Alfred Kinsey: ciência, sexo e a moral


Alfred Kinsey sempre me causou fascínio. Alto, com o cabelo eriçado, olhos azuis, compostura refinada, voz impostada, e uma ótima companhia para um boa conversa. Kinsey também me divide. Mesmo tendo sido um dos pioneiros no estudo sobre a sexualidade humana, ele parece-me um tanto quanto obscuro, seja pelos boatos que borbulham em todos os cantos, seja por alguns desses boatos serem reais. De qualquer forma, gosto (ou tenho alguma simpatia) por Alfred Kinsey. As razões não são muitas, o aprecio mais por ele não ter sido um preocupado com a moral e não ter deixado isso influenciar no seu trabalho (disso falaremos mais pra frente). Por isso de vez em quando vejo o filme baseado na sua vida, Kinsey: vamos falar de sexo. Claro que o título foi pessimamente trabalhado aqui no Brasil, onde qualquer filme que tenha a palavra “sexo” no título já vai vir carregado de boas doses sacanagens e pornografia (tanto faz se explícita ou implícita). No entanto o filme de Bill Condon não se preocupa com esse aspecto, o foco é outro. No filme nos deparamos, com um pouco de amenidades e eufemismos cinematográficos, com os dilemas e desafios (nossa estou me sentindo péssimo por ter usado essa expressão, mas é o que tenho pra hoje) morais e éticos que Kinsey teve de encarar para poder compreender e estudar, com o mínimo de credibilidade científica, a sexualidade humana. Os maiores entraves foram sem dúvida tratar de um tema tão delicado, de cunho pessoal e íntimo, de forma moralmente neutra. O longa de Condon permite uma visão transparente disso. Outro grande problema era a ignorância sobre sexualidade que permitia aos puritanos moralistas darem respostas absurdas, numa tentativa de proliferar a “moral certa” mascarada de cientificismo, como em exemplos dados no filme: que o adultério tinha relações com terremotos, sexo oral causava esterilidade, masturbação poderia desencadear inúmeras doenças causando até a morte, entre outras tantas coisas que hoje nos fazem rir, mas que na época eram levadas a sério. Todavia isso tudo era fruto da moralidade religiosa, não de estudos científicos confiáveis. Todo o conhecimento sobre sexualidade que se tinha nas décadas de 30 e 40 era baseado no famoso “me disseram que…”, o que fazia os absurdos que eram propagados pelos pseudo-cientistas se proliferassem e ganhassem proponentes ferrenhos. A moral, e principalmente a hipocrisia, foi um grande problema que Kinsey teve que enfrentar. No entanto, na sua sede para fazer esclarecimentos sobre o comportamento sexual humano, ele determinou-se a dar cabo numa importante pesquisa sobre essa área tão pouco conhecida e que o simples fato de mencionar já era motivo para olhos tortos e ares desdém. Mas antes de entrar nesse aspecto da intervenção negativa da moral dentro do avanço do conhecimento, vamos falar um pouco sobre o filme de Bill Condon.

Com o título original de apenas Kinsey (2004), Bill Condon fez um filme com um ritmo lento (mas não enfadonho) que explora seu protagonista (interpretado de forma perfomática por Liam Neeson, o mesmo que fez A Lista Schindler), sua obsessão, na acepção de dedicação completa, seu prazer e sua ousadia no estudo do sexo numa época que, mais do que hoje, esse assunto era tabu. Assim como o próprio Kinsey com seus entrevistados, o realizador não procura, através do filme, julgar seu personagem mas entendê-lo. Em nenhum momento do filme existe qualquer espécie de tendenciosidade, elaborando algum juízo de valor sobre o caráter de Kinsey. Narrando o processo de construção da pesquisa para a elaboração do livro “O Comportamento Sexual do Homem”, Kinsey: vamos falar de sexo retrata a década de 40 e 50, época em que o livro é lançado, e toda a polêmica que os estudos de Kinsey causaram na sociedade norte-americana. Causando verdadeiro choque e uma espécie de revolução no estudo dessa área do comportamento humano, Kinsey explicitou fatos que deixou muitas pessoas, as puritanas de forma mais acentuada, embaraçadas. Dizer que 92% dos homens e 62% das mulheres americanas já tinha se masturbado, causou um grande impacto no puritanismo moralista da época. Mas o drama biográfico de Condon é bem conduzido, e vai mostrando como os estudos de Kinsey proporcionaram a quebra de inúmeros estigmas que minorias sofriam, de como suas pesquisas permitiram que um grande número de pessoas obtivesse um conhecimento seguro sobre sua sexualidade. Com atuações fantásticas como a da atriz Laura Linney, que interpreta a esposa de Kinsey e concorreu ao Oscar como melhor atriz coadjuvante, do John Peter Sarsgaard ou ainda do talentoso, e no filme com uma atuação inspirada, John Lithgow interpretando o pai de Kinsey, a película (minha palavra pseudo-cult do texto) de Bill Condon tem uma leveza bem coordenada que deixa o espectador tranquilo, mas em alguns momentos irrequieto, diria incomodado, com alguns temas e o comportamento dos personagens. Um filme bem calculado, bem produzido (um dos produtores executivos é Francis Ford Coppola) que vale a pena (re)ver.

Na cinebiografia de Condor sobre Kinsey já dá para ver como foi complicada a vida do entomólogo e taxonomista, formado em Biologia em Harvard e que foi um dos maiores especialistas em vespas (tendo coletados mais de um milhão de amostras diferentes desses insetos) da época, que resolveu mexer num ninho de vespas perigosas: a sexualidade humana. Percebendo a ignorância da época sobre isso, ele resolveu fazer uma pesquisa que foi de 1938 a 1953 com exatas 11.240 pessoas, através de um questionário onde abordava todos os aspectos comportamentais de suas vidas sexuais. O resultado de seus estudos foram dois livros: Comportamento Sexual no Macho Humano (1948), que causou um verdadeiro estardalhaço em jornais e revistas com revelações curiosas e constrangedoras e que fomentaram polêmicas ensandecidas nos  círculos religiosos da época devido aos aspectos mais peculiares do trabalho de Kinsey; o outro livro, abordando o comportamento sexual feminino, foi Comportamento Sexual na Fêmea Humana (1953), que causou outra reação em cadeia por fazer revelações comprometedoras como afirmar que 13% das mulheres americanas já tinha tido relação homossexual e alcançado o orgasmo através desse tipo de relação. Mas existem outros aspectos que fizeram com que Kinsey fosse visto como um monstro, como, por exemplo, através de depoimentos de pedófilos (só essa palavrinha já ativou as defesas morais de alguns leitores), ele montou um quadro mostrando os números de orgasmos obtidos por crianças das mais diversas idades, indo de 11 meses até 13 anos. Ele foi tido como estimulador de perversidades e “anormalidades” sexuais e foi duramente criticado por seu comportamento excêntrico (ele permitia que sua mulher transasse com seus assistentes, e transava com as mulheres de seus assistentes, era bissexual, filmava sessões de sexo, mas tudo em caráter científico, pois tudo era criteriosamente estudado, analisado e medido). Mesmo assim, Kinsey foi o pai da sexologia, disciplina criada por ele. Graças a seus estudos, na década de 70 a homossexualidade foi retirada das listas que a classificavam como transtorno mental e como doença sexual. Claro que hoje já existem críticas científica ao seu trabalho, o que é natural pois foi o primeiro estudo do gênero e primeiros estudos não dão conta de preencher todas as lacunas, mas o pontapé inicial foi seu. No entanto existem também outras críticas, principalmente de instituições religiosas, que tentam descredibilizar os trabalhos de Kinsey, mas tudo pelo viés da moral, o que não tem validade nenhuma. Aliás, essa coisa de moral tem dado trabalho há muito tempo.

A moral religiosa atrapalha muito no conhecimento, científico, do ser humano. Interfere nas nossas escolhas estéticas e nas decisões de nossa vida. O exemplo de Kinsey talvez seja o mais emblemático. Graças à moral nega-se comportamentos naturais como se fossem aberrações, reprime-se a natureza humana como se estivesse errada. Ela é uma negação do humano, de seus desejos, de suas vontades. Ela não deve intrometer-se em questões que estão fora de sua alçada, como a ciência. Toda vez que existe a interferência dela na ciência os resultados são desastrosos, vide estudos nazistas para tentativa de comprovação científica da superioridade dos arianos em relação a judeus, ciganos e homossexuais ou observem ainda nos estudos “científicos” que tentam provar que homossexualidade é uma doença. Tudo isso é fruto de uma moral segregadora, excludente, preconceituosa e presunçosa, detentora da “verdade”. Não discuto o problema da isenção ou neutralidade científica, pois a julgo impossível, mas a tendenciosidade da moral é algo que compromete a ciência e o seu desenvolvimento. Imaginem se Kinsey não continuasse seus estudos sobre a sexualidade por causa dos puritanos, o quanto estaríamos atrasados em termos de conhecimento sobre aquilo que faz parte de nós e que (pelo menos esse que vos escreve gosta muito) gostamos de fazer, que é sexo? A moral religiosa não possui validade nenhuma num século onde podemos viver sob outras regras e paradigmas. Viver sem regras hipócritas e anti-naturais é bem melhor do que uma vida reprimida e ignorante. Espero que surjam mais “Kinseys” por aí e ignorem a moral em favor do conhecimento.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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7 respostas a Alfred Kinsey: ciência, sexo e a moral

  1. Helene diz:

    Eu assisti o filme e gostei muito. Assim como também adorei seu texto. Mas confesso que estou rindo do primeiro comentário (acho que saído dos anos 40 rsrsrsrsr)

  2. Carlos Alves Constantino diz:

    Nossa!Que texto pseudo-intectual pró-homossexuais e pedófilos,cara.Uau!Vou cair fora deste site MESMO!!!

  3. Leandro diz:

    Adoro o Kinsey, sou fã número um dele. Uma das sua pesquisas que mais me chamou atenção foi a relacionada à pedofilia. Para mim, taxar a liberdade sexual dos seres humanos independente de faixa etária é tão absurda quanto quem defende a homossexualidade e condena a pedofilia. Isso se chama hipocrisia.

  4. Rapaz, eu amo o Kinsey, tenho uma paixão por ele, não o vejo como pervertido, apenas como um estudioso, sobre estudos polêmicos, infelizmente tenho que ver como “Mal necessário”, não sei se ela era Bissexual, acho que era Hétero, porém, um Hétero que era livre pra usar a si mesmo em prol do experimento. Religião sempre surge para impedir certos estudos e pior muitas vezes tenta jogar suas verdades como únicas. Muito bom o texto, como sempre, eu amo Kinsey. Sei de toda discordância que existe sobre ele, mas creio que a maioria das discordâncias sejam por seus métodos não convencionais, e se falta uma amostragem maior nele, como dizem, pelo menos ele deixa muitas reflexões sobre sexualidade que certamente nos ajudaria e muito.

  5. O comentário de Volcof está mostrando justamente a intervenção da moral, dessa vez em um texto.

    Falando de Kinsey, sinceramente, só fui conhecê-lo durante conversa com o autor do texto e ele mostra que o conhecimento de uma área pode ser utilizada de forma similar em outra, mostrando que os humanos são tal qual os animais, possuem instintos, mas que são reprimidos devido a imposição das instituições.

    Alguns dizem que hoje há uma banalização do sexo, mas no caso do Brasil é uma observação equivocada, o sexo só é algo mais liberal aqui em tempos de carnaval, quando as pessoas vestem suas verdadeiras faces (máscaras) e fazem o que querem sem se preocupar com a reação dos que os estão observando, aliás, diria que se mascarar para mostrar a verdadeira face é algo que soa paradoxal.

    Mas o texto não fala do Brasil, fala de uma personalidade que em vez de ficar em sua escrivaninha escrevendo teorias, foi a campo (ou a quartos) colocar em prática suas experiências, sem dúvida alguém de extrema coragem para enfrentar o peso da marreta moral que por várias vezes deve ter tentado massacrá-lo. Falando nisso, a ciência só não avança mais em alguns campos justamente por conta desse intrometimento, se bem que tudo na vida sempre tem um contra-peso e eu só poderia dizer se a intervenção moral é algo extremamente ruim ou bom se ela fosse ausente, mas aí haveria outra complicação, pois não a conheceria.

  6. Volcof diz:

    Gostei do texto, gostei da exposição do tema.
    Mas… “A moral religiosa não possui validade nenhuma num século onde podemos viver sob outras regras e paradigmas.” Você não acha que essa opinião, ainda que fomentada em bases históricas que má conduta das instituições religiosas, acaba sendo agressiva demais à um planeta de dois bilhões de cristão?
    Você não acha que essa sua específicia opinião acaba excluindo um mundo que, embora modernizado e totalmente a favor dos avanços científicos, ainda crê (como eu creio) que exista o insondável, o Superior, algo ou alguém devemos reverencia?
    A moral religiosa, embora possa ser relacionada diretamente aos fariseus do tempo de Jesus, é a base de nossos agrupamentos sociais atuais e ainda é muito válida à uma parcela consideravel da população mundial.

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