A Morte da Poesia


A poesia está morrendo. Morrendo a pior das mortes: a morte silenciosa. Amedronta-me ver que diariamente as fileiras da má poesia têm mais adeptos, e que a da boa tem tão poucos correligionários. Prefiro não entrar no mérito de dizer o que é boa ou má poesia, não precisa-se de tanto; basta ler bons poetas para percebê-los como tais e os maus se revelam através de seus poemas pífios. Não há dramatizações. A poesia está morrendo a olhos vistos. Morre diante de todos e ninguém faz nada, deixa ficar do jeito que está. Como evitar essa tragédia (pois é uma grande tragédia, com todos os requintes de crueldade)? Quem a está assassinando?

O assassinato intensificou-se na transição do século XX para o XXI. O sangue jorra vertiginosamente. Existem tantos os que se dizem poetas hoje, que escrevem algo qualquer na forma de versos e brada aos quatro ventos que escreveu poesia, que sentem uma forte pulsão emotiva que os levam a cuspir no papel tinta borrada para depois dizer que escreveram sob a inspiração de alguma musa ou que seus poemas carregam um forte “carga sentimental”. A poesia morre. Morre nas mãos de adolescentes que criam blogs e despejam seus “dramas existenciais” em versos confessionalistas e tão mal escritos que um bom leitor não consegue esconder a indignação diante do ultraje literário. Os “poetas” de hoje estão mortos e escrevem poesia morta; poesia sem esforço, que não passa por um crivo de auto-exigência, de autocrítica, que se contenta com o fácil, com a simplicidade sem complexidade, com a superficialidade ou, pior ainda, com um regionalismo tão pueril que quem não for da região retratada não entenderá nada do que foi escrito. Não pensem que isso é coisa somente de adolescentes blogueiros. Muitos “grandes poetas contemporâneos”, que têm se deixado levar pelas “tendências do mercado editorial”, têm publicado livros sofríveis, de mediano para ruim, muito ruim; têm se reunido em simpósio e feiras e celebrado a morte da poesia como se fosse um acontecimento mágico e sublime.

O que salvará a poesia de sua morte iminente não será feiras e encontros literários, onde os, para usar uma frase do escritor espanhol Enrique Villa-Matas, “cretinos, escritores funcionários de merda, mortos” se reúnem e se digladiam na luta pelos holofotes, mas poetas compromissados com o literário sem ambições exclusivamente econômicas, ou imbuídos de um sentimentalismo tão bobo e juvenil quanto constrangedor. Não é com simpósio que se salvará a poesia, e sim escrevendo e produzindo bons livros, ou mesmo blogs (pois existem bons poetas perdidos nessa imensidão da internet). Poesia se salva com poesia.

Nem tudo está perdido. No meio dessa morte caótica de tantos endereços virtuais e nomes, a poesia ainda consegue respirar, uma respiração que exige esforço. Poetas que escrevem sobre a guia da meticulosidade, na dedicação de tirar de cada palavra o máximo de significados que ela possa ter, de pautar seu processo de criação num exercício de reflexão racional, onde seus versos sejam frutos de um árduo esforço de escrita, não somente um derramamento de palavras no papel, conseguem fazê-la respirar e não sentir-se tão esquálida e fraca.

A poesia está num delicado momento de sua história, se banalizando e sendo crucificada por carrascos juvenis, despreparados e preguiçosos. Mas não morrerá, mesmo com tantos poetas mortos produzindo poesia morta; não morrerá porque sempre haverá aqueles poetas doentes de poesia, que escrevem com senso de responsabilidade literária, que não queiram inflar o grupo da má poesia, da poesia mesquinha e barata, que se estende em varais e não tocam a fundo ninguém. A poesia não morrerá, mesmo à míngua e com poucos bons representantes vivos, não dará o braço a torcer.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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5 respostas a A Morte da Poesia

  1. pauline diz:

    Esses dedos não parecem reais. Me deram calfrios!

  2. MAUS-CARACTERES

    Os maus-caracteres são
    Pessoas que não
    Ficam inertes com facilidade
    Eles são peritos em galgar
    Sempre um mais alto lugar
    Na escada da mediocridade.

    Os medíocres são
    Pessoas sem noção
    Do que tem valor de verdade
    São hábeis em se alimentar
    De sal que não pode salgar
    E de inúmeras futilidades.

    Os fúteis são
    Pessoas que dão
    Mergulhos na superfície
    Assim não conseguem vislumbrar
    As belezas do fundo do mar
    E se contentam com tolices.

    Os tolos são
    Aqueles cidadãos
    Cujas mentes são cárceres
    E tais pessoas indefesas
    São as prediletas presas
    Para os maus-caracteres.

    Eduardo de Paula Barreto

  3. Genny diz:

    O Glauber Marinho é um modesto. Haha…
    Seria realmente possível a morte da poesia?
    Eu penso que só é possível a morte das coisas que devem ser esquecidas.

    O sublime pensamento escrito em prosa e verso não me parece algo que possa sumir ou morrer com o passar dos anos.

  4. Araceli diz:

    Não gosto do que o “moderno” faz com a arte. Abstrai os tons, as curvas, as deusas nuas e seus bosques. Abstrai as palavras, os sentimentos, a doçura… Mas não é a simplicidade das palavras que deixa um poema ruim. Mas a falta de simplicidade de quem o escreve ou dos que lêem: “procura-se um amigo”, “os rebanhos são meus pensamentos”, “tu vives presa no lôdo e eu livre no céu”, “alto levanta a lâmpada do sonho”, “fez-se da vida uma aventura errante”, “a felicidade é como a pluma”, “deus? Eu não creio nessa fantasia”. Livro de poesias? Nunca li, acho chato. Mas alguns poemas que li nos livros escolares durante a adolescência guardo comigo, como se fossem versos sagrados. E não são?

  5. Como não consigo pagar de gostoso nem de intelectual, pago de poeta medíocre da transição assassina dos séculos!
    =oP

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