Não pense no amanhã, ele não existe


Passamos toda nossa existência no contínuo esforço para conseguir aquilo que damos o nome de felicidade, uma coisa que ninguém conseguiu ter por mais de um dia. Passamos nossas vidas na luta por estabilidade, por calma, tranquilidade, alguma paz; criamos objetivos de vida na ridícula tentativa de dar-lhe um sentido, no entanto, não conseguimos. Queremos boa casa, ter bons amigos como companhia, escrever textos com o mínimo de mediocridade (até hoje ainda não consegui), queremos ser agradáveis, ser aceitos. Tentamos escapar de tudo o que pensamos que nos faça mal. Somos fujões medrosos e, quase sempre, patéticos. Criamos mecanismos para nos aliviar, para ter algo pra nos distrair. Inventamos regras para justificar nossos medos. Nos enganamos achando que tudo o que fizemos está nos ajudando de alguma forma. Não está.

Somos vazios. Verdadeiros sacos de carne putrefata que se enche de lógicas, mas que não tem razão nenhuma. Somos tristes, mas estampamos sorrisos gentis na desesperada tentativa de fazer com que ninguém perceba isso. Não custa dizer de novo: somos medrosos. Temos medo de admitir sentimentos, de se arriscar em quebrar as regras por eles, temos medo de parecer fracos (o que realmente somos) para que outros fracos não nos explorem, temos medo de confiar, porque confiança é sempre a certeza da decepção (raras vezes também é de alegria); temos medo de nós mesmos, pois não se pode confiar em quem não conhecemos, e é muito menos complicado conhecer bem e a fundo os outros do que a nós; temos medo de expor o que se passa cá por dentro na nossa cabeça ou mente (que teimamos em chamar de coração), porque assim quebraríamos todas aquelas regras que inventamos para nos dar uma burra e falsa sensação de segurança. Temos medo da única coisa que temos de fato: a vida. Talvez (porque as certezas são tão escorregadias) esse seja o nosso maior medo: o de viver. Existimos como meras e reles marionetes de uma tradição perneta que não nos completa em nada. Acreditamos em invencionices como se elas pudessem nos ajudar a preencher o (já famoso) vazio existencial. Não existe nada para preencher isso. Nascemos vazios e vazios morreremos.

Tudo que criamos e achamos bom o suficiente para ficar a existência toda correndo atrás, tem prazo de validade: um dia. Essa é a validade da vida. Apenas um dia, pois morremos todos os dias (não existe novidade nenhuma nisso, mas fazemos questão de ignorar esse detalhe). Podemos nos lembrar dos bons dias. Podemos nos recordar com alegria deles, mas eles sempre ficarão lá, no passado. Só temos o hoje para viver (outro detalhe que ignoramos), pra que então desperdiçar esse pouco tempo com o medo? Por que não arriscar? Por que não tentar? Não pense no amanhã, ele não existe.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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2 respostas a Não pense no amanhã, ele não existe

  1. Mônics diz:

    Lembrei do Tayler : Você só é realmente livre após perder tudo. Pois ai não terá o que perder, e, enfim, encontrar-se-á livre”.
    Adorei o texto.

  2. Jonathas Pereira de Souza diz:

    Esse é o lado positivo do niilismo, ao perceber que não há nada além dessa existência vazia uma nova realidade surge, onde podemos ser tudo ou nada.

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