O Prazer de Julgar


É um desafio: ficar um ano sem cometer nenhum erro. Desafio aceito. A pessoa então começa o ano com o pé direito e vai se dando bem em tudo o que está fazendo: está agradando a todos, é gentil, com todos, educada com todos, namora só com as melhores companhias, é o exemplo da família, passou numa universidade gringa, é a melhor funcionária, dá uma forcinha no asilo da cidade, alimenta os mendigos. A pessoa consegue fazer tudo certinho de acordo com os padrões que temos para designar uma coisa como certo. A tal pessoa de nosso exemplo é simplesmente fantástica: sem erros. O ano segue dessa forma. O desafio está quase cumprido, mas eis que a pessoa dá um deslize, sei lá o que: é flagrada fumando maconha, transa com alguém casado, sei lá. Ela por um momento foge do que se pode chamar de certo. Pronto, me diga com sinceridade, essa pessoa certinha aí vai ser lembrada pelo quê? Pelo seu quase um ano andando na linha ou pelo seu escorregão? A resposta você já tem.

Somos seres que julgam. Nem me venha com o papinho cristão de que não devemos julgar porque julgamos todo mundo ao nosso redor. Parece que faz parte de nossa hipócrita e moralista natureza de humanos. Mal conhecemos alguém e quando a vemos já formulamos uma série de “pré-conceitos” sobre o seu caráter, sua personalidade, seu comportamento, mesmo que erremos tudo depois de conhecê-la melhor. Somos juízes um dos outros.

O exemplo que citei no primeiro parágrafo é algo clássico. Você já deve ter estado nos dois lados: no lado que é julgado por apenas um deslize de sua vida, e do lado que aponta o dedo e diz “você não presta mesmo”. Mas por que o humano sente tanto prazer em apontar os erros dos outros? É amigos, sentimos um prazer mórbido quando vemos a outra pessoa desarmada diante de seu próprio erro, que fazemos questão de ficar enfatizando. Como se já não bastasse o peso da consciência que a pessoa já está carregando por causa de seus próprios julgamentos morais. Por que sentimos prazer nisso?

A resposta pra tudo isso é só uma: não queremos admitir nossos erros. Pois é, muitas vezes os erros que apontamos são os erros que cometemos (ou por acaso você não se lembra do jargão bíblico: “quem nunca pecou que atire a primeira pedra?”). Esse mecanismo nos ajuda a ficarmos com a consciência mais tranquila. Afinal, ficamos aliviados em saber que não somos os únicos que cometemos aqueles erros. Apontamos pra que não sejamos apontados. Desviamos o foco das acusações de nós mesmos para qualquer outra pessoa que cometa as mesmas falhas nossas. Ainda tem o fator hipocrisia: somos terrivelmente hipócritas. Ficamos ali fazendo, às escondidas, a mesmíssima coisa moralmente repulsiva que Beltrano, mas quando Beltrano é descoberto em seu “erro” lá estamos nós na primeira fila de acusadores.

Na vida as coisas funcionam assim: somos sempre lembrados por nossos erros, por nossas falhas. O que parece ter mais relevância são os nossos traços “defeituosos” de caráter do que nossas qualidades. Tudo isso para que outro ego se sinta menos culpado, menos intransigente. Não esqueça então que seus acusadores logo mais serão os acusados.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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Uma resposta a O Prazer de Julgar

  1. Claudia diz:

    … e, por isso, Cain matou Abel… ele não quis admitir que errou e preferiu culpar Abel de seu fracasso – mesmo que a aceitacão da oferenda de Abel nao tenha relacão nenhuma com a recusa da oferenda de Cain… mesmo assim, foi lá e matou o irmão… é mais fácil matar o irmão e encarar seu próprio erro!

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