michel teló e a subjetividade da arte


tenho um amigo, escritor goiano de grande talento (que chamo de amigo por teimosia), o flávio paranhos, que escreveu uma série de textos explicando por que woody allen era o maior artista de todos os tempo. um exagero, óbvio (o paranhos é um exagerado radical). e em todos os textos publicados na revista bula, houve inúmeros comentários que discutiam e debatiam qual era o critério que ele estava usando para fazer essa declaração (tão descabida) de que o tal cineasta (que, aliás, gosto muito, mas não tanto quanto o paranhos) era o maior artista de todos. a resposta de paranhos já estava nos textos que escrevera: o critério era o dele. simples dessa forma. pelo bem da verdade: todo critério para analisar qualquer coisa é pessoal. não existe critério objetivo. por mais que tentemos nos convencer de que existam regras que ajudem a identificar o que é bom ou ruim, tudo o que encontramos são opiniões subjetivas que foram acatadas por um grupo que impôs (não gosto dessa palavra, mas é o que tenho) essas opiniões para a maioria, que aceitou. na história existe muito isso. todos conhecem como a burguesia, a tal da elite, fez que com todos aceitassem seu ponto de vista, fazendo-nos acatar o que deveria ser visto como aceitável e o que tinha ser excluído como inútil ou desnecessário. essa visão elitista, bairrista, tem o seu espaço ainda hoje (que é uma época que, em tese, respeita a diversidade).

você gosta de michel teló? como conheço boa parte dos meus leitores, falo dos frequentes, sei que mais de noventa por cento vai responder enfaticamente que não gosta de michel telo, alguns outros por centos vão dizer que odeiam michel teló, e outros ainda vão ficar calados pra não passarem a vergonha de dizer que gostam do cantor paranaense. se você disser que gosta do hit “ai, se eu te pego” por aí, corre o risco de ser linchado pelos chicobuarquianos, ou por aqueles que acham que a música que o tal teló faz é pseudo-arte. quando se define algo como pseudo-arte, deve-se ter em mente o que é arte. faça o teste: pergunte a alguém que use essa palavra, o que é arte. ela não vai lhe dar uma conceitualização do que seria arte, mas responder com uma exemplificação do que seja arte. no geral ela vai se utilizar de exemplos bastante conhecidos, que são consenso, unanimidade (não esqueça de nelson rodrigues: “toda unanimidade é burra”). o “pobre” (entre aspas, porque ele está ficando podre de rico com seus hits grudendos) do michel teló é alvo constante dos apreciadores da “verdadeira e boa música” como sendo uma vergonha para o povo brasileiro. seus fãs sofrem discriminação por parte dos “eruditos” (também conhecidos por babacas) que os rechaçam, denominando-os de sem cultura. que tipo de cultura deve ser a aceitável? existe uma cultura melhor do que a outra? o que michel teló canta e compõe não faz parte da nossa cultura? vamos por parte: não existe cultura que seja mais aceitável ou melhor do outra, e o que michel telo canta é sim cultura brasileira. que decepção ricardo! logo você que me pareceu ser tão seletivo e ter bom gosto, dizendo uma coisa dessas. antes de ir parando sua leitura por aqui, use seu bom senso. nosso país é um continente, que tem as mais diversas manifestações culturais, e que pode ter dentro de si desde um michel teló ou gustavo lima quanto um chico buarque ou um villa-lobos. o problema real é que existe uma parcela da população, a fascista que se utiliza de frases tais quais: “como o brasil consegue escutar isso?” “odeio quem ouve isso” “essa musicazinha corrompe a cultura” “arte com tempo durável proposital” e todo o blá blá de sempre, essa parte aí quer construir um conceito que abarque e limite a cultura de um país que é pura miscigenação. impossível. essa parcela é uma parte que defende um gosto extremamente elitizado, que tem que estar sob a tutela do padrão canônico. se o teló não tem fôlego para entrar no cânone, isso faz dele um lixo imprestável? de forma alguma. até michel teló tem seu valor. há quem goste. vou denegrir quem gosta porque não se encaixa no meu padrãozinho bairrista do que seja bom?

me cansa debater esse tipo de assunto, porque, no geral, os debatedores estão tão convictos de que o que estão falando faça algum sentido que fazem como as crianças com medo de serem contrariadas: tampam os ouvidos e começam a falar lá lá lá lá. os burguesinhos disfarçados que só ouvem chico buarque, tom jobim e companhia, não conseguem se abrir pra ideia de que o mundo não gira em torno somente dos consagrados (o pior, eles nem conseguem aceitar críticas aos artistas que são, segundo eles, “incriticáveis”). outra coisa: não existe pseudo-arte. que palavra burra! por uma simples razão: não existe arte. com vocês, gombrich no livro história da arte falando em outro contexto, mas com palavras que se encaixam muito bem na nossa conversa aqui: “Nada existe realmente a que se possa dar o nome Arte. Existem somente artistas. Outrora, eram homens que apanhavam um punhado de terra colorida e com ela modelavam toscamente as formas de um bisão na parede de uma caverna; hoje, alguns compram suas tintas e desenham cartazes para tapumes; eles faziam e fazem muitas outras coisas. Não prejudica ninguém dar o nome de arte a todas essas atividades, desde que se conserve em mente que tal palavra pode significar coisas muito diversas, em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A maiúsculo não existe. Na verdade, Arte com A maiúsculo passou a ser algo como um bicho-papão, como um fetiche. Podemos esmagar um artista dizendo-lhe que o que ele acaba de fazer pode ser excelente a seu modo, só que não é ‘Arte’. E podemos desconcertar qualquer pessoa que esteja contemplando com deleite uma tela, declarando que aquilo que ela tanto aprecia não é Arte mas uma coisa muito diferente” . gombrich acertou em cheio quando falou sobre o fetiche do que seria arte, pois ela não passa de isso: um fetiche construído para diferenciar um grupo social de outro. por isso não se engane: você não é melhor por não gostar de michel teló e nem entende mais de música por isso.

p.s.: o que acho de michel teló? pra mim ele é o paulo coelho da música.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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11 respostas a michel teló e a subjetividade da arte

  1. Edmar Oliveira diz:

    Anderson Pedro e Ricardão Oliveira, minha visão de arte é elitista mesmo, uma visão que existiu um tempo na Escola de Frankfurt. Estou errado por pensar assim? Não sei. É apenas minha visão

  2. Anderson Pedro diz:

    Grau de dificuldade como eixo da discussão sobre arte? Que absurdo! Mas, não vou negar já pensei algo parecido há alguns anos. Mudei, que bom. Acho que você, Edmar, complica demais a arte. Na sua cabeça ela parece coisa pra cientistas de foguetes.

  3. Edmar Oliveira diz:

    Ricardão, grau de dificuldade, amigo. Grau de dificuldade. Este é o eixo da discussão sobre o que é arte. Caso contrário, “quase tudo” que se faz a torto e a direito poderá ser chamado de arte. Quem entende tecnicamente de música, um crítico, avalia, antes de tudo, o grau de dificuldade, companheiro. Não há como chamar de arte algo que é feito aos montes e sem técnica, requinte, trabalho. Se essa música do Michel Teló for arte, tudo que Beethoven fez é lixo. Não há como as duas serem arte. Isto é apenas impossível. Li, recentemente, algumas análises de críticos musicais sobre o “fenômeno” musical “do momento”, o tal Teló. Os caras praticamente dizem: “Michel, tem dó”. É isso aí, camarada.

  4. Luis diz:

    Mas considerando que as funções de qualquer tipo de arte é divertir e/ou fazer pensar, Woody Allen consegue as duas, o que coloca Michel Teló em uma posição imediatamente inferior.

  5. Lucas Aquino diz:

    É até legal o discursinho, um tanto quanto positivista, porém carente de argumentos lógicos, é altamente pessoal esse texto ai. O que proponho, ler a obra do Gombrich por completo, e compreender as idéias dele, não cite um autor só no que lhe convém, e faça um curso básico de História da Arte !

    Ms é interessante sua proposta de desconstruir conceitos, me lembra um pensador francês da atualidade Michel Onfray.

  6. Edmar Oliveira diz:

    Ricardo, a questão não é ser superior aos outros porque ouço Mozart e os outros, Amado Batista. O que eu disse é que, no caminhar da vida, quem adquire mais conhecimentos, quem tem contato com obras musicais, teatrais, literárias, etc. tem muito mais possibilidades de desenvolver um senso crítico mais exigente. Você, por exemplo, apesar de muito jovem, deixou para trás coisas, digamos, menos “elaboradas”. Quando me reportei a “evolução”, eu disse no sentido da vida aqui mesmo, na Terra, nesta existência, e procurei comparar quem teve a oportunidade – ou a buscou – de ler os clássicos, ouvir Chico Buarque e Chopin com quem ainda não quis, se acomodou ou não teve chances de contato com talentos deste porte. Mas é proibido ouvir artistas de verdade e suas obras maravilhosas e, ao mesmo tempo, curtir uma dance music? Claro que não. Não alimento esse tipo de radicalismo bobo. Mas, preferencialmente, com o tempo, quem teve chance ou buscou – repito – aperfeiçoar-se bebendo nessas fontes mais elevadas, indubitavelmente traz consigo um pouco delas. E isso refletirá na exigência da hora de escolher os produtos a consumir (e música, literatura e cinema, para mim, são produtos para os quais devemos ter a maior atenção para “comprar”). De novo, abraço, amigo. Edmar Oliveira.

  7. Edmar Oliveira diz:

    Ricardão Oliveira, lembro-me do que escreveu o homérico Paranhos, mas discordo dele em parte. Vamos lá. Popularizou-se demasiado o que chamamos arte. Hoje, todo mundo á artista. Basta pegar um violão e cantar qualquer bobagem com ritmo razoável para sacudir as pelancas e… pronto! Nasce um monstro-sagrado do mercado fonográfico, mais um a vender milhões de CDs e faturar milhões de reais. É o cão chupando manga, amigo. Se Michel Teló for artista, Chico Buarque não pode ser artista. Meço o que é arte pelo grau de dificuldade para construí-la. Estou falando de arte na mais pura essência da expressão. Agora, discutir “gosto” é outra coisa. Até por causa do grau evolutivo de cada pessoa, do nível cultural, de conhecimento, as pessoas têm gostos diferenciados. Uns curtem Amado Batista; outros adoram Beethoven. A diferencinha básica é que daqui a 200 anos Beethoven, que de fato era artista, será ouvido como ser fosse agora. Já o pobre Michel Teló, coitado, será esquecido em, no máximo, dois anos (estou sendo otimista). Arte é uma coisa; gosto é outra bem diferente. Você, Ricardo Oliveira, certamente já não curte o que curtia quando era criança e adolescente. Natural. Você cresceu, adquiriu conhecimento, estudou, leu, aperfeiçoou-se. E atualmente exige coisas mais palatáveis aos ouvidos e à alma quando se tratam de produtos que você consumirá, como livros e música. É mais ou menos por aí, amigo. Abraço do Edmar Oliveira.

    • ricardão oliveira é ótimo rs. mas não acredito na existência da arte edmar, só de artistas. sou muito partidário do pensamento de gombrich. a respeito da complexidade na elaboração de algo, concordo sim que é isso que vai durar, vai vencer a barreira do tempo. agora tenho muito pé atrás com expressões do tipo “grau evolutivo de cada pessoa”. não me sinto em nada superior a quem goste de paulo coelho, ou augusto cury. apenas apresento as minhas razões pelas quais os considero ruins

  8. Jean Roger Lima diz:

    Discordo sobre sua posição sobre arte. Discordo sobre seu pensamento sobre os fãm de Chico E Tom. Concordo quanto ao Teló e os seus fãs. Bom texto, é isso aí. Não é possível eu concordar com tudo que você diz, se isso acontecer eu não seria eu, eu seria você.

    Aliás, vou explicar brevemente sobre o que eu penso sobre a arte. Arte é todo trabalho intelectual do homem. Intelectual no sentido de usar o pensamento para fazê-lo.

  9. Raphaela. diz:

    Sua posição, se fosse baseada na música dos Tribalistas como Eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também, seria digno de capa na revista Super Interessante (falo da crítica amiga, daquelas que você direciona de forma cordial à uma inferior, descompromissada, acima de qualquer conhecimento que possa possuir um mortal qualquer, a apaziguadora, a que sempre tem a última palavra).
    Você expôs pontos muito bons, mas que podem ser contestados sem pôr as mãos nos ouvidos e começar a cantarolar.
    Não se trata de ser melhor por desdenhar de quem escuta Michel Teló, ou de bater o pé dizendo que isso não é música. Trata-se de ter um posicionamento. Ter um posicionamento não significa ser um burguesinho disfarçado, nem um funkeiro desaforado. Pessoas que se julgam no direito de decidir o que é ou não bem visto, no mínimo, assistiram muitos vídeos do PC Siqueira e Felipe Neto. No entanto, concordo quando condena aqueles que descaracterizam certos trabalhos e se mostram convictos de quem isso ou aquilo outro não é arte.
    Texto interessante e bem escrito. Continuarei lendo os próximos.
    Abraço!

  10. Gostei do conceito sobre o que é arte.

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