O outro


O humano, este animal que difere-se dos demais por possuir a incrível capacidade de raciocinar; este ser dotado da razão, da capacidade de abstrair conceitos, de vagar pelo mundo das idéias, de construir intricados emaranhados lógicos, é também um ser carente do outro. Além da racionalidade, o humano tem como característica diferenciada dos demais animais essa necessidade de viverem grupo. Talvezargumente-se que os outros animais, os irracionais, convivam em grupos tal qual o humano. Este é um ponto que não deve ser ignorado. Contudo, existe uma crassa diferença entre o animal irracional e o humano, o racional: o desejo do outro.

Toda a história humana constrói-se sob este paradigma: o desejo de ter alguém para completar a existência. Ao contrário dos animais que não têm consciência do outro e que só convive (apesar deste termo ser demasiadamente humano) por virtude de um instinto primordial de sobrevivência, o ser humano tem em si o desejo agudo de ter o outro perto de si, como uma necessidade ontológica que transcende ao conceito de sobrevivência. Esse desejo revela-se em toda sua estrutura social: as cidades, a política e etc.; tudo criado para um coletivo, para que um grupo de indivíduos possa habitar harmoniosamente um com o outro.

Hoje o humano mostra de forma mais explícita sua necessidade enquanto ser social. Com o advento dos recursos midiáticos em massa, o humano, esse animal social, revela seu desejo do outro, de partilhar suas agruras existenciais, de compartilhar suas aflições e de participar de um coletivo.

O humano desde que começou a tomar consciência de sua existência percebeu a importância do outro, no princípio, como forma de prolongar sua vida, na época onde a civilização ainda não era constituída. Mas com o decorrer do tempo, o outro como ser formador de identidade social, adquiriu relevo dentro da história humana. Por isso hoje não há erro em afirmar que o humano, desde a tomada da consciência da sua racionalidade, é um ser social, um ser que precisa do outro para abrir as portas dos mistérios de sua própria existência.

Sem o outro a existência humana configura-se incompleta, perde sua essência como ser social. Sem o outro, o humano passar a estar no mesmo patamar dos animais que não possuem o domínio da razão; se torna um ser canhestro, errante. Não há existência humana sem o outro, pois o humano é um ser que precisa do outro, do coletivo, para afirmar-se como ser participante de uma realidade social.

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
Esta entrada foi publicada em Filosofando com as etiquetas , , . ligação permanente.

2 respostas a O outro

  1. Adriele S. diz:

    Muito interessante isso Ricardo. Como diria Lacan “O Eu é o Outro”. O ser humano necessita do outro para se afirmar, para saber quem e o que é. No entanto, a máxima “Amai ao próximo como a si mesmo” é uma grande cilada. Esse amor incondicional existe de fato? O que o outro irá representar pra mim? Esse outro possui algo dentro de si que é desconhecido, assim como o que existe dentro de mim e que eu nego, pois desconheço. Logo, o que sentirei pelo outro estará bem longe do amor. Tem um trecho do texto “Mal estar na civilização” que o Freud comenta um pouco sobre isso, até postei no meu fotolog. E antes, no próprio Irmãos Karamazóv o Dostoiévski discute um pouco sobre isso. http://www.fotolog.com.br/pulsoes/69311164

    É sempre bom passar por aqui. Abraços.

  2. Kdanada diz:

    Viva a sociedade! Como sempre um ótimo post. Bjos!

Faça seu comentário. Exponha sua opinião!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s