Heráclito e a Coerência


Sócrates é um dos mais importantes pensadores que o mundo já conheceu, um dos sustentáculos de todo o pensamento filosófico. Mesmo não tendo criado nenhum escrito onde expusesse seus pensamentos, seus discípulos perpetuaram suas ideias. Todavia antes de Sócrates surgir como colosso do pensamento, outros pensadores de grande fôlego intelectual já estavam produzindo profundos e complexos pensamentos: esses eram os pré-socráticos. Dentre esses pensadores, que se preocupavam em explicar o mundo e seus acontecimentos através da racionalidade, quebrando com a explicação mitológica das coisas,  houve um que destacou-se pela ousadia de suas ideias: Heráclito de Éfeso. Indo contra ideia de Parmênides, outro importante pré-socrático que influenciou Sócrates e Platão, que promulgava a imutabilidade do Ser e das coisas, Heráclito foi o filósofo do devir, do tudo flui. O filósofo de Éfeso tornou-se famoso por defender a ideia de que tudo no mundo está sofrendo uma constante mutação, uma transformação contínua e diária, que nada é estático, nem o humano, nem o mundo em que ele vive. Ou seja: cada coisa é e não é simultaneamente. É porque existe, está localizada em algum lugar do espaço e do tempo, e não-é porque sofre interferências externas e internas que a modificam, tornando-a sempre um “novo” Ser, um Ser transmutável. Numa das mais famosas analogias da Filosofia, Heráclito escreve: “Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio nem tocar duas vezes uma substância morta no mesmo estado./ A vida é uma criança que brinca, que movimenta as peças do tabuleiro./ Tudo flui e nada permanece.”. Não é possível mergulhar no mesmo rio duas vezes, porque nem o rio, nem quem mergulha nele continuam sendo a mesma coisa. Assim como um rio que suas águas estão em constante fluir, também o humano está num contínuo devir. Se estamos sempre em mudança, é sensato pedir coerência do humano?

O leitor precipitado pode já concluir baseado numa leitura apressada da pergunta que fiz no parágrafo anterior que sou um defensor da incoerência, da porralouquice, ou mesmo pode não concluir nada e esperar o que tenho para dizer depois de uma introdução tão enfadonha. Que seja, sigamos. Não acredito em coerência, é isso. Acho-a impossível de ser alcançada. Pelos motivos heraclitianos de nossa constante transmutação – olha que frase boa para um livro místico – não conseguimos seguir um rumo, um pensamento e manter-se nele a vida toda. Mas algum parmenidiano pode aparecer por aqui e dizer: as pessoas continuam essencialmente as mesmas, podem sofrer pequenas mudanças, externas e necessárias, mas a essência não muda, sempre continua a mesma. É a essência que vive mudando, senhores. Essa, que parece intocável, que vive no mais fundo do nosso ser, é a que mais muda em nós. Somos essencialmente maleáveis, elásticos, o que pode parecer uma contradição para o leitor raso desse raso escritor. A medida que se vive, tenta-se seguir um plano que norteie toda a vida, coisa que não dá certo. Tenta-se viver de acordo com uma ideia que há anos foi abraçada, mas que hoje já não se tem motivos para defendê-la – quem sabe, até eu, que hoje sou heraclitiano, com o passar dos anos e a aproximação da rabugice acentuada, não me transforme num parmenidiano fanático – tudo isso porque muda-se, vive-se a mudar. A grande graça – olhe o lugar-comum – da vida é poder discordar, ser contraditório, porque o mundo funciona assim, na aleatoriedade, contrariedade, na confusão, por consequência também somos assim, tão contraditórios e incoerentes quanto o mundo e a vida. Mas que mal há nisso? Não reclame do rio que é outro, porque depois que terminar de ler isso nem você, nem eu seremos mais os mesmos.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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