Carlos Drummond de Andrade, o gauche da vida


Com a facilidade que o mundo da internet nos ofereceu, com computadores nos mais diversos formatos, com os mais diversos tamanhos, sempre nos mantendo conectados, e com a facilidade hoje existente para escrever, muitos resolveram tirar aqueles poemas que escreviam nos seus mais diversos momentos da gaveta, retratando os mais diversos sentimentos, e expuseram ao mundo. Escrever hoje é muito fácil. È só ter um computador, sentar, escrever e ter coragem de expor. E assim surgiram milhares de “poetas”, que abarrotam seus blogs com poesias de qualidade dúbia (claro que tem aqueles que são talentos por se descobrir), com seus confessionalismos juvenis, com sua pobreza poética. O efeito colateral da democratização virtual. No meio de tudo isso, uma palavra parece que está perdendo seu significado: Poeta. Tanto se autonomeiam assim, e tantos tão ruins, que se denominar de poeta hoje é uma espécie de declaração de pieguice. E os “verdadeiros e bons poetas” são escassos. Existem sim, ótimos poetas hoje, para citar apenas dois, cito os goianos Carlos Willian Leite e Pio Vargas, dois portentos poéticos. Mas são exceções. Por isso acho que se faz sempre necessário ficar visitando os poetas clássicos, aqueles que nunca perderam sua contemporaneidade, que não são consumidos pelo tempo. E um dos poetas que mais me apraz visitar é o mineiro Carlos Drummond de Andrade.

“Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”, assim está o primeiro verso do primeiro poema do primeiro livro do poeta Carlos Drummond de Andrade, “Alguma Poesia”. “Gauche” é desajeitado, atrapalhado, sem jeito. O mais irônico: a poesia drummondiana não foi assim, talvez Carlos tenha sido um pouco assim na sua vida, mas isso não tem serventia quando se vê a poesia que ele produziu. Li todos os livros (de poesia) de Drummond, por isso ele me é tão especial. Um poeta que descreveu em raras linhas todo o sentimento humano, que refletiu sobre o cotidiano com letras inteligentes, sem nunca ser repetitivo, em versos elaborados, sem o maçante enfado do desabafo juvenil. Claro que ele teve que ir amadurecendo, crescendo na sua escrita, ir mergulhando mais fundo na sua arte poética, e isso foi ocorrendo gradativamente, à medida que ia escrevendo (e como escreveu esse Carlos!). E o fruto de todo o seu esforço foi o reconhecimento. Um de nossos maiores poetas, para o fã mais afoito talvez seja o maior, ombreando com João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar (que são outros dois que tenho verdadeira devoção).

Drummond escreveu sobre tudo, mas em tudo ele foi arquiteto. Não escrevia pelo impulso das emoções, existem versos seus que eram reescritos à exaustão. Ele lutava a luta vã: a luta com as palavras. “Lutar com palavras / é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã./ São muitas, eu pouco./ Algumas, tão fortes/ como o javali./ Não me julgo louco./ Se o fosse, teria/ poder de encantá-las./ Mas lúcido e frio,/ apareço e tento/ apanhar algumas/ para meu sustento /num dia de vida.”. E foi assim que Drummond escreveu sobre o humano e seus dramas, sentimentais, metafísicos, espirituais, sexuais (quem nunca leu “O Amor Natural” está perdendo o melhor da poesia erótica), “lúcido e frio”, mas não distante. Ele foi assim, um lutador. Lutou com as palavras, dominando algumas e as colocando nos seus devidos lugares. Não discuto se ele foi modernista ou não, mas ele nunca vai deixar de ser moderno. Com uma poesia livre das amarras acadêmicas (mesmo muitas vezes escrevendo poemas que seguiam uma métrica rigorosa), Drummond construiu uma poesia arrebatadora, que nos empurra para o mergulho no mundo que existe dentro de nós, que nos desloca a visão para as coisas que estão fora, que nos dá novos olhares, que nos modifica, porque nunca conheci ninguém que lesse Drummond e continuasse o mesmo.

Hoje, dia 31 de outubro, faz 109 anos que nasceu Carlos, o homem que recebeu de um anjo torto a função de ser gauche na vida, e não obedeceu. O homem que nasceu para brilhar mais do que o anjo que lhe contemplou o nascimento. E brilhou, e brilha, com uma luz que nunca vai perder o seu brilho.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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2 respostas a Carlos Drummond de Andrade, o gauche da vida

  1. Michel Oliveira diz:

    Uau,adorei.Sou super fã do Drummond.

  2. Valeu garoto. Obrigado pela citação. Ótimo texto.

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