O Filme Perfeito: O Poderoso Chefão


Fazer cinema de qualidade é uma tarefa que poucos cineastas dão conta. Isso porque da década de 50 e 60 pra cá, os filmes têm que atender a uma grande exigência das produtoras: obter lucros. Estamos vivendo sob o regime de um sistema capitalista (não se engane com a linguagem esquerdista, estou longe de simpatizar com a esquerda). É mais do que natural que se exija um retorno em investimentos altos. Retornos que superem (e muito) o que foi investido. Só que esse tipo de exigência tem um efeito colateral grave: a produção massificada e industrial. Como um dos objetivos quando se investe na produção de um filme é lucrar, nada mais comum do que copiar um modelo, um modo de fazer que esteja rendendo. Esse é o tal do modelo industrial. Esse modelo é a maneira repetida e entediante de fazer filmes. Pega-se uma fórmula e a usa-se até a saturação. Quando isto acontecer é só procurar (ou inventar) outra fórmula que dê dinheiro, para então repetir todo o processo e fazer uma gama gigantesca de filmes lamentáveis (e isso não é um privilégio só da arte cinematográfica).

Por causa dessas fórmulas industrializadas de fazer filmes, a sétima arte perdeu muito (e ainda está perdendo). Os filmes ficam cada vez piores. Isso trouxe um novo e grande desafio para cineastas que prezam pelos filmes de qualidade: aliar a beleza da arte com o lucro financeiro. Poucos conseguiram essa proeza. Quando o filme era genial lucrava pouco (vide Cidadão Kane de Orson Welles) e quando obtinha um ótimo desempenho mercadológico o filme, perdoe-me a expressão delicado leitor, era uma merda. Como fazer com que a ambição artística e o bom desempenho de mercado andassem juntos? Existe alguma fórmula para isso? Francis Ford Coppola deu uma resposta genial (essencial e puramente genial) para essas indagações com o magistral filme O Poderoso Chefão.          

Me recordo de estar na mesa de um bar conversando com duas pessoas que aprendi a admirar falando sobre diversas coisas (conversas de bar) quando um dos meus dois interlocutores soltou essa: “Não existe filme perfeito, só O Poderoso Chefão”. Pronto aquilo me ficou na cabeça. Prosseguimos conversando e bebendo, mas a frase ficou martelando aqui. E eis que a frase não me saiu da cabeça (e nem vai sair) mais. Qualquer cinéfilo de respeito (mesmo lá com suas divergências tão habituais nesse meio de pessoas cultas e refinadas) vai concordar com meu amigo do bar. Cheguei em casa e a primeira coisa que fiz depois de descansar, foi colocar o filme de Coppola no aparelho de DVD e curtir de forma extasiada a película. Sim, O Poderoso Chefão é um filme perfeito.

Esse é o filme sobre o qual tudo já se escreveu, e poucas foram coisas negativas. O filme que entrou com folga dentro do seleto e divino grupo que compõe o céu da cinefilia. Um filme que não se esgota, que não perde sua força, que fica mais gostoso  cada vez que o vemos.

Novo ainda, com pouco tempo de cinema, Francis Ford Coppola ganha numa bandeja de ouro uma oportunidade imperdível: fazer a adaptação do romance de Mario Puzo para o cinema. A Paramount deu a Coppola à chance de ele mostrar do que era capaz. Com afinco, meticulosidade e na tensão de quem se esforça para agradar, Coppola dirige o filme que seria um dos mais marcantes de toda sua trajetória de diretor.

Narrando a saga de Vito Corleone, um italiano vivendo na América, o diretor desvenda o mundo da corrupção, do amor, e do esforço de manter a grande família Corleone unida. Marlon Brando no papel do padrinho (tradução literal de Godfather, o título original do filme em inglês), mostra porque é considerado, ainda hoje, um dos maiores atores do mundo. Incorporando toda serenidade do personagem, mostrando um rosto sempre calmo tranquilo, Brando firma-se com um dos personagens mais marcantes de toda a história do cinema. Coppola conseguiu vencer o desafio posto algumas linhas acima. Com um toque genuinamente autoral mas que não fugiu das exigência de um produto comercial, O Poderoso Chefão é um filme para a eternidade. Com uma história de fidelidade, traição, amor, devoção, guerras familiares, atuações fora de série (quem não se recorda do jeito sisudo de Al Pacino na pele de Michael Corleone, que trava uma luta com o destino que lhe quer pôr na sucessão da liderança da família Corleone, algo que nunca fez parte de seus planos?), com um diretor que pincela na trama traços autobiográficos, que trabalha com seus familiares (o pai de Coppola, Carmine Coppola, é quem faz a merveilleuse trilha sonora e sua filha, Sofia Coppola, parece no filme ainda bebê), com uma fotografia fenomenal onde predomina a claridade com a luz de cima para baixo, O Poderoso Chefão configura-se como um filme perfeito, sem falhas (e se você apontar qualquer uma é recalque).

Numa trilogia, a saga deu-se continuação em O Poderoso Chefão: parte 2 onde Michael Corleone tem que liderar todo o império familiar com pulsos de ferro e sua severidade fica mais exacerbada e no O Poderoso Chefão: parte 3 onde o herdeiro da liderança dos Corleone já está velho e cansado. Mas para mim primeiro é a obra-prima máxima, simplesmente perfeita.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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2 respostas a O Filme Perfeito: O Poderoso Chefão

  1. Renatha Soldan diz:

    O apogeu do cinema mundial. O Poderoso Chefão é uma obra prima, onde até a palavra “perfeita” parece pouco. Cenas violentas mas com uma história complexa e sensivel. Nunca soa repetido e arrastado mesmo que assista 10 vezes as 10 horas de sua trilogia.

  2. Nihil diz:

    Realmente, é um filme muito B… ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

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