Meia-Noite em Paris: nunca estamos satisfeitos, porque a vida não é satisfatória


Eu, com apenas esses 19 anos de existência, me envergonho da minha geração. Tenho vergonha de dizer que nasci na década de 90, que tenho que ver uma legião de leitores idolatrando escritores do tipo de Paulo Coelho, Augusto Cury, Zíbia Gasparetto e Dan Brown, entre tantos outros terríveis; de ver uma legião de jovens que escutam essas merdas sonoras que borbulham por aí. Envergonho-me dessa geração que prende-se ao computador e esquece dos livros, que ouve apenas uma música e esquece o resto da obra, que sabe apenas algumas frases de grandes escritores e já diz que os conhecem. Me envergonho dessa pobre geração com tanta informação e tão pouco conhecimento.

Sou um jovem idoso. Que inveja dos jovens das gerações passadas. Fico suspirando ao ler relatos das pessoas que viviam de verdade, que saíam nuas nas ruas, tomavam pileques homéricos, que escreviam muito, que transavam muito, que se machucavam muito, que feriam muito, que viviam muito (mesmo morrendo tão cedo). Que inveja dessas gerações! E uma das gerações que mais me dói não ter nascido, foi a geração da década de 20. Por que, ó Deus Inexistente, não me permitisse nascer algumas décadas antes? Uma cidade que eu gostaria de ter conhecido nessa época sem dúvida seria Paris. Construí nesse meu curto tempo de vida pelas bandas de cá, na terra, a imagem de vida que eu gostaria de ter: uma existência regada a álcool, literatura, arte, cinema e sexo. Paris tinha uma dose exagerada de tudo isso. Paris, na década de 20, exalava tudo isso. Seria uma honra morrer cedo, mas ter usufruído disso. Essa foi, indubitavelmente, uma das melhores épocas que o mundo já presenciou.

Sou louco para conheci Paris desde meus 12 anos quando li “Paris é Uma Festa” do Hemingway. Desde então sonho com os cafés, com as conversas sobre quadros, livros, filmes, vinhos e a vida. Sonho com as reuniões na casa de amigos para lermos, noite adentro, poemas, contos e romances diversos. Desde então sonho com o estilo de vida parisiense da década de 20. Sonho em ter um mecenas que pague todos os meus exageros, todas as minhas viagens; sonho em viver de arte, escrevendo por dias regados a muito café, tal qual Honoré de Balzac, e uísque. Desde então desejo poder descobrir uma possibilidade de voltar no tempo e cair bem em Paris na década de 20.

Mesmo sem nunca ter ido lá, Paris já faz parte da minha vida. Mas como ainda estou transpirando o cheiro do leite materno, terei muito tempo para passar lá e, quem sabe, viver um pouco do meu sonho.

As linhas acima eu escrevi há alguns meses, e vi que isso que sentia em relação ao meu tempo é algo que está fora da minha alçada e que faz parte da insatisfação de todos: nunca estamos satisfeito com o presente, o passado era melhor ou o futuro pode ser melhor. Isso ficou mais patente depois de eu ter visto o último filme do cineasta Woody Allen, “Meia Noite em Paris”, que conta a história de Gil Pender (talvez a melhor atuação do mediano Owen Wilson), alter ego de Allen, um escritor de roteiros hollywoodianos que queria escrever um livro relevante e que, por conta de um encanto qualquer, consegue voltar para a Paris da década de 20, da “geração perdida” e travar contato com escritores e artistas como Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Cole Poter, Zelda e Scott Fitzgerald, Picasso, Buñuel, Dalí entre outros, que fizeram com que esse mero articulista que escreve para vocês tivesse alguns orgasmos intelectuais enquanto assistia o filme. Como é de praxe nos filmes e livros de Allen, há uma série de piadas cults como quando Pender diz uma frase do Hemingway para o próprio – “Acredito que toda a literatura americana nasce com ‘As Aventuras de Huckleberry Finn’” – e ele desconversa perguntando sobre boxe, ou quando Pender adianta a ideia do “Anjo Exterminador” para Buñuel que fica sem entender nada, entre outras que permeiam todo o filme. Gil Pender, nas suas idas para a década de 20, aliás uma década intelectual efervescente, se apaixona por uma das amantes de Picasso, Adriana, que acha a “Era de ouro” de fato a Belle Époque e por outra mágica, eles se encontram com expoentes dessa época, como Gauguin, Degas e Toulouse-Lautrec e isso numa mesa do mitológico Moulin Rouge. No meio da conversa, Degas, Toulose-Lautrec e Gauguin expressam sua insatisfação com sua geração, uma geração sem criatividade, e para eles geração boa mesmo era a da Renascença. A mensagem do filme é clara: não existe idade de ouro. Nunca ficaremos satisfeitos com o presente porque a vida é insatisfatória. Perder tempo numa nostalgia do passado não fará com que a época em que vivemos seja melhor. Devemos alimentar a ideia contida no “carpe diem” – olha mais uma vez o lugar-comum dando o ar de sua graça. Muito provavelmente as gerações acharão essa nossa uma das épocas geniais que poderiam ser vividas de forma mais intensa possível, uma época invejável. Essa nostalgia desmistificada pelo longa de Allen, deve ser esquecida, abandonada eu diria; não vale de nada. Temos o hoje para viver, que o vivamos então! Não percamos nosso pouco tempo com suspiros por passado que achamos ideal.

Sempre achei que deveria ter nascido na década de 20, que essa seria a melhor época para viver, escrever, se embebedar, mas Woody Allen me deu um tapa tão forte e fez-me ver que não adianta de nada ficar me lamentando por ter nascido na década de 90. O que posso fazer? Posso viver essa minha época da forma mais incrível que me é possível, sem ficar idealizando o passado, porque a vida não vai ser melhor por isso. Não importa a época, a década, a vida vai ser ruim do mesmo jeito. Assim como muito de nós tem verdadeiro asco pelo desenvolvimento cultural e intelectual – observem a expressão pseudo-cult – de nossa época, Degas também achava da dele, Adriana também em relação a sua. Não adianta se prender ao passado.

O filme de Allen é lindo. Filmando Paris sob a chuva, com meticulosidade, o cineasta americano faz surgir em nós àquela sensação de estupor e prazer que costumamos sentir muito raramente. Com fino humor e entupido de referência à altura cultura disfarçada de piadas, Allen mostra um fatalismo cruel: não existe época satisfatória, porque nem a vida é.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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6 respostas a Meia-Noite em Paris: nunca estamos satisfeitos, porque a vida não é satisfatória

  1. Jéssica diz:

    Faço das palavras acima, as minhas.

  2. Kdanada diz:

    Ainda não assiti “Meia noite em Paris” fiquei com muita vontade de ver, deve seguir a linha de um dos meus filmes preferidos “Antes do Amanhecer” filmado em Viena. Ricardo você queria ter nascido na década de 20 em Paris (que chique) mas em que que classe?! isso muda tudo. Quanto aos problemas as gerações das décadas de 20, 30, 40… enfim todas enfrentaram apenas mudaram ao longo do tempo. Não há como fugir.

    bjos!

  3. Juliana Costa diz:

    em pouquissimo tempo se tornou,um dos muitos, meu filme favorito. embriago-me de arte, de cultura, de tudo aquilo proposto. e sim, a vida teria mais sentido desse jeito. a beleza das coisas, em sua grande parte, não é explicita. precisa-se que o olhar seja lapidado até que o ofuscante diamante seja visto, tal como a beleza da arte.
    (ok, tô devaneando demais já. HEHE)

  4. MiguelConraado diz:

    nossa… que nietzschiano mais romântico e suave.

  5. Romario Silva da Silva diz:

    Eternos insatisfeito, sim. “a vida é ruim”, duvido muito. Gosto desse não contentamento, possibilita-me um certo crescimento, sendo a vida insatisfatoria, não vivo em monotonia, estamos a tempos buscando uma época ideal que só existe na nossa. E realmente a postura da nossa geração é decadente.

  6. Saddy Menescal diz:

    Como sempre um texto muito bom…a cena do Dalí “surrealizando” um papo onde tudo leva a Rinocerontes…hilário!

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