O Mundo de Andy: a genialidade incompreendida


Andy Kaufman é um dos maiores gênios do humor de todos os tempos, e o mais incompreendido. Ele tinha uma visão projetada muito além do que as convenções sociais poderiam suportar. Seu humor tinha uma veia bizarra, cruel, ácida a limites desconcertantes. Mas ele sempre conseguia o que queria: nos fazer rir. Andy foi um dos maiores conhecedores das reações humanas, e ele brincava com isso, sabia como manipular um público; sabia fazer com que todos acreditassem nas suas histórias, só para depois dizer que tudo não passava de uma brincadeira, uma piada. Ele era um gênio nisso. Tinha total e pleno domínio do que fazia, mas nem sempre tinha sobre as consequências. Ele era uma figura estranha, com sua voz fina e gramofônica, com seus tiques, e com seu comportamento totalmente fora do padrão ele cativou o mundo. Mas isso apenas depois de sua morte. Seu conceito de humor estava além do que sua época poderia compreender. Piadas herméticas, pegadinhas constrangedoras, ler um romance clássico por horas num show que deveria ser de humor ou desafiar mulheres para lutas livres fizeram com que Kaufman fosse visto como louco, como um lunático destrambelhado. Ele era isso sim. Mas um louco genial. E, na opinião deste humilde articulista, o maior e mais inegavelmente fantástico humorista, ou melhor, artista que esse mundo já viu. E o filme O Mundo de Andy (Man in The Moon, 1999) dirigido por Milos Forman talvez seja uma das dignas homenagens que Andy poderia receber.

Um filme que nos faz rir, mas não é de humor, sobre um homem que fez e faz o mundo rir, mas não se considerava humorista. O Mundo de Andy incursiona-se dentro do gênero cinebiografia, e mergulha na mente e na vida, conturbada do “humorista” Andy Kaufman que é interpretado, da forma mais perfeita possível, por Jim Carrey. Kaufman sonhava em ser o maior artista do mundo, ambicionava fazer um show no Carnegie Hall, queria mostrar a todos os seus dotes, mas do seu jeito. Um jeito complicado de se entender a primeira vista. O filme conta em detalhes toda a trajetória, sem floreios ou glamourizações. O enfoque principal do longa está no drama de Kaufman superar-se como artista, de como é duro o seu processo de adaptação as regras da TV, que ele não consegue se adaptar de qualquer forma; de como ele não foi compreendido pelo público, como seu humor negro é relegado ao ostracismo. O filme é um retrato fiel de Kaufman, de como ele vivia a interpretar e a criar personagens múltiplos, como o seu estupendo Tony Clifton, que até hoje não morreu; de como eram memoráveis suas imitações do cantor Elvis Presley, suas apresentações no teatro ou em shows de improvisação em pequenos bares. O filme de Milos segue a mesma linha de humor de Kaufman: nos manipula, brinca conosco enquanto espectadores, nos dá frustrações e nos faz perguntar “mas que diabos é isso que Andy está fazendo?”. Assim como Kaufman, a película sempre nos deixa a indagação “mas isso é verdade mesmo?”. Nesse sentido o filme é perfeito. Nos fazendo rir, até chorar (pois esse resenhista que vos escreve derramou algumas másculas lágrimas), nos deixando num silêncio constrangedor, o filme é puramente kaufmaniano. A carga dramática das últimas tomadas, já no período em que Kaufman sabe que está acometido de um raro câncer de pulmão, é um dos pontos altos da película. É nessa parte que se pode dimensionar quem realmente é Andy Kaufman, o cara que não deixou a peteca cair.

Mas o que merece um parágrafo somente para isso é atuação de Jim Carrey. A incorporação do personagem foi completa. Enquanto estou escrevendo esse texto, fico vendo, quase que simultaneamente, alguns vídeos onde Kaufman está atuando, e não consigo ver diferença nenhuma da atuação de Jim Carrey. O ator, e também humorista, conseguiu captar todos os trejeitos de Andy: seu olhar nervoso, seu jeito avoado, seus tiques, seus TOC’s, a voz (que é idêntica, ou vai me dizer que o “Muito obrigado” do Carrey não é absolutamente igual ao de Kaufman), os movimentos das mãos, enfim, Jim Carrey é totalmente Andy Kaufman, sem tirar e nem por. Na exata medida. Pra mim, a melhor atuação de Carrey (nem vem me dizer que você prefere Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, pois não terei como argumentar, pois fico dividido, mas para todos os efeitos a posição desse texto mantém-se), onde ele eleva a enésima potência seu grau interpretativo, revelando-se – nesse e em outras produções – muito mais do que um mero comediante, mas um grande ator, que sabe carregar a carga dramática sem perder a ironia. Uma atuação perfeita.

Existem poucos filmes para ficar vendo e revendo durante toda a vida sem sentir que ele se esgotou, e não tenho a menor sombra de dúvida que O Mundo de Andy faz parte desse seletíssimo grupo. Vale a pena ver e rever, pois em cada sessão o gosto sempre será outro, diferente.

(texto publicado originalmente no site 1 Filme por Dia)

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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Uma resposta a O Mundo de Andy: a genialidade incompreendida

  1. realmente Kaufman a imitação do Elvis feita por ele é fantástica e o Carrey brilhou e Interpretou Belamente o Andy no filme!!! infelizmente o Jim não levou o Oscar que seria merecido por sua atuação como o estranho e provocativo e muito Engraçado Andy Kaufman!!!

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