Sem sentido


O dia tinha começado cedo. Os olhos remelentos estavam cansados. Cansados de nada, porém cansados. Aquele dia parecia que ia ser uma bosta. Ele não gosta de ter essas intuições, quase sempre elas se cumprem dolorosamente. Mas tinha que esperar para ver o que ia acontecer. O dia começou mais cedo porque sua irmã o acordou, como faz todos os dias, sob a ordem da mãe para que ele fizesse algo antes de sair para a faculdade. Fez. Depois de feito, deitou na cama e ficou olhando todo o quarto, sem olhar para nada. O olhar se perdeu. Sem nenhuma vontade foi tomar um banho onde morreu. Morreu debaixo do chuveiro esperando que por entres os furos de onde saía a água, saísse algo mais. Não saiu nada, só um pouco de água fraca. Colocou a roupa de sempre e foi, sob o fritante sol de uma da tarde, para a faculdade, o lugar que lhe permite ficar por algum tempo fora de casa, seu pequeno inferno. Entrando na sala da faculdade, viu uns poucos colegas de turma que faziam uma prova com o professor mais maçante do curso. Já tinha feito essa prova. Não precisava estar ali. Foi-se. Foi para a casa de uma amiga, uma que sempre está em casa quando ele não quer ir para a dele. Ficou lá ouvindo música, algumas boas, outras ruins. Repetiu as boas até doer os ouvidos. Leu revistas, todas que ainda não tinha lido que estavam na casa. Estava entediado. Não demorou muito, já no começo da noite, para que fosse, junto com sua amiga, na casa de outra amiga, uma que estava fazendo aniversário. Iam fazer uma festa surpresa. Ele já foi apaixonado por essa tal amiga aniversariante. Até chegou a achar que a amava. Coisa de adolescente. Eles nunca sabem o que dizem e os que sabem, não são ouvidos. A festa foi boa. Pouca gente, muita comida. Comeu até tudo lhe sair pelo nariz. Riu à beça. O tédio estava dando uma volta, pra sossegar um pouco. Fazia tempo que ele não ria tanto como nesse dia. Ficava olhando para a aniversariante como se tentasse ver naquela mulher a menina por quem ele foi apaixonado. Não viu nada. Mas aquela nostalgia gostosa lhe fez um bem danado. Ficou feliz. Depois de alguns anos, se sentiu feliz por causa de um sentimento do passado que lhe dava, agora, uma alegria presente. Só que essas coisas de alegria, felicidade, duram pouco tempo. O tempo de uma piscada. A festa acabou. Foi na casa da outra amiga pegar suas coisas. Viu o trailer de um filme, ficou um tempo olhando para a televisão. Depois, foi para a parada de ônibus, esperar o transporte pra casa. Não esperou muito. Já ia dar meia noite. Entrou no ônibus. Todos os assentos estavam ocupados. O que carregava era só a sua bolsa preta, a de sempre, e um grosso livro que falava de outros livros. Encontrou uma conhecida, dessas que conhece-se de vista por sempre pegar o ônibus no mesmo horário, que se ofereceu para segurar seu livro. Ele agradeceu. Conversou um pouco, perguntou algumas banalidades, e ficou absorto com o cenário corriqueiro que corria pela janela do ônibus. Um assento ficou vago. Pegou o livro da conhecida, lhe agradeceu a gentileza e foi sentar-se. Não abriu o livro. Preferiu perder-se na leitura das vidas vadias que vagavam fora da janela. Quando viu, estava em casa. Cumprimentou a todos e foi para o quarto, seu santuário de paz. Ligou o computador, e enquanto ligava foi tomar um banho e se masturbar um pouco, porque a namorada não pode encontrá-lo nesse dia. Pensou um pouco na namorada. Ela o tinha traído algumas semana antes. Talvez não tenha sido bem traição, foi só um beijo com um rapaz antipático. Mas foi o suficiente para que perdesse toda a confiança que tinha nela e começasse, ao menor sinal, a desconfiar que seria traído de novo. Não acreditava mais nos repetidos “eu te amos” que ela dizia. Deixou os pensamentos da namorada de lado. Ficou na frente do computador, leu algumas coisas nos seus sites preferidos e se cansou. O mesmo cansaço de quando acordara. Um cansaço sem sentido. Antes, porém, que o cansaço o consumisse resolveu escrever alguma coisa para não ter que se lamentar que o dia não tinha sido produtivo. Começou a escrever como se não escrevesse, apenas colocando linhas e mais linhas uma embaixo da outra, sem nenhuma intenção, sem nenhum desejo. Queria somente escrever. Depois de escrito, viu o que o texto não dizia nada. Cada linha foi colocada num espaço vazio, que não foi preenchido. Escreveu um texto sem sentido apenas para se sentir mais leve, mesmo sabendo que até a merda boia na água.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
Esta entrada foi publicada em Divagações Literárias. ligação permanente.

Uma resposta a Sem sentido

  1. É interessante que todos esses detalhes do texto me pareçam tão familiares, conheço um sujeito assim mesmo, que um dia desses estava na sala de aula enquanto eu e mais alguns faziam uma prova e que, por coincidência, também carregava um livro que fala de outros livros.

    O nome dele é Odracir, talvez o conheças.

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