Clube da Luta


Esse é um dos filmes que sem dúvida está na lista de prediletos da maioria dos cinéfilos. Um filme para ver antes de morrer. Feito por um dos mais importantes nomes do cinema moderno, a película Clube da Luta (1999) é uma das produções mais fantásticas que o cinema atual já criou. David Fincher (O Curioso Caso de Benjamim Button, Seven) fez um filme para perturbar, deixar o espectador desorientado, chocado, irritado, perdido. Um filme que pode ser visto sob diversas óticas: como um tratado da violência como método de libertação ideológica até discurso sobre o niilismo nietzschiano. Um filme rico em possibilidades interpretativas.

Baseado no, igualmente genial, livro de Chuck Palahniuk, Clube da Luta é um filme narrado em primeira pessoa que conta a história de um investigador de seguros (interpretado magistralmente por Edward Norton) que sofre de insônia e para tentar saná-la frequenta grupos de auto-ajuda mesmo sem precisar da ajuda que os grupos oferecem, quando então conhece a estranha figura de Marla Singer (Helena Bonham Carter) que desbaratina todo seu teatro e o coloca na busca de outra atividade consoladora. Jack, o investigador, é um cara pacato e um consumista doentio, que vive para ter mais na esperança de ser mais. Não consegue. É então que ele conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um cara cheio de idéias iconoclastas, anti-consumista e anticapitalistas, meio niilista, desapegado da vida, cheio de simpatia, numa de suas inúmeras viagens de avião. Os dois se tornam amigos, depois que o apartamento de Jack explode e ele vai para a casa de Tyler, um lugar abandonado, preste a desmoronar. A amizade entre Tyler e Jack aumenta a medida que as idéias de Tyler vão se misturando com as de Jack. Numa das cenas, depois de terem saído de um bar, Tyler pede para Jack que ele o esmurre. Estranhando o pedido, Jack  não sabe o que fazer, mas Tyler insiste até que Jack e lhe dá um soco meio desajeitado. Essa foi a semente para o Clube da Luta, um lugar onde um grupo de homens brigavam entre si numa forma de aliviarem-se de seus problemas e estresses cotidianos. O grupo começou a crescer e fugir do controle de quem o tinha criado. Do clube surgiu uma organização terrorista grande e toda articulada que destruía prédios comerciais, depredava lojas e monumentos públicos, fazendo tudo sob a guia de Tyler, que era a mente que maquinava todas as ações, e que preparava seu exército para uma grande empreitada desestruturadora: a destruição de um conglomerado de prédios de empresas de cartão de crédito e o do sistema de informações.

Clube da Luta possui inúmeras camadas que podem trazer a tona uma gama de interpretações. O roteiro de Jim Uhls é de um esmero que chega as raias da perfeição. Com uma linguagem cheia de pistas e labirintos, onde o desfecho da trama já vem sendo contado através de dicas sugestivas, em diálogos inteligentes que revelam uma preocupação com os detalhes narrativos e psicológicos da história de Palahniuk. A película se inicia com uma forte carga de informações, que atordoam o espectador que está procurando um filme de entretenimento barato bem aos moldes do cinema comercial (um dos motivos que à época de seu lançamento o filme fez pouco sucesso de bilheteria). A película de Fincher não deve ser vista somente uma vez, pois a carga de pequenas informações que o filme contém costuma passar despercebidas na primeira sessão. E a cada vez que se assiste, o espectador está diante de um novo filme, com outras percepções, com outras referências. O espectador vai percebendo como Fincher e Uhls foram harmoniosos em suas respectivas genialidades: eles não dão um passoem falso. Cada pequeno detalhe numa cena revela uma chave interpretativa para uma cena que virá muito depois, como quando Jack está no aeroporto e Tyler aparece exatamente na hora em que o narrador fala “Se eu pudesse acordar em um lugar e uma hora diferente, poderia ser uma pessoa diferente?”, ou quando a imagem de Tyler aparece muito rapidamente em algumas cenas, como no consultório médico e nas sessões de grupo; ainda nas conversas entre Marla e Jack onde ela se mostra confusa com o comportamento de Jack, ou ainda na insistência de Tyler e Jack nunca se referirem um a outro na terceira pessoa. Essas são espécie de dicas que vão revelando aos poucos a surpresa do final, que é uma das mais surpreendentes destes pouco mais de cem anos de Sétima Arte.

O filme pode ser visto como um tratado da violência, pois essa é a forma que os personagens encontram para se livrarem de suas angústias, seja Jack de sua insônia e obsessão pelo consumo, seja Marla por preferir se torturar num relacionamento que a destrói numa tentativa conseguir um pouco de felicidade (ao seu modo) ou ainda nos correligionários da organização terrorista de Jack, que preferem a dor, apesar de que essa é uma das formas mais superficiais de ver a obra; o enredo também pode ser visto como alusão ao niilismo destrutivo, onde a frase de Tyler “somos merdas ambulantes” exemplifica bem essa ideia, de que não somos seres únicos e especiais, que não somos a obra mais bela da natureza, que não passamos de mero estrume, de que não somos fortes para superar nossas dificuldades, de que não temos ninguém para nos auxiliar, não temos Deus e se temos algum deus, ele nos odeia; o filme também é uma crítica ao homem moderno, um ser consumista, compulsivo, que sente a extrema necessidade de ter algo que não lhe acrescentará em nada em termos de potencialização de sua existência, Tyler mais uma vez é a voz que se levanta para criticar esse modelo de vida, onde se tem que usar o que é “imposto”, que só é uma pessoa realizada quem tem o que é tendência, o que está na moda, onde só se é o que se tem, ecoando o pensamento de Herbert Marcuse, pensador da Escola de Frankfurt; Fincher e Uhls também apontam suas armas para a passividade moderna, que aceita tudo resignadamente, não se mexe, não se revolta, não quer lutar como no trecho da película onde Tyler dá uma lição de casa para os membros do Clube da Luta: puxar uma briga com qualquer pessoa sem motivo aparente; as pessoas simplesmente evitam se envolver, brigar, entrarem conflito. Ohomem moderno engole as informações que já vêm mastigadas, preferem que outros formulem pensamentos a pensar. Outro ponto relevante de análise para a obra de Fincher é o fato de querermos ser um tipo de pessoa, mas por restrições ético-morais não vamos em frente, nesse momento aflora o pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche na personagem Tyler Durden que é um amoral ou um moralista às avessas, que não tem as amarras de uma moral restritiva, bem aos moldes do pensador alemão.

Assim como a mente de Jack, o filme de Fincher é de nos deixar loucos, sem direção alguma; uma obra que dialoga conosco (vide cenas em que as personagens olham diretamente para a câmera), que tem uma grande mensagem a nos dizer, que quer nos provocar, que quer nos tirar da zona de conforto dos pensamentos prontos e nos fazer ver que podemos ir além de onde estamos, mas que não precisamos de nenhuma ilusão metafísica para fazer isso. Uma verdadeira proeza.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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Uma resposta a Clube da Luta

  1. Maria Rita diz:

    Um filme para ver várias vezes antes de morrer.

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