A Insuportável Leveza do Ser


Às vezes me olho e me julgo um ranzinza que não vê muita graça nessa vida. Em outros momentos sinto a plena certeza de ter nascido no lugar errado, ou melhor, no país errado e, pra completar, na década errada, 90. Mas sigo com uma ponta esperança burra de que as coisas podem melhorar, podem ter um avanço, que o humano pode querer mudar. Uma esperança idiota essa minha.

Fiquei pensando como começar esse texto e nada bom me veio. Então era melhor um começo ruim do que nenhum – não me venha reclamar do parágrafo acima, pois hoje estou com a paciência curta.

Como as pessoas e as coisas estão indo de mal a pior. A desgraça se consolida e sedimenta-se de forma cada vez mais assustadora. O pior: culpa CONSCIENTE nossa. Temos todas as armas para solucionar isso, porém nos resignamos ao papel de meros espectadores e não de participantes dos acontecimentos. Somos de uma passividade insuportável, preferimos reclamar baixo que é pra não incomodar o vizinho, não compramos briga, não defendemos a igualdade, não tomamos decisão nenhuma. Deixe que os outros tomem! Preferimos só aceitar ordens. Como tem se tornado asqueroso esse animal sinistro chamado humano. Cada vez mais no fundo do poço, cavando sempre mais um pouco com um sorriso no rosto. Como somos egoístas. Que o filho do vizinho morra de fome, que não vou dividir minha comida com ele. A náusea que sinto cada vez que vejo alguém negar ajuda ao outro é gigante. Como somos preguiçosos. Não queremos mais dificuldade alguma. Pega o carro que vamos aqui à esquina comprar o pão. Preferimos o caminho mais fácil, não pensar; preferimos aquilo que não faça brotar alguma gota de suor do rosto. Preferimos a leveza da passividade, ao peso de ser atuante, de ter decisões que se baseiem em nossas próprias idéias; preferimos a leveza do “faça por mim” do que o  peso do “deixa que faço eu”; é mais leve não se comprometer com alguma causa (que não seja nossa) do que sustentar o peso da responsabilidade. Estamos caminhando para onde? Digo para onde estamos caminhando.

Seguindo para um mundo onde poucos terão tudo, onde ninguém ouvirá uma voz opositora, pois a voz que se opor logo será calada com milhões de “shiiiis”; caminhamos para um mundo onde as pessoas flutuarão com sua leveza insuportável, onde todos irão se esforçar para agradar a todos, um mundo onde a palavra mais importante do dicionário será “eu”, onde não existirá mais responsabilidade, e os que se esforçarem em ser, logo serão repudiados por serem retrógrados e chatos; viveremos num mundo onde as loucuras serão consideradas normais, onde pretensos senhores da verdade irão vestir-se de suas hipócritas vestes de boas pessoas e pregarão absurdos e todos ouvirão calados, e os que se oporem serão rechaçados como hereges; o mundo que nos espera é mundo destruído, tanto no seu físico quanto no seu intelecto. Mas esperem… já não estamos vivendo nesse mundo?

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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4 respostas a A Insuportável Leveza do Ser

  1. É bem isso aí, me revolto com a hipocrisia, vivemos já neste mundo sim, e é tão difícil, que Deus nos dê força para continuarmos nele e que possamos com o nosso pouco fazer a diferença, já que sabemos uma parcela daquilo que está errado, então, vamos fazer a nossa parte, sinto-me muito amargurada com o egoísmo desse mundo, com a religião, com a ambição das pessoas, é muito difícil, compreendo você perfeitamente porque me sinto assim, abraços.

  2. Katia Flávia diz:

    E me diga quando foi diferente? É, você está demasiado amargurado. Magoado até. Revoltado talvez. Mas nada disso muda nada. Você se tornou aquilo que rejeita. Pois não rejeitamos nada, senão aquilo que nos amedronta: a nossa verdadeira face.
    Mas nem tudo está perdido. Pode-se mudar agora. Neste exato momento, neste instante, num respiro pluft tudo mudou. Não mudou? Mude. Você sabe.

  3. Helena P. diz:

    Gostei muito do seu texto, Ricardo. Abs
    Helena P.

  4. “onde pretensos senhores da verdade irão vestir-se de suas hipócritas vestes de boas pessoas e pregarão absurdos e todos ouvirão calados, e os que se oporem serão rechaçados como hereges”

    Já vivemos neste mundo, amigo!

    Como sair dele é o problema que se coloca.

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