Melhor é morrer


A vida não é bela. A vida é sofrida, doída. Não tem nada de belo nela. Não quero parecer um desiludido com a vida. Não sou. Afinal, cá estou vivo, ainda usufruindo dessa dor. Uma dor que às vezes aumenta tanto que se quer logo expurgar. Mas falta coragem. A vida não vale de nada, não tem serventia. Já estamos trilhando para um nada, para um sem-fim, pra quê então ficar se iludindo achando que a vida é boa, se não é? Não falo dessa vida assim, sua, nem de Beltrano, nem de Cicrano, falo da vida de todos. Essa não é bela. O que tem de belo nela? Nada. Mas vamos vivendo. Vamos seguindo com umas alegrias falsas, com uns elogios interesseiros, com umas companhias pouco confiáveis. Vamos seguindo por medo. Medo de morrer, de dar fim em tudo. Não fique achando que estou incentivando o suicídio. Mas essa é a melhor saída para sair da sofreguidão dessa vida monótona. Heidegger já dizia que a morte era a melhor alternativa para vida, uma forma de plenificação do ser. Tenho certeza que ninguém vai me entender ou que vai dar significados adversos a esse texto, alegando coisa que eu não disse. Podem ainda dizer que já não tenho o que escrever e que fico falando besteira pra encher folhas, ou que a insônia me entorta as ideias. Não me importa o que se diga, nem de mim, nem da vida – ambos de nada valem – o que importa é o que vai se desdobrando debaixo de nossos olhos, e fazemos questão de ignorar. A vida é um desastre só. Tem quem concorde comigo.

Um escritor baiano em poucas linhas refletiu com acerto sobre a vida e o seu fim, num livro sobre um cara que não tinha medo de nada, mas que tinha medo da morte. O escritor: João Ubaldo Ribeiro. O livro: Sargento Getúlio. Vou reproduzir o trecho, que já está na minha pequena lista de grandes citações:

“ Por isso que é melhor morrer, porque não tem sonhos, quando a gente solta a alma e tudo finda. Porque a vida é comprida demais e tem desastres. Quem aguenta a velhice que vai chegando, os espotismos e as ordens falsas, a dor de corno, as demoras em tudo, as coisas que não se entende e a ingratidão quando a gente não merece, se a gente mesmo pode se despachar, até com uma faca? Que é que aguenta esse peso, nessa vida que só dá suor e briga? Que aguenta é quem tem medo da morte, porque de lá nenhum viajante voltou e isso é que enfraquece a vontade de morrer. E aí a gente vai suportando as coisas ruins, só para não experimentar outras, que a gente não conhece ainda. E é pensando que a gente fica frouxo e a vontade  de brigar se amarela quando se assunta nisso, e o que a gente resolve fazer, quando a gente se lembra disso se desvia e acaba não se fazendo nada”

A literatura é, quase sempre, a melhor forma de expressar uma ideia. E dessa vez ela foi certeira. Por que não damos fim a essa vida patética? Por medo, apesar de sabermos que o melhor é morrer. Sabemos disso. Temos plena consciência de que a vida não tem um sentido maior, de que não é imbuída de uma missão espiritual, de que não estamos aqui de passagem, essa é a nossa única “passada” por aqui, não tem outra. Mas insistimos em viver, porque o medo é maior do que a coragem. Nós vamos “suportando as coisas ruins, só para não experimentar outras” porque nossa covardia é maior do que nós, do que nossa vontade de morrer – uma vontade real e constante, por mais que a neguemos e a reprimamos. E vamos seguindo, rumando para essa loucura desastrosa que é viver. O pior: viver essa vida desastrosa, com tantas e tantas decepções, com meias-alegrias, muitas falsas, com pessoas que não se importam com outro umbigo que não seja o seu. Somos covardes demais em insistir nesse absurdo. Covarde demais para optar pela escolha mais sensata: morrer.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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6 respostas a Melhor é morrer

  1. said diz:

    É imprecionante como é a vida diferente de vocês gostava de vive!!! Depois descobri que a vida em que vivemos não tem semtido e que os eroes que vonhecemos não mais eziste poquer o mundo não pemite oque é serto mais sim aquilo que prevalecer sobre os mais ricos e privilegiados . Milha conclusão é esse mundo não me vem o sentido da vida !!!

  2. Monstro diz:

    Odeio essa vida também, é tudo uma merda mesmo. Sou mais um covarde mediocre que vivo essa vidinha sem sentido.

  3. Romario Silva da Silva diz:

    Morte, meu ultimo desejo, amo-te por isso. Pode ser “melhor morrer”, o problema que sou um covarde, temente a realização plena de minha mediocre e infundada existencia. Quando tiver coragem de morrer como Socrates te convido para o ritual funestre.

  4. Celso Moraes diz:

    A ideia do suicídio já me passou pela cabeça centenas de vezes, mas sempre acompanhada da certeza de que não tenho a coragem suficiente (ou a covardia necessária) para apelar à “Solução Final”. Intrigante! O instinto de sobrevivência é um mecanismo interessante.

    • Souza diz:

      Também vivo esse drama, as vezes fico me perguntando o porque disso.
      A dor e o sofrimento são inevitáveis, mas o ser humano faz questão de acrecentar.

  5. Genny diz:

    Gostei, especialmente do final.

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