Onisciência e livre-arbítrio: uma contradição


Deus fez tudo imbuído de perfeição, afinal ele também é perfeito. E nada do que um ser perfeito faz, pode estar com alguma característica imperfeita. No final de seu pouco esforçado exercício de criação, Deus deu uma das maiores demonstrações de sua infinita sabedoria e misericórdia para com a mísera humanidade, nessa época constituída de apenas dois exemplares: o livre-arbítrio. A coisa funciona assim, todos sabem, porém não custa deixar claro: Deus fez um mundo perfeito e colocou dois seres perfeitos. Esses dois seres dotados de razão, da capacidade de pensar, poderiam fazer o que quisessem nesse mundo (até aquelas coisas que não podemos fazer na frente das pessoas). Entretanto, Deus os instruiu que de todas as árvores que existiam no jardim, eles não poderiam comer do fruto de uma especificamente: a tal árvore do conhecimento do bem e do mal. Essa árvore estava restrita, mas Deus a fez e a colocou lá no Éden. Eles nem poderiam chegar perto dessa tal árvore proibida. Ao contrário do que possa parecer (esses ateus ignorantes!), Deus não colocou essa árvore simplesmente para tentar o casal a pecar, ou seja, descumprir sua ordem expressa. Não foi isso. Deus, como bom sábio, criou aquela árvore numa forma de mostrar que os humanos não eram robôs programados para obedecê-lo, e sim seres portadores da capacidade de escolha. Eles tinham a possibilidade de descumprir aquela proibição. O nome disso ficou cunhado depois na teologia como livre arbítrio, que é a tese de que Deus nos dá a livre possibilidade de escolha entre o certo e o errado (nem me pergunte o que é certo ou errado, essa função é dos líderes religiosos de cada denominação). Uma sacada fantástica de Deus, porque ele não nos obriga a seguir as suas regras (apesar de que quem não segui-las vai ter um futuro muito conturbado nas labaredas do inferno). Ele deixa-nos transgredir, nos dá a possibilidade de erro também, respeita nossa liberdade. Um Deus muito amigo e companheiro que nos permite o erro como uma possibilidade. A grande sacada divina. Pois bem, vamos agora seguir para outra grande característica de nosso (do ocidente e de matriz cristã) grande Deus: a onisciência.

A divindade judaico-cristã possui três grandes características: onipotência, ou seja, tem poder para fazer tudo, desde criar um mundo incrivelmente complexo em sete dias até parar o sol e todo o universo para que uma guerra se execute de acordo com a sua vontade; é onipresente, o que significa que pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, verificando tudo, observando tudo em todos os lugares imagináveis (então pode ir sabendo que daquela vez que você pensava estar sozinho(a) com a sua(seu) namorada(a) para aquela brincadeirinha legal, Deus estava lá só de olho em você); e a grande outra característica de Deus, e talvez a mais fantástica, é a onisciência. É nesse ponto que Deus prova toda sua força, uma força que vai além da capacidade de fazer tudo e estar em todo lugar: saber tudo. Saber tudo é o grande anseio de todo humano (nem me pergunte por que Deus precisa estar em todos os lugares e ter super-poderes se já sabe de tudo, pergunte para uma líder religioso que ele deve saber). Como não podemos conhecer tudo, colocamos essa característica espetacular na nossa mais perfeita e cruel criação: Deus.

Dentro da configuração da teologia o livre-arbítrio e a onisciência divina caminham harmoniosamente, como se tivesse em total sintonia lógica. Todavia, como dá para perceber em tantas outras ideias de cunho religioso, existe uma crassa incongruência entre essas duas ideias. Elas não se sustentam juntas. Separadamente, pode até ser possível defendê-la dentro de limitados recursos lógicos. Juntas, porém, isso é impossível.

Deus, na sua infinita sabedoria, não percebeu que ao sabe de tudo, incluindo o futuro, vetaria o humano do poder de escolha. Imaginem comigo: você sabe que o bolo que você vai fazer daqui há a uma semana vai queimar, ainda assim resolve fazê-lo. Qual é a possibilidade do bolo não queimar? Nenhuma. Não importa o que você faça, ele vai queimar de qualquer forma. Agora pensem nos nossos (?) queridos Adão e Eva. Deus já sabia que eles iam descumprir o trato, que iam pecar. Se o Senhor já sabia que eles pecariam, qual é o poder de escolha deles? Nenhum. O que eles poderiam fazer, se  tudo já estava traçado, e a ação dele já tinha sido executada lá no futuro? Nada. Perceberam? Não há como essas duas ideias conviverem juntas, pelo fato de se anularem, se contradizerem. Não existe livre-arbítrio, dentro da teologia cristã (existe só como uma farsa, obviamente). Mais uma vez papai do céu nos passa a perna, dizendo que nos dá opções para poder escolher entre o certo e o errado, mas já sabe o que vou escolher, anulando a única força que achávamos que tínhamos.

Sempre fico muito curioso pra saber como pode tantas pessoas engolir tão facilmente essas coisas? Num exercício simples e muito infantil de reflexão chega-se a conclusão de que toda essa construção aparentemente cheia de pompa lógica e refinamento sistemático, que é a teologia, não passa de uma forma de escamotear o que de fato há por trás de tudo (olha a linguagem conspiracionista!): um monte de esterco do pensamento cheio de lacunas e com sustentáculos roídos, que qualquer criança pode destruir se perguntar demais.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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7 respostas a Onisciência e livre-arbítrio: uma contradição

  1. Ozeias teixaira Nunes diz:

    Ou livre arbítrio ou Onisciencia. Os dois juntos e impossível.

  2. Ozeias teixaira Nunes diz:

    Eu fico pensando: Se Deus fez tudo perfeito porque deu tudo errado??? Se Ele é Onisciente , já conhece o futuro, porque não evita as tragédias? Porque não prende o demonio?. Acho que só existe uma explicação possível para isso: Deus gosta de jogar, mas como na sua eternidade solitária não tinha parceiros, resolveu criar o paraíso e encheu de entidades celestes(anjos), e permitiu que uma entidade se rebelasse para criar um motivo.(essa foi a revolta dos anjos tendo LÚCIFER. Como comandante. Então as equipes estavam organizadas, mas o que estava em disputa? Qual seria o troféu? Então Deus criou a humanidade como troféu a ser disputado. (Isso é exatamente o que as religiões pregam (luta entre o bem e o mal-luz e trevas. Que jogo e esse que já sabemos o resultado final? Logo no primeiro minuto de jogo o LÚCIFER faz um a zero. Adão e Eva peçam, logo depois, dois a zero-Caim mata Abel. O jogo prosseguir e LÚCIFER massacra o adversario, toda a humanidade se perde no dilúvio. Segue o jogo: Deus resgata um milhão de pessoas do fardo de.farao (egito) com promessa da terra prometida, mas com a defesa cerrada de LÚCIFER só Josue e Calebe entraram. Bem mais distante novo testamento ,alguém diz. O mundo jaz no Maligno. Numa tentativa de salvar a humanidade Deus sacrifica o se próprio Filho(Jesus). Aqui eu abro um parêntese. Na guerra de Tróia,quando do os gregos iam partir para Tróia, houve uma calmaria e os barcos não podiam zarpar,mas um oráculo consultado informou que os.ventos só.voltariam se fosse sacrificada IFIGENIA-filha do comandante. Feito sacrifício os ventos voltaram. O Cristianismo fala da batalha final, com derrota de LÚCIFER. Mas até. Lá quanto estrago ele vai fazer?. Se está decretado o resultado final contra LÚCIFER, isso é. Um jogo de cartas marcadas e não existe livre arbítrio. Somos apenas a bola do jogo que vamos onde os jogadores desejam. Tudo o que eu disse, não foi para ofender o Altíssimo, mas sim não concordar com o que.Dizem DELE. Com a brincadeira dojogo não pretendi ofender ninguém é nenhuma religião. Mas mesmo assim peço DESCULPAS. Abraços a todos.

  3. RAFAEL EVANGELISTA diz:

    Pois é, né… Um texto cheio de contorção de lógica, de raciocínios esdrúxulos pra explicar uma coisa intrigante… mas num explicou merda nenhuma!

    “Deus é onisciente”. O texto se esforça em sedimentar a questão sobre o paradoxo entre a onisciência e o livre-arbítrio, exorcizando as dúvidas dos cristãos que percebem a fatal incongruência (basta você exercitar seu pensamento um pouquinho, que você percebe o tanto de furo nessa pataquada toda).

    Ocorre que, o próprio escritor mal parece saber o que está escrevendo e, com todo esse aparato intelectual de palavras rebuscadas e conclusões grotescas, o dono do texto fala, fala, fala, fala e morre pela boca….

    Se Deus é onisciente, porque você escreveu: “Deus, na sua infinita sabedoria, * * não percebeu * * que ao sabe de tudo, incluindo o futuro, vetaria o humano do poder de escolha.”?

    Senhor, “Deus NÃO PERCEBEU QUE VETARIA O PODER DE ESCOLHA DO SER HUMANO”.

    Como Deus não percebeu… ele num sabe tudo? Não conhece tudo? Não é, como seu próprio “texto” diz, ele não é perfeito.

    Ainda bem que esse país é repleto de ignorantes que acreditam nessa contorção debiloide da lógica para explicar algo que é essencialmente controverso.

    PARABÉNS!! TORÇA PARA QUE O PAÍS CONTINUE COM ESSA EDUCAÇÃO MARAVILHOSA, DAÍ SEUS SEGUIDORES VÃO ACREDITAR NESSES BOBOQUICES QUE VC FALA!!

  4. Renato diz:

    Teologia: a maior das mentiras.

    Pesquisei sobre essa bobagem de “Princípio da Sincronicidade”, mas ele não ‘aclarou’ minha mente e nem criou ‘uma revolução no meu pensar’.

  5. Dinha diz:

    Oi Ricardo,
    Há alguns anos eu fiquei intrigada com essa questão da coexistência da onisciência e do livre arbítrio. Isso me perturbou tanto que eu fui atrás de respostas, de perguntas, de saberes, de tudo que me pudesse aclarar essa questão que me parecia (como para você também) paradoxal.
    E aí eu descobri (mas foi difícil) o “Princípio da Sincronicidade”. Não vou explicar aqui (nem daria), mas como vi que você se interessa por filosofia, existência humana, etc, acho que vai gostar de conhecer.
    Só pra encerrar, o tal Princípio criou uma revolução no meu pensar, me levou a outras descobertas conexas explicou muita coisa, inclusive o aparente paradoxo citado.
    Se você for pesquisar sobre isso, a internet é uma via complexa. Há diversas ciências que possuem princípios com esse nome. De repente, você vai cair numa página de química orgânica”!
    Abraço.

  6. André Renato diz:

    De vez em quando, quando abordam esse tema “perfeição” fico pensando. Será que tudo que um ser perfeito faz tem de perfeito?

    Seguindo o real sentido da palavra é correto dizer SIM! Entretanto tenho uma duvida.
    E se a ‘’imperfeição’’ e torna aquilo perfeito?

    Bem não falar mais nada sobre isso, pois não é o ponto que quero abordar.

    (;)

    Pra mim é um erro dizer que os dos seres eram perfeitos, haja vista que eles pecaram (erraram) logo, se há erro, não existe perfeição.

    Eles também não tinham razão, pois não conheciam a verdade.

    Eles tinham capacidade de pensar porem não poderiam fazer uma avaliação justa de seus atos, eles não sabiam diferenciar bom e ruim.
    (;)

    Para mim livre arbítrio implica em onipotência
    Se não tem onipotência não tem livre arbítrio.

    • Ozeias teixaira Nunes diz:

      Se existe Onisciencia não pode haver livre arbítrio. As entidades celestes se reúnem no céu e selam o destino da humanidade e de tudo o que existe no Universo.. Diz a biblia que não cai uma folha sem que Deus permita. Já pensou, autorizar folha por folha num ataque de formigas cortadeiras , não é uma. LOUCURA!! Para o que isso??Sempre foi assim desde sempre. No Olimpo os deuses se reuniam para tratar do destino dos mortais. Nunca existiu livre arbítrio, considerando que nosso destino e selado pelos deuses. Agora se existe livre arbítrio, nos tomamos a nossa decisão. Mas será que quando tomamos decisão, fomos nós ou nosso cérebro. Será que ele nao. Conspira contra nós?..

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