A controversa Árvore da Vida


Terrence Malick, diretor arredio, de poucas aparições, avesso a fotógrafos, e de reconhecido talento, foi o responsável pelo filme “Árvore da vida”, um filme que dividiu o público e a crítica, entre arroubos elogiosos e declarações de enfado. Divisão justificável.

O filme tem a pretensão de ser filosófico, contando a história da humanidade sob a ótica de uma família texana. Para isso Malick optou por mostrar o surgimento da vida desde seu início com o Big Bang seguindo, através da linha evolutiva, toda a escala de evolução da vida, por meio de longas cenas de imagens que mais se assemelhavam aos documentários da Discovery Channel. A família, cujo líder é o personagem interpretado por Brad Pitt, um pai linha dura frustrado por não ter conseguido realizar seu sonho infantil de torna-se músico, é cheia de regras pesadas e algumas desnecessárias, que fazem-na ter um clima algo que lúgubre, onde os membros tem poucos momentos de alegrias e muitos de seriedade. A família perde um de seus filhos, o que é mostrado logo no começo do longa, o que a torna ainda mais triste e melancólica. Dentro do núcleo familiar existe um conflito entre o filho mais velho e o pai, que frequentemente se desentendem, sempre predominando a figura esmagadora do pai rigoroso. Mesclando imagens do presente, com o filho mais velho, interpretado por um desorientado Sean Penn, exercendo seu emprego dentro de uma empresa, o filme transita nesses dois mundos sempre com discussões que incursionam em limites muito além do universo da família, discussões de cunho universal. E boa parte da trama fica nisso, finalizando-se com todos os personagens, do passado e do presente, unidos na beira de uma praia, lembrando a imagem bíblica do livro de Apocalipse, onde os salvos reúnem-se à beira do rio da vida onde também está a árvore da vida.

O filme tem pontos altos, com cenas de singular beleza, mas sempre priorizando a sobriedade das cores, mesmo onde o verde predomina; trechos verdadeiramente ontológicos, como na cena em que um dos filhos, na mesa de jantar manda o sisudo pai aquietar-se gerando um genuíno conflito familiar onde todos se unem contra o rigor do pai; um roteiro extremamente inteligente, com algumas falhas e lacunas pessimamente preenchidas, mas no geral bom. O longa tem muito trechos silenciosos, e alguns silêncios mostram-se muito oportunos. Outro aspecto relevante é sobre a direção de Malick, que prioriza a improvisação, permitindo uma atuação espontânea de seus atores, o que dá aos espectadores um bom resultado.

É clara a intenção de Terrence Malick com o “Árvore da Vida”, um filme que foi feito como que por encomenda para encher cineclubes e deixar vazias as salas de cinema. Malick não dirige para as massas, não é um cineasta industrial por assim dizer. Na sua tentativa de parecer genial, ele acaba resvalando, em certos momentos, numa pedantice desnecessária. Claro que a população pseudo-cult, que está em ascendente crescimento, o defenderá com unhas e dentes, como tem acontecido em diversos lugares, e o que aconteceu logo após seu lançamento, propalando a ideia de quem não gostou do citado filme, não está à altura de compreender as dimensões artísticas e filosóficas que estão imbricadas na obra. Essa é uma visão limitada de análise (para qualquer coisa, aliás), pois cega-se ao fato de que muitas das cenas do filmes são entediantes, enfadonhas, que há horas em que resvala-se num tom de auto-ajuda, com algumas inverossimilhanças,  sem contar o fato de Sean Penn ficar avulso, atuando sem entender ao certo o que está fazendo; e, por último, cenas exageradamente longas, como as do “documentário de biologia” com dinossauros que não chegariam a convencer nem uma criança de seis anos, como se o roteiro precisa-se desses recursos para prolongar-se.

Como ficou perceptível, “Árvore da Vida” é um filme que tem suas qualidades, entretanto não é feito somente delas. Existem algumas pobrezas cinematográficas, e elas acentuam-se mais ainda, haja vista as pretensões de seu diretor. Não é filosófico, como tanto se alardeia, tem muito mais feições bíblicas, mesmo com os trechos evolucionistas. No entanto, é um filme de grande impacto sensorial, que nos testa (a paciência, claro), e nos traz ótimas experiências visuais, com imagens deslumbrantes. Um filme controverso sem ser polêmico, mediano sem ser ruim; um filme polissêmico, tantas nas interpretações elogiosas, quanto nas nem tanto assim.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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