A doença que (não precisa de) cura: mal de montano


A literatura é uma dama esquiva, que embrenha-se nos mais insólitos campos, e se revela das mais diversas formas, em lugares que julgam não poder encontrá-la. A literatura é onipresente, não existe lugar onde ela não possa ser encontrada.

A Literatura também pode ser encontrada por aí através da sua forma mais radical: a doença. São poucos os doentes de literatura. Esses doentes têm uma relação tão estreita com sua doença, que a amam a ponto de não quererem curar-se dela. Enrique Vila-Matas, escritor espanhol responsável pela composição do também fabuloso “Bartleby e Companhia”, envereda pelo mundo do diário, da obsessão pelo literário no seu livro “O Mal de Montano” para tratar da precária, e por isso especial e distinta, situação da Literatura, e da sua “iminente morte”. Segundo Vila-Matas, na primeira parte do livro, a Literatura está a morrer, e essa morte precisa ser combatida.

O livro é dividido em cinco partes: “O Mal de Montano”, “Dicionário do amor à vida”, “Teoria de Budapeste”, “Diário de um homem enganado” e, por último, “A salvação do espírito”.

No “O mal de Montano”, na primeira parte, Vila-Matas nos apresenta seu narrador anônimo, um crítico literário que vai visitar seu filho, Montano, um escritor que encontra dificuldades para escrever e que havia escrito um livro sobre escritores do Não, o que logo remete ao livro “Bartleby e Companhia”. A visita tem a intenção de fazer com que o narrador cure-se da sua obsessão pela Literatura. No entanto, o seu filho, ao invés de ajudá-lo na curar, intensifica ainda mais sua doença, e por isso ela é nomeada “Mal de Montano”. Com esse mote dado, surgem personagens que são fruto, pelo que me parece, de um inteligente trabalho imaginativo, como Rosa, Rosário Girondo, mãe e pseudônimo do narrador e o inigualável Tongoy, que foi travestido de Sancho Pança para ajudar o pai de Montano na empreita contra a morte da literatura, ajudando o narrador na sua tentativa de transfigurar-se na memória da Literatura.

Já no “Dicionário do tímido amor à vida”, o escritor catalão começa o trabalho desconstrução da parte que a antecedeu, revelando as falsas informações que foram dadas, os personagens falsos, como Montano, que não existem.  Nessa parte há um dicionário com diversos nomes de autores que se utilizaram do diário como forma de manifestação literária, de forma consciente ou não. Nessa lista existem nomes Henry Frédéric Amiel, Salvador Dalí (que é respeitado e lembrado no livro muito mais como escritor do que como pintor, pois é “infinitamente melhor escritor do que pintor”), William Smerset Maugham, Franz Kafka (como é de se esperar), Fernando Pessoa (um dos escritores prediletos de Vila-Matas) e Cesare Pavese, entre tantos outros. O mote dessa parte é o diário como manifestação do literário, ou, nas palavras de Carlito Azevedo na orelha do livro, o “diário íntimo, esse germe da autoficção, esse texto que criamos menos para conhecermos quem somos do que para acompanharmos o desenho de nossa metamorfose contínua”.

Na “Teoria de Budapeste” encontramos o narrador na cidade-título da III parte do romance, realizando uma conferência num simpósio internacional sobre o diário como forma narrativa. A palestra está muito longe de assemelhar-se ao que habitualmente entende-se por uma conferência tradicional, pois encontra-se permeada de uma linguagem literária, com inserções de fatos pessoais, e análises que fogem da alçada de um mero simpósio sobre um tema de Literatura.

Em “Diário de um homem enganado”, Kafka é o grande protagonista. Franz Kafka, com seu jeito arredio, silencioso, foi um grande diarista – alguém que escreve diários e não quem faz diárias domésticas – e o seus diários estão em pé de igualdade, no que diz respeito à qualidade de escrita, com seus escritos ficcionais. Outro protagonista é o escritor Robert Walser, grande influência na escrita vila-matana. Esse diário, como o título da parte sugere, é de um homem solitário e todo ele ressalta essa solidão. Aqui coexistem somente o narrador e os seus escritores. A solidão é tanta que há momentos, grande parte do diário, em que tudo é narrado na segunda pessoa do singular. O diário também é um exercício de memória, de lembranças, mas sem qualquer resquício de pieguice. Além desse exercício, é uma profunda análise de como a memória, por meio do diário, está interligada a vida:

“Estou sentado junto a árvore de Natal de minha casa e lembro-me da Grande Nevada de minha infância e daquele discurso de Dalí e ponho-me a escutar Vittorio Gassman recitando Le Ricordanze, de Leopardi, e deixo-me invadir pelas recordações, as minhas e as dos outros, e fico me dizendo que sem elas e sem as ruínas dessas recordações, sem a memória, seria ainda mais angustiante dar-se conta de que quanto mais cresce nossa memória, mais cresce a nossa morte. Porque o homem não é mais que uma máquina de recordar e de esquecer que caminha para a morte. E não digo isso com tristeza, porque também é certo que a memória, disfarçando-se de vida, converte a morte em algo sutil e tênue.”

Lendo essa parte veio-me à mente um trecho de Carlos Ruiz Zafón no seu “A sombra do vento”, contrapondo (ou mesmo completando) Vila-Matas: “Nós existimos enquanto alguém se lembra de nós”. Mas não se esqueça, leitor amigo, Zafón ainda falando, de que “poucas coisas enganam mais do que as lembranças”.

Depois de tantos mergulhos, idas e vindas, o narrador de Vila-Matas chega à última parte do livro, “A salvação do espírito”, num estranho encontro de escritores nos Alpes Suíços, onde ninguém entende sua língua (nos dois sentidos, tanto o idioma quanto sua língua literária), para lerem seus escritos à meia-noite numa fria montanha alpina. Mesmo sendo a mais curta das partes que compõem o livro, essa talvez seja a mais emblemática no que diz respeito à carga de significações. O narrador – um sofredor inveterado do Mal de Montano, um completo obsessivo literário -, está rodeado de escritores mortos, que não possuem nenhuma ambição literária, mas que são maioria, que falam uma língua própria, que os escritores genuinamente literários não entendem, falam a linguagem comercial, industrial. Uma forte analogia da triste situação atual da literatura, que está vivendo uma rentável miséria. E a Literatura não sairá dessa situação com simpósios ou encontros enfadonhos onde apenas escritores mortos se reúnem para falar de literatura (essa com “L” minúsculo) morta; ela só se “salvará” com ela mesma, como o barão de Massachusetts que atolando-se com seu cavalo num lodaçal, puxou-se pelos próprios cabelos e se levantou, conseguindo libertar ambos, ele e o cavalo; assim será, e tem que ser, com a Literatura: só com bons livros, assim como esse “O Mal de Montano”, haverá possibilidade dela sair desse lamaçal editorial sedento de dinheiro e carente de qualidade. O trato que Vila-Matas dá, porém, a esse tema não é autocomplacente, é irônico, galhofeiro:

“Jantei com os cretinos, escritores funcionários de merda, mortos. Essa raça de escritores, imitadores do já feito e gente absolutamente desprovida de ambição literária, embora não de ambição econômica, são uma praga mais perniciosa inclusive que a praga dos diretores editoriais que trabalham com entusiasmo contra o literário. Passei o jantar olhando em silêncio esses escritores, tratando de censurar-lhes com meu olhar severo sua desprezível literatura. Em vários momentos, fiquei lembrando que eu era um homem sem coração, que só tinha emoções literárias. Em vários momentos também adotei poses quixotescas. Tratando de me divertir e ao mesmo tempo sacar meu chicote para aqueles energúmenos que em princípios do século 21 tratavam de acabar com a literatura, dediquei-me de vez em quando a imaginar que todo meu corpo, por causa dos efeitos secundários peculiares da gigantesca salada de batatas, se transformava por dentro e eu me convertia, eu encarnava na memória completa da história da literatura. E eles eram tão estúpidos que nem percebiam”.

A proposta de Vila-Matas, de quebrar com as limitações estilísticas, rompendo com as barreiras que se prendem a definições rasteiras na tentativa de enquadrar os escritos como romance, diário, e etc., que começou bem no “Bartleby e companhia”, atinge seu ápice n’O Mal de Montano. Os discursos mesclam-se formando um mosaico fabuloso de um romance que não pode ser definido como romance. Tudo se inicia na primeira parte que deveria ser um diário e cambia para o romance, e nas outras subsequentes, que formam uma desconstrução contínua, uma desconstruindo a antecedente e sempre remetendo à primeira, desmembrando todos os seus pormenores. No seu projeto de quebra das categorias literárias, Vila-Matas consegue fazer a união plena de ficção e realidade (muito clara na sua mania, de matriz borgiana, de colocar frases apócrifas na boca de escritores consagrados ou mesmo de inventar escritores), misturando estilos, em que anotação, narrativa e ensaio formam apenas um único texto no qual essa divisão torna-se desnecessária. A culminância de toda essa subversão é um livro fascinante onde estilo, literatura e imaginação envolvem o leitor.

Porém, muito mais do que um árduo trabalho de desconstrução (esta palavra tão frequente dentro do vocabulário vila-matano) das categorias literárias, o livro do escritor espanhol é a exaltação da Literatura. Seu personagem é um doente, não devemos esquecer disso, que inicia o livro querendo curar-se e que, ao longo de toda a história, vai percebendo que não é preciso se curar, mas deixar-se contaminar cada vez mais. O narrador, como já frisei, é um completo maníaco literário, cheio de citações, escritores e imagens literárias, sempre vendo tudo sob a ótica da Literatura, sempre deixando-a como prioridade. E, à medida que o leitor vai entrando em contato com o mal de Montano do narrador, ele vai se tornando um doente também, porque que os doentes de Literatura facilmente contagiam as pessoas que os rodeiam. O amor a Literatura é para ser alimentado todos os dias, pois ela nos ajuda a entender a vida com suas metáforas:

“Precisamente porque a literatura nos permite compreender a vida, ela nos deixa fora dela. É duro, mas às vezes é o melhor que pode acontecer. A leitura, a escrita, procuram a vida, mas podem perdê-la porque estão inteiramente concentradas na vida e na sua própria busca.”.

Enrique Vila-Matas defende a “utopia” de que o mundo não pode viver sem Literatura, pois ela é a única alternativa discursiva que nos permite o descanso
“à tirania das linguagens da política, do trabalho e da família”. Não existe vida sem Literatura, por isso faz-se muito necessário estar cada vez mais doente de literatura, permitir que ela permeie-nos em cada aspecto de nossas vidas. Mais do que isso, devemos defendê-la dos seus algozes editoriais. Ela não morrerá, como tanto se tem alardeado, pois “não há nada a se dizer, salvo que, sem a literatura, a vida não faz sentido”.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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