A Praga das Quotes


O número de pessoas que leem está aumentando cada vez mais, enquanto os  de leitores diminuem expressivamente. Exatamente isso, amigo que me lê (seria você um leitor ou alguém que lê?), existem mais pessoas que lêem do que leitores. Pode parecer, mas esses dois grupos não são iguais. Diria que estão longe de ser. Os que lêem são aqueles que consomem de tudo, sem o mínimo critério. Alguns até se acham muito inteligentes porque lêem com assiduidade – todos os livros das coleções de revistaria do tipo Sabrina, Julia, Bianca. Que se deixe claro: nem todo mundo que lê é inteligente, mas todo mundo que é inteligente lê. Do outro lado existem aqueles que são os leitores que tem um gosto mais apurado – não falei melhor -, que só se debruçam em algum livro que tenha um valor literário ou histórico relevante, que sabem escolher bem suas leituras e tem um destaque intelectual acima da média. Graças a proliferação do primeiro grupo, criaram-se hábitos terríveis no que diz respeito aos livros e isso ficou muito mais exagerado com o advento das redes sociais. As redes sociais criaram um grupo preguiçoso de pessoas que gostam de se sentir em dias com o desenvolvimento de seu intelecto que, no entanto, não apreciam o esforço para efetuarem essa tarefa: os divulgadores de quotes, de frases. Esse tipo de pessoa faz parte do primeiro grupo que citei algumas linhas acima. Muitos sequer lêem os autores que citam, outros citam frases de um dando crédito a outro. Uma peste isso. Uma praga que destrói com os bons autores e dá fama para os péssimos.

As quotes são frases ou pensamentos muitas vezes tirados da obra de alguém ou que foram ditas por alguém considerado importante. Isso se espalhou de forma vertiginosa com internet, fazendo com que uma legião de pessoas espalhasse as frases e as saturem-se de tal forma que alguns bons autores foram prejudicados por causa disso. As quotes como principal meio de se conhecer um autor, é fruto do hábito preguiçoso de não gostar de ler, de preferir a velocidade de uma frase à demora de um livro, consequência da frenética velocidade das informações que circulam na internet. Talvez os dois maiores exemplos dessa praga são Clarice Lispector e Caio Fernando de Abreu, dois bons autores, ela melhor do que ele, que sofrem uma viralização cruel. São fãs, na sua maioria idiotas mesmo, que – boa parte deles – nunca leram um livro sequer  e que espalham em seus perfis nas redes sociais qualquer frase que leve o nome dos autores como se tivessem criado aquela frase. Algumas frases são apócrifas, nunca tendo sido escrita ou dita por seus supostos autores, mas que, no entanto fazem sucesso pelo mundo cibernético. Essa mania causa um choque péssimo na figura dos escritores que são vítimas desses atentados. Exemplificando com a Clarice Lispector: ela é uma das mais bem conceituadas escritoras brasileiras da contemporaneidade, com uma narrativa que mergulha no subjetivo e faz análises mágicas dos sentimentos humanos em acontecimentos ordinários; contudo, graças a sede burra dos “quoteiros”, falar hoje de Clarice Lispector remete a fãs babacas que a citam fora do contexto, que a usam para tentar expressar sentimentos superficiais ou, o que é muito pior, Clarice – suas frases ao menos – se tornou clichê, porta-voz da baboseira juvenil. Perceberam como essa mania é destrutiva? O pior disso tudo é que isso é o reflexo de um comportamento sem o mínimo de bom senso, é preguiça de pensar, é a falta de vontade ler – prefere limitar-se a uma meia dúzia de palavras, do que ler um livro todo -, isso se agrava cada vez mais. Porém, não quero parecer alarmado, pois sei que a tendência é ficar cada vez pior, porque o ser humano (se for brasileiro então, nem me fale) gosta de bancar o ignorante.

A minha preocupação é só uma como leitor: é ter de ser classificado como partícipe do mesmo grupo de jovens babacas, quando eu disser que gosto de Clarice Lispector. Isso é cada vez mais presente. Os autores que possuem talento e qualidade literária  estão com os dias contados enquanto essa praga dos quotes durar. É o fim dos tempos amigos… o fim dos tempos.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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8 respostas a A Praga das Quotes

  1. Maurice Duronge diz:

    A “citação” em rede social não é ato reprovável ou desprezível quando efetivamente trata-se de excerto ou referência a uma obra e seu autor. Se o fato essencial consiste em afinidade de pensamento entre o autor e sua obra citados e o citador, a ninguém se fere quanto a direitos e ideologias, a propaganda torna a obra e o autor conhecidos em um um grande convite à reflexão e à leitura. Destarte todos os vieses considerados, nem sempre trata-se de má fé, má intenção ou o capricho simples de promover-se às custas de um trabalho alheio.
    Mentes brilhantes, grandes pensadores, pseudo intelectualidade, insensatez e hipocrisia, assim como mentiras e verdades, há de todas formas em Cultura. Sabedoria é outra coisa, uma terceira via entre a inteligência da razão e a inteligência da emoção.
    Sujeitos, objetos, significados e subjetividades, é disso que somos feitos e de que tratam as várias formas de expressão tanto em relação ao citado como em relação ao citador.
    Num país como o nosso tornar conhecido nomes de obras literárias ou não literárias e seus respectivos criadores é muito interessante, produtivo, independentemente das intelectualidades potenciais em questão.
    Sagacidade, perspicácia e refinamento intelectual são outros aspectos objetivos e subjetivos da análise.
    Informação contraditória ou equivocada, conturbada, inserida sem conexão ou fidelidade ao conteúdo global da obra considerada, em ato inclinado à reprováveis intenções, é desserviço, desleal, prejudicial.

  2. Leonis H. Walker diz:

    Isso é realmente verdade. Os quotes muitas vezes levam o nome de um autor que na verdade nunca disse aquilo. Ou postam frases modificando às vezes o que o autor disse, e a pessoa que posta não leu o livro, nem conhece o autor. É só pra depois dizerem que conhecem o autor e fingir que leem e serem “famosos” na internet. Algo que só me faz sentir pena dessa pessoa, que não vai chegar a lugar nenhum. Lembrando que eu posto quotes em meu blog, mas para indicar algum autor do qual eu gosto das obras.

  3. Genny diz:

    Direi apenas isso: Quem faz um citação sem saber nada do autor é um idiota pseudo-intelectual, pronto, nada mais precisa ser dito. Enfim, sobre os seres que fazem essas coisas imbecis, deles só nos resta lamentar, primeiro por essa profunda ignorância, pode se fazer isso em silêncio ou ajudá-lo a perceber do que realmente é capaz o cérebro humano.
    No mais, se você é do tipo que apenas reclama da burrice alheia, apenas evidenciando a fealdade dos obtusos, sugiro que pense também na sua própria inferioridade, enquanto individuo humano, demasiado humano.
    Boa noite!

  4. Lara Utzig diz:

    Citar frases célebres para ganhar “curtir” e RT: até quando?
    Para eu citar algum autor, pode ter certeza que eu conheço no mínimo 2 obras dele.
    Enfim… É a orkutização de Clarice e CFA, como eu disse. Infelizmente. Uma lástima.

  5. Katia Flávia diz:

    “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever” (José Saramago)

    Talvez você conheça Saramago, e sabe que ele referia-se a seu avô.

    • carmem diz:

      O que não entendo nas pessoas é quando elas querem generalizar por coisinhas banais…uma citação não põe nada a perder só porque foi usada por uma pessoa que nunca leu sobre o dono da frase…Isso é puramente uma espécie de querer demonstrar que são tão ou mais sábios ou seja querer promover se intelectual…! penso…

      • Leonis H. Walker diz:

        Carmem, não somente por isso. Os quotes implicaram na preguiça de ler, criando na mentalidade das pessoas que por ler quotes, ela seria um grande leitor ou mesmo conhecesse o autor, promovendo uma certa preguiça, ou falta de desejo em procurar saber sobre o autor

  6. Nossa, pior que eu concordo contigo, olha, fico até chateado quando percebo citações de grandes clássicos importantes saindo de pessoas que sinceramente, nem sabem sobre o que se trata o livro. Gostei da visão afiada sobre assunto, já era hora de começar uma separação entre joio e trigo.

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