Perdemos muito tempo registrando e pouco vivendo


Você está no restaurante comendo seu foie gras acompanhado de um fino vinho branco com algumas fatias de queijo ou mesmo na lanchonete da esquina comendo uma coxinha com coca, quando você pega um susto: alguém está batendo foto daquele momento ou – pior!- está fotografando a comida! Você pergunta “pra quê isso?” aí a bendita figura te responde sem que trema nenhum músculo da cara – quem conhece o dito popular vai entender esse frase – “ é pra guardar como lembrança!” – mas de uma coxinha? –  Essas coisas tem se intensificado e chegado às raias do insuportável com as redes sociais. Há uma necessidade quase que mórbida de compartilhar tudo: desde onde se está até onde se vai. Tudo, tem que dizer tudo.

Um amigo me diz sempre isso: a internet foi feita para pessoas carentes se sentirem amadas e as idiotas espertas. De fato é quase isso que se comprova. Principalmente no quesito compartilhar experiências sociais. As pessoas parecem que enlouqueceram! Querem dizer tudo o que estão fazendo, querem mostrar a todos para onde estão indo, o que estão comendo, o que estão lendo, que filme estão assistindo. Parece que não tem graça fazer nada se isso não for registrado e compartilhado com que não está nem aí pra isso. O pior de tudo é que se está deixando de viver por causa disso. Quando você está num show o que mais se vê são câmeras fotográficas levantadas tentando “eternalizar” aquele momento para a posteridade, e o que menos se vê são pessoas “curtindo” de verdade o show. As pessoas passam mais tempo registrando as coisas do que vivendo. Não seria melhor deixar a câmera de lado e se divertir de verdade? O melhor lugar para aquele momento se eternalizar é nas nossas lembranças. È tão bom ficar rememorando momentos antológicos de nossas vidas mentalmente! Mas não. Queremos mesmo é bater foto e postar nas redes sociais, queremos mesmo é tuitar o que estamos comendo, preferimos mesmo é dizer pra todo mundo onde estamos. Boa parte da nossa atual vida é perdida nessa brincadeira chata de fazer os amiguinhos – virtuais – ficarem com inveja do que estamos fazendo.

E assim a vida vai correndo, porque ela não está nem aí para o que você está fazendo, ela não para para olhar, ela continua. Quando você menos perceber, já na sua velhice, você será apenas um idoso cheio de fotos e com poucas experiências. “Está vendo a Torre Eiffel aqui? Pois é fui eu que tirei essa foto” “Mas você subiu nela?” “Não” “Por que?” “Não deu tempo”.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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3 respostas a Perdemos muito tempo registrando e pouco vivendo

  1. Paula Carvalho diz:

    Muito bom, uma verdade absoluta. Alguns de meus “amigos” no facebook devem ler, pq né… É difícil aturar as babaquices que eles compartilham, sem fundamento algum.

  2. Crônica lúcida em tempos de histeria. Muito bom mesmo. Parabéns!

    Recomendo a leitura deste artigo do Ghiraldelli sobre o mesmo tema: http://ghiraldelli.pro.br/2011/04/29/nietzsche-online/

    Abraços!

  3. Tarsila diz:

    adorei. concordo plenamente.

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