José e Pilar


José Saramago é considerado um dos maiores nomes da literatura lusitana. Autor de livros como O Ano de Morte de Ricardo Reis, Memorial do Convento, Ensaio Sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago consagrou-se como o único escritor de língua portuguesa a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1998. Isso o projetou ao status de celebridade no mundo literário e no cenário internacional. Tímido, sagaz, inteligente muito acima da média, Saramago conheceu Pilar Del Rio e com ela se uniu. O documentário de Miguel Gonçalves Mendes é um mergulho, intimista e delicado, na frenética rotina desse casal admirável.

José e Pilar não é um documentário sobre José Saramago, mas sobre o cotidiano do casal, sua rotina exaustiva, e de como Pilar Del Rio influenciou na carreira de seu marido. O tom intimista do documentário faz-nos, algumas vezes, esquecer que existe uma câmera registrando aqueles momentos tão domésticos e pessoais. O trabalho de Mendes é cansativo: o casal foi sendo filmado por um pouco mais de 3 anos, resultando em mais de 200 horas de filmagens. Por todo esse tempo convivendo com os protagonistas do filme, o envolvimento foi inevitável o que fez com que a montagem soasse meio estranha. Mas de qualquer forma o documentário é lindo – falo assim mesmo, com tom de fã bobo -, pois exibe como o casal era sintonizado e como eles tinham um respeito mútuo, mesmo com as discussões, como numa das cenas onde Pilar e Saramago discutem sobre Hillary Clinton e Barack Obama. O documentário tem tiradas ótimas de Saramago, onde o humor do escrevente lusitano é exposto, como no momento em que se comemora seu aniversário e lhe pedem para que fale em castelhano pois ele estava falando no português e ele solta: “As vezes me acontece” ou ainda quando perguntado por uma jornalista “Qual é a tarefa do escritor?” e ele responde com ar de debochado: “Escrever”. Além do humor do Saramago, o documentário serve também para quebrar a imagem de arrogante que foi construída em torno do escritor lusitano: muitas cenas revelam um Saramago humilde, brincalhão, bobo até e tímido, mas sempre brincalhão, por exemplo, quando dá uma tapinha no bumbum de Pilar quando ela passa na sua frente. O documentário também mostra a cansativa rotina do casal, viajando o mundo, nunca descansando, atendendo a todos dentro do possível. Mostra ainda o complicado momento onde o corpo de Saramago não suporta a agenda apertada e fica adoentado; mostra a admiração que o escritor ganhou pelo mundo, sendo sempre ovacionado e um dos momentos mais emocionantes do filme é quando Saramago está vendo a exibição da adaptação cinematográfica feita pelo cineasta brasileiro Fernando Meireles do livro Ensaio Sobre a Cegueira e chora dizendo “Está do jeito que escrevi”. Para eu que sou leitor devotado de Saramago foi-me impossível suportar a grossa lágrima no canto do olho. Um dos grandes pontos altos do documentário é poder acompanhar o processo de criação do livro A Viagem do Elefante, de como de apenas uma ideia brotou um grande romance. E depois de escrito esse livro o que nos deixa mais felizes é, já no final do documentário, quando o Saramago diz: vou escrever mais um livro!

O documentário tem esse ar caseiro, mostrando o lado mais íntimo desse cativante casal. José e Pilar é um documentário para os que amam Saramago e querem conhecer a mulher da sua vida.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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