O Fabuloso Cidadão Kane


Um jovem rapaz de apenas 25 anos estreia como diretor com um filme que até hoje é considerado o maior filme já feito em todos os tempos na história do cinema. Um filme que ultrapassou o tempo e que ainda hoje influencia cineastas em todo mundo com suas técnicas revolucionárias na arte cinematográfica. O rapaz: Orson Welles. O Filme (assim mesmo com F maiúsculo): Cidadão Kane.

Welles não possui outro rótulo que possa designá-lo com mais fidelidade que não seja o de gênio. Trabalhando como diretor de teatro e logo em seguida de programas de rádio, Welles já carregava o sinal da genialidade com pouca idade. O seu filme de estreia demonstra isso. Se no céu da cinefilia onde habitam apenas os filmes que podem ser denominados de geniais houvesse uma hierarquia, Cidadão Kane habitaria, sem sombra de dúvida alguma, o posto de Deus.

O enredo do filme consiste, nas palavras do próprio Orson Welles, na “investigação feita por um jornalista para descobrir o significado das últimas palavras de Kane [que é um magnata do ramo da impressa, cuja inspiração parece ter sido no rico proprietário de jornais William Randolph Hearst]. Na visão do repórter, as últimas palavras de um homem devem explicar sua vida. O que talvez seja verdade. Ele nunca chega a descobrir o que Kane quis dizer com a palavra ‘Rosebud’, mas o público descobre. Sua investigação leva-o a se aproximar de cinco pessoas que conheceram bem Kane, que o amaram ou o detestaram. Elas lhe contam histórias diferentes, cada uma de um ponto de vista parcial, de tal modo que a verdade sobre Kane só pode ser deduzida pela soma de tudo o que foi dito sobre ele, como aliás qualquer verdade sobre um indivíduo”.

Cidadão Kane é o tipo de obra que fica marcada para sempre na vida de quem a contempla. Apresentando técnicas inovadoras para a indústria cinematográfica da época (o filme foi lançado no ano de 1941 pela Warner), tais quais não-linearidade do discurso, o recurso do flashback para mostrar os diferentes pontos de vista sobre o mesmo objeto, a exploração da profundidade de campo, entre outras técnicas que configuraram uma verdadeira revolução na história do cinema. Construindo personagens com uma delimitação psicológica bem marcada, com caracterizações prodigiosas, uma fotografia (feita pelo também fabuloso Gregg Toland) que priorizava uma visão mais ampla das cenas, onde ocorriam ações simultâneas como na hora em que o futuro tutor de Kane, Thatcher, está dialogando com a mãe do rapaz enquanto o próprio Kane está a brincar lá fora o que dá para ver pela janela que ficou ao fundo entre Thatcher e a mãe da criança. Citizen Kane (seu título original) é inovador pela mistura de gêneros que transitam entre a comédia e ares de noir. O humor é uma marca da obra. Sendo pandego em vários momentos do filme, Welles é apurado na sua forma de humor, refinado na forma que encontra para fazer o público rir. Utilizando-se de diálogos geniais (o inventivo roteiro é assinado por Orson Welles e Herman J. Mankiewicz) onde toda a verve irônica do filme transmite-se, o diretor demonstra um controle rigoroso de sua arte.

Filme é um relato da solidão. A tumultuada e cheia vida de Kane, um ricaço que vive rodeado de pessoas e tem quase tudo o que quer, é uma grande metáfora do homem moderno que vive só mesmo entre tanta gente. A solidão que Welles desvenda é uma solidão que esforça-se em mostrar que tudo está bem, que há uma satisfação, quando não tem satisfação alguma e não, as coisas não estão bem. Mas a película não limita-se a isso. É também a busca da felicidade, é a busca de algo que falta, de algo que a materialidade, a riqueza parecem não trazer.

A obra de Welles é rica em interpretações por ser também rica na exploração de diversos pontos de vistas, onde o diretor tinha que adequar as cenas ao olhar de quem as estava contando. Com isso, o jovem Orson criou inúmeros modelos de narração onde a fala de quem conta se mescla a imagens da memória: o seu genial flashback.

Só que a genialidade de Welles não foi algo espontâneo, como se ele fizesse tudo aquilo do nada. Ele sabia o que estava fazendo. Preparou-se bem para a sua estreia. Visitando a cinemateca de Nova York com assiduidade, ele estudava a linguagem dos clássicos. E, um ano antes de começar a filmar seu filme, ele ia para os bastidores de algumas produções para ver as técnicas que eram usadas. Ele usou muito do que era feito na sua época, mas com sua personalidade ele criou o seu próprio jeito de fazer filmes, o que em outras palavras seriam: ele criou seu próprio estilo.

(Resenha publicada originalmente no blog do Coletivo Palafita na coluna Cinematura)

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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