História em Quadrinhos também é Literatura?


História em quadrinhos faz parte da vida de todo mundo, principalmente da infância, que é uma fase que estamos mais abertos para a leitura desse tipo de história, uma história ilustrada. Todo mundo já leu histórias em quadrinhos nem que sejam as da Turma da Mônica, criada pelo cartunista Maurício de Sousa (1935) em 1959. O fato mesmo é que elas estão por aí. Hoje elas têm edições de luxo, com acabamento refinado, ilustrações de tirar o fôlego, e histórias fantásticas e fabulosas. E tudo começou há um bom tempo. Discute-se muito qual tenha sido de fato sua origem. Alguns dizem que histórias que eram contadas através de ilustrações que remontam da era das cavernas, com as pinturas rupestres. No entanto, o atual formato se deve muito pelo trabalho de Rudolph Töpffer (1799-1846), artista gráfico e escritor suíço, Wilhelm Busch (1832-1908), cartunista alemão, do francês Georges Colomb (1856-1945), botânico – sim! – famoso e do italiano radicado no Brasil Angelo Agostini (1843-1910). Graças a eles, ao último refere-se ao desenvolvimento dessa modalidade narrativa em terras tupiniquins, temos hoje o que se pode chamar de Histórias em Quadrinhos. Mas a primeira HQ – como histórias em quadrinhos são carinhosamente chamadas hoje – no estilo moderno foi criada por Richard Fenton Outcalt (1863-1928) com a série The Yellow Kid, onde lança mão de um recurso muito conhecido hoje chamado balão, para apontar a fala dos personagens, sem contar ainda que essa história foi a primeira a ser impressa em cores, mostrando-se assim um marco na cronologia histórica das HQs. A princípio as histórias tinham cunho cômico e humorístico – por isso que em inglês as HQs são conhecidas como comics – e dessa fase as mais famosas foram Mutt & Jeff de Bud Fisher, Little Nemo de Winsor McCay, Krazy Kat de Georges Herriman, e Popeye de E.C. Segar. As histórias eram basicamente sobre travessuras infantis e animais, o que mudou com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 onde surgiram novas histórias, dessa vez no gênero aventuras, onde o maior marco talvez seja a adaptação da história do personagem Tarzan, criado pelo escritor E. R. Borroughs, feita por Hal Foster. A década de 30 é conhecida como a Era de Ouro das histórias em quadrinhos. Mas tudo iria mudar com a criação do primeiro super-herói cuja identidade era secreta: Superman, criada por Joe Shuster e Jerry Siegel. A partir daí as histórias começaram a amadurecer, surgindo, de 1940 a 1945 mais de 400 novos super heróis, muito dos quais conhecemos e somos fãs, com destaque para Batman criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939, que adotava um elemento novo: um super herói sem poder sobre-humano – mas ele tinha um grande super poder: dinheiro. Outra revolução. Daí os grandes conglomerados de empresas de criação de HQs fizeram grandes disputas, fazendo surgir personagens que entraram para o imaginário coletivo, como O Quarteto Fantástico, Os X-mens, Homem Aranha, Capitão América – que é da mesma época de Batman -, Hulk, Homem de Ferro, Thor entre tantos. Todavia o enfoque desses personagens ainda era o público infanto-juvenil – apesar de, na minha opinião, o primeiro Batman era muito mais pesado do que esse que temos hoje – e adolescentes, o que mudaria da década de 70 para cá. Nos anos 70 surgem os HQs undergrounds, onde borbulham sexo, “fantasia, ficção científica, viagens psicodélicas, rock’n’roll, corpos nus” (História das Histórias em Quadrinhos, artigo de René Gomes Rodrigues Jarcem da Faculdade Maurício de Nassau), com destaque, pessoal, para os italianos Berardi e Milazzo, criadores de Ken Parker e Milo Manara com seu genial Clic. É o surgimento de uma nova grande fase das HQs, mas ainda faltavam grande avanços, que foram feitos pelo “pai dos quadrinhos”: Will Eisner (1917-2005). Criador de Spirit em 1940, ele foi o grande articulador dos quadrinhos como forma de manifestação literária, cunhando o termo Graphic Novel (Romance Gráfico). “Will Eisner, é o responsável por dar inteligência aos quadrinhos”, segundo o excêntrico Alan Moore. Eisner deu aos quadrinhos uma nova roupagem abordando temas pesados com ironia e humor. Uma de suas principais contribuições para os quadrinhos foi Um Contrato Com Deus de 1978. Essa foi à abertura para que as HQs deixassem de ser meramente revistinhas para entreter crianças, adolescentes e jovens para galgar um lugar de respeito no mesmo patamar da Literatura canônica. E é aí que começamos nossa história.

Você consideraria as HQs da mesma forma como considera a Literatura? Você colocaria Alan Moore ao lado de Franz Kafka? Carregados de uma série de estereótipos, diríamos que não, que não existe uma relação estrita entre essas duas formas de narração e que entre Moore e Kafka existe um abismo de distância. Mas essa resposta não corresponde com o que é hoje produzido no mundo dos quadrinhos. Graças ao trabalho de Eisner, os quadrinhos obtiveram uma nova abordagem: tirando as máscaras, e as cuecas por cima da calça e mostrando personagens vivendo suas vidas banais e mesquinhas, Eisner faz uma grande aproximação entre quadrinhos e literatura. A aproximação cabal aconteceu com o surgimento da geração de 80, cheia de ilustradores e escritores de talentos que ombreiam com os grandes nomes da Literatura: como Neil Gaiman com seu Sandman, Frank Miller com Elektra Assassina, Alan Moore e David Gibbons com Watchmen. Das três obras que citei a mais notória foi Watchmen escrita o Moore e ilustrada por Gibbons. Tratando de temas pesados, muitos de cunho filosófico, político, social, econômico, mostrando os problemas éticos, morais e psicológicos dos heróis, Watchmen efetuou uma das maiores reviravoltas no mundo dos quadrinhos. Eleito pela revista Times como um dos 100 melhores ROMANCES – perdoem-me o caps lock – de todos os tempos, Watchmen quebrou as barreiras, definitivamente, que existiam entre quadrinhos e literatura. Foi – e continua sendo – um fenômeno de vendas, tendo sido adaptado com sucesso para o cinema, e se tornado uma grande influência no mundo literário, por sua narrativa mesclada de humor, ironia e intelectualidade. As HQs não mais seriam vistas da mesma forma como antes. Graças a Moore e Gibbons, os quadrinhos ganharam os status de alta literatura, ganhando o mesmo respeito que um livro de Virginia Woolf, George Orwell e F. Scott Fitzgerald – autores que estão na lista da Times. Histórias como a de Art Spielgman com seu Maus, numa das maiores alegorias sobre a holocausto na literatura, Preacher de Garth Ennis e Steve Dillon, com seu personagens bizarros, Sin City: a cidade do pecado de Frank Miller, história que assemelha-se com os romances policiais noir de David Goodis ou ainda mesmo uma outra grande história de Alan Moore, que é V de Vingança onde há uma séria análise do Estado e a Anarquia na emblemática figura do personagem identificado pela letra “V”, foram as grandes catalisadoras da visão que se tem hoje dos quadrinhos como Literatura.

Atraindo a atenção de críticos, ganhando prêmios dados somente para livros da literatura canonizada, ganhando credibilidade como literatura séria, as histórias em quadrinhos são uma das mais criativas e fantásticas manifestações literárias contemporâneas. São romances que exploram outras características do leitor, que brincam com sua imaginação e que o faz ter sérias reflexões sobre o humano e a vida, não devendo em nada para a Literatura; aliás, não deve nem nada para a literatura porque também é Literatura. Por isso não olhe com desdém quando você ver um adulto lendo quadrinhos, porque ele também está lendo Literatura – só não esqueça que, assim como em Literatura, existem péssimos romances também nos quadrinhos.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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7 respostas a História em Quadrinhos também é Literatura?

  1. willian silva diz:

    isso e grande de mais caraca ????

  2. Jean Roger diz:

    Gostei do texto, é bem explicativo. Discordo quanto a adaptção do Watchmen (haha), no geral é bem ruinzinho cara. Mas tem seus pontos altos e brilhantes. Mas enfim, parabéns pelo belo texto.

  3. Parabéns, só consegui ler agora, você fez um verdadeiro e didático texto sobre a história da história em quadrinho muito bom, realmente, tem histórias em quadrinhos que são obras de arte, afinal, desenho é como pintura, é arte, e um bom roteiro diz tudo. Parabéns, me apresentou um mundo bacana, sempre amei, mas nunca tinha parado pra pensar.

  4. Sylvio Deutsch diz:

    Como o texto está centrado na produção norte-americana, faltou mencionar o Spirit e outras do Will Eisner, o cara era genial. Diretores de cinema são apaixonados por seus quadrinhos porque são muito parecidos com uma decupagem cinematográfica (a “quadrinização” do roteiro antes do filme ser feito dando a idéia das posições e enquadramentos que serão usados). E, claro, um dos meus grandes favoritos, Robert Crumb.

    Existe também uma produção fenomenal na Europa (a famosa revista americana Heavy Metal começou na França chamando-se Metal Hurlant) com nomes como Moebius (o francês Jean Giraud – criador da Metal Hurlant)), o fenomenal desenhista Tanino Liberatore (ilustrador, entre muitos outros, do Ranxerox de Stefano Tamburini) que surgiram na revista italiana Frigidaire, Guido Crepax e sua Valentina (ele ilustrou também o romance A história de O), Giger, Jodorowsky (que é chileno, mas produziu basicamente na França e criou entre outras O Incal, que a wikipédia diz ser considerada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos. É interessante notar que o artigo sobre ele na Wikipédia se extende longamente sobre sua carreira como diretor de cinema e teatro, deixando míseras duas linhas para os quadrinhos), Horacio Altuna e, sem dúvida também no topo da lista, Uderzo e Goscinny com seu Asterix. Essa é outra vertente igualmente grandiosa dos quadrinhos, a do humor, altamente desprezada mas que aos meus olhos produziu obras capazes de rivalizar com qualquer clássico da literatura.

    A lista poderia ser imensamente maior e certamente estou esquecendo grandes nomes, inclusive autores que admiro.

    Um aspecto interessante de notar é que os quadrinhos americanos são fortemente baseados no conceito de super-herói, enquanto os quadrinhos europeus são muito mais abertos, com roteiros e conceitos mais próximos do que se convencionou chamar literatura. Nem por isso um é mais literatura do que o outro.

    {}Fatbear

  5. o Moore sem dúvida revolucionou a HQ, e creio também que é sim literatura e das boas. Pensei que vc citaria “O Inferno de Dante” por que de certa forma também tem uma ligação a tudo issda história ilustrada … gostei da sua abordagem e do tema =) !

  6. MiguelConraado diz:

    acredito que sim. em livros agente tem que imaginar o ambiente, os personagens e a cronologia, mas o HQ insere essas caracteristicas.
    WATCHEM É FODA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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