Família: um ideal perdido


Não sou do tipo que goste de ficar ouvindo conversas alheias por aí, mas não pude evitar a conversa de um casal que estava sentado à minha frente num ônibus quase vazio. Estava me esforçando para me concentrar no livro que estava lendo, porém eles falavam alto demais para eu ignorar. Não vou reproduzir todo o diálogo por preguiça, mas o rapazinho estava desabafando para a namorada o quanto está insuportável viver com a mãe, e que por mais que se esforce não consegue esboçar nenhum sentimento por ela. A namorada estava horrorizada. “Mas como você não ama ela [quando ouvi isso meus ouvidos estremeceram!], é a sua mãe?” “Então sou obrigado a gostar dela só porque ela é minha mãe?” “Claro, foi ela que te pôs no mundo! Tem que amar!” “Nunca vi dizer que sou obrigado a amar só porque é parente!”. Se eu fosse um pouco mais estúpido e minha memória um pouco mais falha, esse diálogo teria se perdido, mas ficou-me na cabeça. Não dei muita atenção, pois era um molecote que tinha acabado de sair das fraldas e essa raiva devia ser por causa da rebeldia da idade. Todavia, alguns dias depois… numa aula da faculdade, um dos professores, o da disciplina de Moderna, estava falando da família como um ideal de amor absoluto. Foi aí que me lembrei do casalzinho lá do ônibus. O tal professor falava em como ainda estamos presos na obrigatoriedade idealista do amor familiar. Somos obrigados a amar os familiares pelo simples fato de serem da família, as relações humanas não contam, pois gostar pressupõe relacionar-se, mas no modelo idealista essa etapa é pulada e temos que só gostar não importa que tipo de familiares se tenha (pra vê que até um papinho meloso de dois jovenzinhos pode ter a profundidade de uma discussão filosófica). No entanto, será que esse modelo ideal de família ainda se sustém hoje em dia, como forma padrão que dê conta das complexas formações familiares atuais?

A família, como conceito, foi sacralizada graças ao modelo que a sagrada família bíblica ofertou-nos na figura de José, Maria e Jesus. Essa imagem não existia, de forma tão forte e como um padrão, antes. As famílias eram grandes conglomerados de pessoas que se uniam na figura do patriarca ou da matriarca (a depender da cultura). Contudo, no início da idade média lá pelos séculos IV e V, a imagem da sagrada família destacou-se como um padrão a ser seguido por todos aqueles que adotavam o cristianismo como religião. E foi nesse período que o Cristianismo cresceu vertiginosamente sob a tutela do Estado. Essa imagem da família só fez-se consolidar-se no decorrer dos séculos, com aprimoramentos: o comportamento de cada componente, a autoridade paterna, a subserviência materna, e obediência irresoluta dos filhos. E no meio disso tudo existia um sentimento que era dado como pressuposto básico da família: o amor ou respeito. Esse sentimento era uma obrigatoriedade, principalmente dos filhos em relação aos pais. Todavia hoje estamos entrando num período de transição. Alguns chamam esse momento de “crise dos valores”, não é uma crise. Seria crise se esses “valores” estivessem sendo desobedecidos, mas ainda tivesse validade como padrão. Não é o que ocorre. Os valores do conceito de família nuclear marital heterossexual já não valida as inúmeras formações que hoje a família se dá. O núcleo familiar hoje é outro. Por isso não é válido dizer que há uma “crise”, mas sim uma criação e adaptação de novos valores e princípios éticos que deem conta das novas configurações familiares, por exemplo: pessoas do mesmo sexo cuidando de uma criança, pai solteiro e filhos, mães solteiras e filhos, tios, avós, padrinhos entre outros “parentes terciários” tomando a rédea da família no pelotão de frente. O ideal de família está a perder-se. Ainda bem por isso. O que surge hoje é uma nova formação familiar bem mais democrática (apesar dessa palavra ter várias acepções), permeada de equidade, respeitadora e menos excludente. Trocando em miúdos: o conceito de família ampliou-se para dar vazão a outros modelos também válidos.

Dentro dessas transformações, existe um fator idealista que também está corroendo-se, algumas vezes de maneira violenta e em outras de forma pacífica, que é o sentimento familiar ou o amor de família. Muitos aqui já se depararam com a frase: “tem que amar, é seu pai (mãe, avó, etc.)”. No modelo marital heterossexual da família os sentimentos de respeito, amor eram obrigações que independiam dos componentes do núcleo familiar sentirem ou não os sentimentos professados. Tinha que dizer que amava o pai mesmo sem amá-lo, que respeitar a mãe mesmo que a figura materna não lhe despertasse o mínimo respeito. O relacionamento entre os membros da família era ignorado. Hoje, porém, já admite-se com menos peso de culpa o não-sentimento em relação aos membros da família. Não há erro nisso. Talvez os “conservadores” vejam nisso um sinal de afronta, de uma crise de fato, mas não o é. Dizer que o pai, por exemplo, é seu amigo deve ser fruto de um relacionamento de amizade, e não pelo simples fato dele ser seu pai. A filósofa gaúcha Márcia Tíburi causou um pequeno alvoroço quando afirmou numa feira literária que preferia estar na companhia das pessoas que participavam do evento do que com seus pais. Os pais, ou parentes mais velhos, são figuras intocáveis das quais não se pode emitir nenhum juízo de valor negativo. Um erro isso. Por não estranho ver pessoas afirmarem categoricamente que não gostam de seus progenitores, porque isso é normal (sim, normal!), pois eles são humanos que podem despertar tanto interesse quanto enfado ou mesmo ódio, como todo mundo. Claro que é ótimo quando se tem pais ou parentes amigos e chegados, contudo nem sempre isso ocorre. E quando não ocorrer essa amizade, não há pecado nenhum em admitir que não se gosta.

A família como ideal cristã nuclear marital heterossexual se perdeu para que outra formação encontrasse seu lugar e todos pudessem ser contemplados dentro dela, se exclusões ou discriminações, como tudo deveria ser na vida.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
Esta entrada foi publicada em Filosofando com as etiquetas , , , . ligação permanente.

12 respostas a Família: um ideal perdido

  1. Maria Helena Raisell Kovalhuk diz:

    Amar não é obrigação,nem é sentimento.Amar é viver.Ninguém vive sem amor..Amar é uma opção.Como posso ser feliz se eu não amo? Como posso ser feliz ,se eu tenho sentimentos de mágoa, de ódio ,de desprezo por quem quer que seja? No meu coração não há lugar para sentimentos negativos;só há lugar para o amor.Eu Devo amar o meu próximo como Deus me ama.Sem distinção.Deus ama os bons e os maus e os quer todos juntos de si,mas ELE não obriga a ninguém o amar.Ele nos deixa livres para escolher o caminho. Nós e que decidimos para onde queremos ir. Para junto DELE ou para as trevas.

  2. helio_tristao@hotmail.com diz:

    Eu só vi agora, em 2014, essa dissertação do Ricardo, a qual foi feita em 2011. Contudo, mesmo atrasado, tenho a dizer que nunca foi obrigado, por quem quer que seja, a amar meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus tios, primos, etc… E ainda, agora sou pai e amo, verdadeiramente meus filhos, e, no que couber a mim, evidentemente não os obrigarei a amar quem quer que seja, inclusive eu ou a mãe deles. Porém, eu os ensino sim a amar todos aqueles que eles desejarem amar, sejam homens, mulheres, crianças, parentes ou não. Porque em minha opinião o AMAR não tem que ser imposto, e sim sentido. Só quem sente pode relatar o que sentiu. Pra mim, o Ricardo não sabe o que é AMOR ! Aliás, sinceramente não entendi a imagem que ele coloca ao lado da dissertação, não tem nada haver com AMOR, mas sim, uma eventual descoberta ou curiosidade dos membros sexuais, e pior, uma criança bolinando o membro adulto do pai, com uma mãe ao lado em uma expressão indefinida de medo, conivência, felicidade, tristeza, indiferença, infelicidade, enfim, qual a verdadeira expressão da mãe ? Enquanto o filho, sorrindo, demonstra concordar, até porque também é “macho”, e ainda, pela idade que deve ter, não tem discernimento para recriminar, ou não, quem quer que seja. O pai, cabisbaixo por estar consciente do erro e da falta de respeito com a filha, não porque é simplesmente filha, mas porque se trata de uma criança mexendo em seu membro sexual (todo membro sexual quando bolinado se excita, salvo problemas patológicos da falta de ereção, isso tem nome e é CRIME Sr.Ricardo: chama-se ABUSO SEXUAL DE CRIANÇAS, e pior… INCESTO ! Por fim, a menina, que notoriamente está com o rosto escondido, evidenciando sua vergonha ! Não tem discernimento para saber se o que está fazendo está certo ou errado… potencialmente deve estar com medo do pai… sua mente deve estar confusa por saber que sua mãe está inerte a seu lado sem saber se ela (a mãe), concorda ou não com aquilo, deve se sentir culpada por ter o poder de excitar seu pai e não ter aquilo que espera da mãe… a proteção. Nos casos de abuso sexual a criança é forçada fisicamente ou coagida verbalmente a participar da prática sexual sem ter ainda sua capacidade emocional e/ou cognitiva suficientemente desenvolvida para consentir, negar ou julgar o que está acontecendo. Isso não depende de religião alguma Sr.Ricardo. Para finalizar minha opinião, acho que o Sr.Ricardo deve ter sofrido em sua infância sabe-se lá como, com quem, e por que ? Fato é que o Sr.Ricardo expressa todo seu sentimento de insatisfação quanto à instituição família sem saber o que é o AMOR verdadeiro (não se confunde com sexo). Por que será ?

    • Claudia Reis diz:

      Concordo com sua colocação Helio, isto demonstra como a família está perdendo seu valor, porque infelizmente assim como o Ricardo tem tantas outras pessoas que não sabem o que é amor e respeito aos pais principalmente.

    • Simoní diz:

      Também concordo… Absurdo esse texto, pior ainda é esta imagem…
      Texto horrível imagem absurda

  3. Se Hitler tivesse um filho, este filho deveria amá-lo simplesmente pelo título de pai ou pelo exemplo de suas ações?
    Pense nisto antes de escrever abobrinhas sobre os ~molecotes~ que te propõem uma reflexão da vida em oportunidades como esta do ônibus, e agora =) Se mentes pequenas este mundo já está cheio por demais.
    Ass: um molecote crítico

  4. Antonio V. R. Morais diz:

    Nunca fui obrigado a respeitar meu pai ou minha mãe. Tenho dez irmãos e todos mantemos um laço de amizade e respeito que nunca foi imposto. A formação (educação) em minha família deu-se com toda a liberdade possível. Não tenho notícia que um irmão apanhou por qualquer que fosse o motivo. Meus pais nunca me bateram ou em meus irmãos, e digo a todos que nenhum trilhou pelos caminhos da idiotice da rebeldia em relação a família. A nossa rebeldia existe por razões que realmente merece nossa atenção: a imoralidade de uma sociedade que não sabe o que quer ou onde quer chegar. Uma sociedade que não olha para o que realmente incomoda e destroi sua visão da realidade. Quero dizer com isso que quem nunca sentiu o que é de fato o amor da e na família, jamais terá noção do que é. Não trocaria meu apego a minha família, independente de ter algum resquício de um modelo cristão ou não, por nenhum modelo que se apresenta com a máscara de ser melhor, por que tenho agora, a liberdade de olhar para meu pai e dizer “eu não o amo”. Digo que amo meu pai e minha mãe, não pelo modelo cristão, até por que sempre tivemos liberdade de crença e comportamento, digo isso por que sei o quanto é importante ser amado por minha família e não trocaria isso por nada do que os novos modelos tem a oferecer. E sei também que nem todos sabem o que é isso, e não saberão jamais. E olha que não sou cristão, muçulmano, judeu, budista, xintoísta… etc. etc. etc.

  5. Rafael Tartari diz:

    Olá, concordo que hoje podemos ver muitas famílias em crise independente de classes sociais, pois não esta relacionado a condição financeira ter uma boa família ou não. Mas percebo que o problema não está no sistema que nos foi ensinado através de nossos pais, mas sim nas pessoas que fazem parte deste sistema. Exemplo: Sou casado a seis anos, e minha esposa e eu temos um filho de um ano de idade e posso lhe falar por experiência própria que nós usamos o padrão bíblico de família, e se não fosse esse sistema que eu desde pequeno aprendi hoje eu não seria capaz de ser um “pai de família” aos 27 anos. (que é a minha idade) Contudo as novas gerações sempre vão procurar coisas novas, mas como disse o poeta: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais!”

  6. Ana Flávia diz:

    Adorei! E concordo com cada palavra! Infelizmente a Maioria das pessoas não tem preparação intelectual e psicológica para avaliar criticamente os seus conceitos engessados.

  7. Romario Silva da Silva diz:

    Concordo com quase tudo. Mas, Acredito que seja realmente crise no sentido mais transformador da palavra.

  8. Edilson Cardoso diz:

    Concordo com o Ricardo. O problema é que enquanto as coisas mudam, a bagunça é total. Não se trata de mudança de valores, mas de INVERSÃO.
    Não me cabe buscar as causas, mas são elas que devem ser buscadas, para, pelo menos, se controlar o rítimo dessas mudanças.
    Vale a pena pensar na mídia (TER, ser mais importante que SER); nos pais ausentes (a assistência, a atenção, o toque são muito importantes para o AMAR); e, por que não, na filosofia cristã (AMAI-VOS UNS AOS OUTROS…)
    Edilson

  9. Michel Oliveira diz:

    A família sempre esteve sob autoridade patriarcal, a subserviência materna sempre existiu e obediência irresoluta dos filhos idem,isso desde dos tempos da Grécia Antiga. Nesses tempos, sentimentos como ódio pelo pai ou pela mãe sempre foram visto-os como normais. Mas o cristianismo veio e tornou tudo um “pecado”. Então,meu caro Ricardo, o que acontece hoje é apenas o retorno a mentalidade os antigos, em que homens e mulheres dedicavam-se a ouvir a voz do seu sentimento (qualquer que fosse ele) e podiam tornar-se sábios na arte de viver.

  10. criticfilis diz:

    hahaha…lindo artigo maquina mesmo!
    acho interresante este tipo de ateismo, que quer mudar o que é certo,
    certo não apenas por ser cristão, mas por ser principios de uma sociedade,
    sensata e que busca uma vivencia sem guerras e maldade.
    Mais é deste jeito, o cristianismo é o pensamento filosofico, ontologico, existencialista, mais sensato e digno de ser seguido.

Faça seu comentário. Exponha sua opinião!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s