Encontrar a verdade: uma impossibilidade


 Todos querem, de alguma forma, conhecer a verdade. Todos já parte do pressuposto de que ela exista. Baseado na existência da verdade buscou-se por séculos a fio uma forma eficiente de encontrá-la. Até hoje isso nunca ocorreu. Por quê? O presente texto vem, através de uma curta análise de quatro pensadores, mostrar a inexistência da possibilidade de alcançar uma verdade universal.

O problema da obtenção da verdade ainda se encontra em aberto na história do pensamento filosófico. No decorrer de séculos de exercício da Filosofia buscaram-se inúmeras soluções para desvendar esse problema, mas não encontrou-se, por enquanto, nenhuma resposta que desse conta de forma satisfatória do problema apresentado. Existem diversos fatores que ainda dificultam  encontrar uma verdade de valor absoluto que abarque todos os detalhes de um determinado objeto. Diante dessa impossibilidade, que já estende-se por séculos, surge a pergunta que norteia o pensamento do autor de presente artigo: é possível o conhecimento alcançar a verdade? Nessa problemática existem alguns pensadores que através de suas ideias, desenvolveram algumas soluções que esclarecem, sob alguns aspectos, o problema da verdade; acentuadamente os gregos Heráclito de Éfeso, Parmênides, o alemão Immanuel Kant e o francês René Descartes, que serão os autores trabalhados no presente texto.

A verdade pode ser alcançada? Como podemos ter certeza que a verdade existe? O que nos faz ter essa certeza? A verdade existe? As respostas para essa indagação tendem a bifurcarem-se em diversos caminhos que apresentam inúmeras facetas, que sempre partem do pressuposto de que a verdade existe. É uma espécie de certeza ôntica a de que existe a possibilidade de encontrar a verdade se houver uma criteriosa busca, que obedeça regras predeterminadas, que partam de critérios que definam o que pode ser considerado verdade. Mas, de fato, isso é possível: definir o que é verdade?

O CONCEITO DE VERDADE

Delimitar um conceito que seja universal de verdade talvez seja um dos maiores desafios dentro do campo filosófico, porque encara um problema que é o do consenso. Não existe consenso nessa definição. Se não há consenso, não tem como delimitar, definir o que seja verdade, pois ela tem inúmeras acepções, algumas  tão distintas uma das outras que parece tratar-se de coisas diferentes. Diante disso, dessa falta de consenso, não existe uma definição do que seja verdade, exceto em grupos onde se concordata um conceito que é aceito como legítimo. Mas esse conceito não funciona fora desse grupo, logo não possui validade de cunho universal.

Mutabilidade VS Imutabilidade

Para o conhecimento conseguir encontrar a verdade, ela deve se encontrada no ser que não tem em si a característica dominante da mutabilidade, pois não há como designar uma verdade para um objeto que está constante mutação, pois a verdade desse ser irá mudar de acordo com as mudanças que ele sofrer, logo não haverá uma verdade que se encontre fixada de forma que tenha em si alguma validade. Para resolver essa problemática o filósofo grego Parmênides encontrou uma solução: para ele o ser não muda, é permanente. O ser tem mudanças externas, mas sua essência, segundo Parmênides, permanece intocável, fica da mesma forma sempre.

[…] Parmênides de Eléia, verdadeiro fundador e figura máxima do eleatismo, vai afirmar a unidade e a imobilidade do ser. Provavelmente, dando-se conta de que a pesquisa sobre os princípios do universo equivalia a buscar ‘o que é’ atrás das aparências (‘o que parece ser’) e das transformações (‘o que se torna’), Parmênides vai prender-se à noção mesma do ‘ser’, e descobrir as exigências lógicas dessa noção. No poema onde expõe seu pensamento, dois caminhos são colocados: ‘que é’ e ‘que não é’. O segundo revela-se impossível (nada corresponde a ‘não ser’). O caminho do ser, ao contrário, é necessário. A busca racional do ‘ser’ vai revelar um ser uno, imutável, eterno (caso contrário, tem-se de apelar para a noção de não-ser, que é impossível). Talvez o modelo de ser para Parmênides seja o ‘ser verdade’ de uma proposição matemática, que ‘é’, e é ‘necessária’, ‘eterna’, ‘imutável’. […] Evidentemente, esse ser (lógico e cosmológico) de Parmênides não é corroborado pelos sentidos. Mas isso para Parmênides não parece ter importância: os sentidos não são instrumentos adequados para o conhecimento verdadeiro. (IGLÉSIAS, 2006)

Em contraponto a Parmênides há Heráclito que ficou conhecido na história da Filosofia como o filósofo do devir, pois no seu pensamento há a promulgação da ideia de que tudo vive a modificar-se, num constante fluir mutável, que modifica a essência externa e interna do ser e das coisas, ou seja, nem o humano é o mesmo e nem as coisas que o rodeiam, pois há mudança eterna em tudo. Segundo o pensamento heraclitiano, que é o que se vê, através de uma constatação empírica, o mais válido, não há como conhecer a verdade das coisas, porque elas vivem em constante transformação, num devir contínuo.

[…] nada existe de estável e definitivo na natureza; tudo muda constantemente – daí, podemos dizer que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Cada coisa é e não é, ao mesmo tempo. Todo o universo está submetido a um eterno fluir e a vida requer contradição, antagonismo, guerra. Nós mesmos somos e não somos, porque existir, viver, significa torna-se, ou seja, mudar a própria condição atual por uma outra. Cada coisa está submetida ao tempo e a transformações infinitas: não há nada no mundo verdadeiramente estático e mesmo o que parece parado ou constante é na realidade mutável, como a água do rio. Em resumo: o ser das coisas é o seu devir. (NICOLA, 2005)

 Logo, por meio desse viés analítico do pensamento de Heráclito, não existe possibilidade de conhecer o que se convencionou chamar de verdade, porque ela só existe dentro de um universo de possibilidades hipotéticas, idealistas (no sentido de uma construção ideal da realidade) de imobilidade do ser, o que não se comprova através dos sentidos e nem de uma exegese dos fatos.

Os limites da razão

Dentro do problema da verdade existe um importante aspecto que é dos limites da razão. Até onde a razão pode conhecer? Ela possui limites? Quais são? Na tradição do pensamento filosófico convencionou-se deduzir que razão humana  não possui limites, que através de métodos e regras, pode-se desenvolver um conhecimento pleno da verdade de qualquer coisa, sem qualquer restrição. Um dos maiores proponentes dessa ideia foi o filósofo francês e pai da ciência moderna René Descartes.. Este pensador de origem francesa revolucionou a ciência com seu livro Discurso do Método, onde estipulou regras e métodos para se obter o conhecimento da verdade. Através dessa obra, Descartes lançou os pilares da metodologia científica usada até hoje entre os cientistas contemporâneos. Descartes defende a dúvida como metodologia para se alcançar o conhecimento. Para este pensador o primeiro passo para se obter o conhecimento é duvidar, colocar em xeque aquilo que sempre recebeu a fama de ser verdadeiro ou portador de verdade, até mesmo a religião, no seu caso o cristianismo. Para este filósofo a razão poderia açambarcar tudo, absolutamente tudo se seguisse os métodos expostos em sua já citada obra Discurso do Método. Para Descartes não existe limites para a razão, ela pode apreender tudo, até mesmo o que está além do físico, ou seja, os conceitos metafísicos. Descartes foi transformador por pautar todo o conhecimento somente através da razão, mas, segundo outro pensador, ele equivocou-se em dizer que a razão pode saber de tudo. Este crítico do modelo epistemológico cartesiano foi o alemão Immanuel Kant.

Kant, filósofo alemão, foi um dos maiores críticos do modelo metafísico clássico. Com seu livro Crítica a Razão Pura faz uma das maiores crítica ao racionalismo vigente na sua época, que tem suas bases no platonismo e no cartesianismo. Mostrando que a razão da metafísica clássica estava preocupada somente com a especulação da possível existência de conceitos que são frutos apenas do trabalho racional, que fogem da alçada da objetividade, Kant mostra que a razão está se atrofiando, ainda presa ao modelo platônico de globalização das idéias como se fossem objetos existentes em-si. A crítica de Kant em relação a essa falsa sensação de poder comprovar a existência real do que existia apenas no campo da ideia, mostra-se cabal para toda uma reformulação do pensamento metafísico. Pois para o filósofo alemão, não existe possibilidade de conhecer objetivamente esses conceitos especulativos da razão, ou seja, as idéias de Deus, Alma, Mundo, não podem ser apreendidas e computadas pela razão porque elas não passam pelo crivo da sensação, não têm sua existência comprovada através de uma constatação empírica. Kant não nega a possibilidade de que a razão é o melhor caminho para se obter o conhecimento, mas ao contrário de Descartes, ele vê limites para a razão. Ela não pode conhecer tudo. Não há validade alguma, segundo Kant, ficar elucubrando sobre idéias como se elas fossem objetos existentes em-si, ou em linguajar comum, não adianta ficar falando de unicórnios como se eles de fato existissem. Por força dessa limitação, a verdade (objetiva e realista) desses objetos metafísicos é inalcançável, inatingível por assim dizer.

Conclusão

Diante disso, faz-se claro a ideia de que, devido aos limites que a razão possui e da mutabilidade das coisas, há uma grande impossibilidade de se obter o conhecimento de uma verdade que seja de cunho universal, que se encaixe em todas as peculiaridades de uma circunstância, e que dê conta de todas as idiossincrasias existentes no mundo. Deve haver uma abertura à ideia de que não existe uma verdade universal, o que não deve fazer-nos cair num relativismo pueril, o que descredibiliza qualquer pensamento que queira ser levado a sério. Há a necessidade de se perceber que somente verdades, assim no plural, é que podem dar conta da atual configuração do pensamento e do conhecimento, pois não tem como uma verdade padrão açambarcar toda a diversidade existente na contemporaneidade de forma eficaz.

Dicas de livros sobre o assunto (são bem introdutórios):

REZENDE, Antonio (org). Curso de Filosofia: para professores e alunos dos cursos de segundo grau e de graduação. 13. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006. p. 29-30.

NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de Filosofia: das origens à idade moderna. São Paulo: Globo, 2005. p. 18-19.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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6 respostas a Encontrar a verdade: uma impossibilidade

  1. Luís von diz:

    Eu conheço uma verdade absoluta, imutável e universal: eu li esse texto e nada poderá mudar essa realidade e qualquer tentativa de negar essa verdade será mero jogo de palavras e de ideias sem correspondência no mundo real

  2. aquino diz:

    tudo e muito complexo,porem a Biblia diz:conhecereis a verdade e ela Vos libertara,estava deitado NA rede,comtemplando a vida no seu contexto geral quando,ouvi um homen analfabeto como ele se intitulava,dizer que ele entende que a verdade esta dentro de cada um de nos,o que achamos ser verdade e justo aos nossos olhos ali esta a verdade e ali que encontraremos a fonte da vida o criador

    • https://www.facebook.com/groups/144283539019916/ as impossiblidades desaparecem quando o impossivel te transmite as informacoes.
      OS ditos chamados inteligentes do sistema fazem-me rir dao tao burros como os propios animais e dizen-se inteligentes para enganar outros ,a verdade nao e como querem e a verdade,voces aprenderam com a mentira ,deixo-vos entao as informacoes ,paa o melhor que conseguirem decifrar ,e um trabalhito para mim dizer-vos isto e e so para vos despertar para a realaidade em que vivem,nao serao todos a conseguir,mas os que conseguirem serao.abraço
      .

  3. Roberto C. Carmona diz:

    Etimologicamente falando, podemos encontrar que verdade significa: algo que se pode saber real, existente – física ou “metafisicamente”(presente na consciência humana). Muitos combatem as religiões por tentarem falar da verdade a partir de seus oráculos. Penso que seria necessário os céticos começarem investigar melhor, ou seja, mais cientificamente os textos bíblicos que falam de verdade, pois assim poderiam ter melhor compreensão acerca não de um conceito, mas de uma evidência da verdade a partir da apresentação física do único Deus enquanto se entrega em sacrifício pela sua criação. Sou contra a cegueira espiritual em que se encontra grande parte dos “cristãos” nominais existentes ao redor do mundo. Sou a favor de uma investigação mais criteriosa e séria da verdade bíblica, de peito aberto, sem pré-conceitos e barreiras do pensamento humano. Blessings.

    • Para todos os interessados em saber como o sistema de hoje existe e como apareceu a raizes da arvore(SISTEMA).Como a historia foi preponderante na nossa sociedade a chamado biblia ou escritos sagrados ,E a historia que ficou para as pessoas saberem,que nao vos quizeram dizer ou mesmo nao sabiam.
      A historia que ficou escrita e modificada para que ninguem a soube-se e o papel desse resultado biblia e como aparece?
      Outro conhecimento paralelo foi passado por alguns familiares das victimas dos atacados pelo poder telepatico de lucifer,pois a biblia relata exactamente os ataques desse homem as pessoas,como aconteceu quais os segredos que encerra.
      Essa historia foi banida do vosso conhecimento e para que os que lessem o escritos penssasem que era a verdade nao sabendo que depois de mortos por lucifer ,ele mesmo modificava os escritos para ninguem saber da sua existencia.
      Certo todos que leram a biblia de facto adoram a historia,sem saber que que vos vou contar.
      lucifer onde esta hoje facebook.
      Eu falo da realidade que os estudiosos nao conseguem porque nao so estudam a realidade especulativa ,mas falsa informcao dada pela possiblidade da informcao,ou seja a informacao que nao era credivel pelas autoridades ignorantes dos factos,entao nao se conseguia ate hoje essa verdade.EU CONTO A VERDADE.abraco

  4. Edmar Oliveira diz:

    Ricardo, digamos que conhecemos “pequenas verdades”, mas não a verdade absoluta. Loooonnngeee disso.

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