, clandestino, e, o que é pior, quando estamos representando (porque a vida em sociedade é sempre uma representação, uma interpretação de um ser que não somos) para os outros, reprimimos aquilo que fazemos como se fosse algo terrível. O grande problema que é ocasionado por causa desse comportamento, é a forma como vamos constituindo nossas relações, como vamos fazendo com que nossos relacionamentos se tornem pequenas prisões.

Mesmo vivendo nessa época onde a diversidade sexual é respeitada e a liberdade sexual estimulada, ainda existe o mesmo paradigma aprisionante no que concerne ao sexo e o relacionamento (que sempre deve ser de casal, sejam namorados, casados ou “ficantes”, mas sempre dois). O que permite que isso seja vislumbrado de forma mais clara é como vemos o que se convencionou chamar de traição. Trair é estar com outra pessoa no mesmo nível físico do que se fica com a pessoa com quem se está relacionando simultaneamente (viram como tudo pode ficar bonito se o conceito sobre isso for bem elaborado?). Perceberam como é que construímos a nossa perspectiva sobre a traição? Trai a pessoa que usufruiu do corpo de outra como usufrui do corpo da pessoa “oficial”. Vemos sob a perspectiva física a traição. Um erro. Primeiro porque não fomos feitos para ser monogâmicos: nossa constituição biológica não evoluiu para ficar presa a um único parceiro. Segundo porque é muito simples “trair” sem envolvimento físico: como todo relacionamento é um contrato de exclusividade, onde um deve pertencer ao outro, pra quebrar esse contato basta querer ser de outrem; pronto, não precisa de mais nada; não precisa de atrelamento físico para que o tal do contrato seja rompido. Terceiro, é que não podemos devotar todo nosso sentimento a uma pessoa: podemos sim nos apaixonar por várias pessoas ao mesmo tempo, ou “amar” (apesar de ser eu um cético desse sentimento aí) muitos simultaneamente. Vale frisar novamente: não evoluímos para a exclusividade. O corpo não foi feito para ser propriedade, para ser preso. Suas vontade e potencialidades não podem relegar-se aos mandos de ninguém. O corpo foi feito e “pensado” pela natureza para ser solto, para unir-se a outros e outros, tantas e quantas vezes for possível, numa eterna troca de energias, fluídos e prazeres. O corpo não é de ninguém, não deve ter dono. Por isso o autor desse textículo (por favor repare no xis antes de fazer piadinhas sem graça) é um árduo defensor da transversalidade corporal, dos polirrelacionamentos, da não-exclusividade do corpo, da naturalidade como potência motriz dos relacionamentos humanos. Não confundam como uma apologia da putaria, da sacanagem desenfreada (mas caso queiram fazê-lo, não me oporei), mas sim uma defesa do corpo em estado natural, livre.

O corpo é um pássaro devasso que surgiu para dar vazão a sua vontade de voar noutros corpos e não pode ficar preso na gaiola dos relacionamentos. O corpo tem que estar em constante vôo, dentro de outros corpos, dentro de outras vontades, sempre se explorando, se descobrindo, se revelando. O corpo deve ser livre para experimentar, pra se dar, tocar, doer, arder. O corpo é um devir que não pode estagnar-se em regras, ele não pode parar.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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5 respostas a Sexo, traição e a propriedade do corpo

  1. Mad diz:

    A coisa é simples. Se quiser ser livre não faça um contrato de fidelidade monogâmico.

    Se fizer tem que cumprir. Quanto vale a sua palavra? A sociedade cobra? Ligue o foda-se para a sociedade, e seja feliz

  2. Cintia diz:

    Ricardo,
    Muito estruturante para meu ser ler teu texto, no sentido libertário da questão.
    Pena que só descobri teu blog hoje!
    Voltarei muitas vezes…

  3. Ana Amália diz:

    Parece que você nunca amou. Então ainda não entende o é o amor. Um relacionamento é muito mais do que sexo. O que nos torna mais humanos não é o sexo e sim o pensar,o raciocínio. É por causa desse pensamento que temos mulheres semi-nuas como meras figurantes nos programas de tv nos domingos. Sexo acima de tudo é não ser racional.

  4. Edmar Oliveira diz:

    Ricardão, conheça também o pensamento de Adler, que discordou de Freud e colocou (sem trocadilho, hein, seu garanhão!) a busca pelo poder no lugar do sexo. Abraço, amigo

  5. Ricardo,

    Tudo bem? Os seus textos são bem constuídos! Gostaria de convidar vc para conhecer os outros blogs da Blogosfera em Rede. Estamos pensando em um projeto coletivo.

    Quanto ao seu texto, penso que precisamos libertar os preconceitos e e entender de forma racional, sem regras, mas com respeito e identidade.

    Lu

    http://www.lucianasantarita.blogspot.com.br

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