Eu Me Amo


Falar de amor é complicado. Todo mundo tem sua opinião, seu ponto de vista sobre esse sentimento aí. E quando vê um ponto de vista que diverge do seu, fica todo eriçado. Quando lemos a palavra “Amor” vem-nos à mente, de forma quase involuntária, uma série de conceitos e definições que já nos estão impregnadas pela visão idealista deste sentimento (e devo dizer que esses conceitos quase sempre não correspondem à realidade, mas isso é para outra conversa), e não importa de que conceito sobre o amor você esteja munido, há uma espécie de consenso entre os conceitos de que o amor é um sentimento que está desvinculado do egoísmo, que é um sentimento que só se preocupa com o outro, que é abnegado e incondicional. Engano seu. O sentimento mais egoísta que criamos foi o amor. Nele não há preocupação alguma em satisfazer o outro. Queremos ter as nossas vontades feitas. Queremos que o outro se adapte a nós, que ele faça a nossa vontade. Machado de Assis ainda tem razão: “O amor é um egoísmo duplicado”. Esse sentimento não passa de uma manifestação radical (com ares de doçura) do egoísmo. Isso não deveria nos ser estranho. Faz parte de nossa natureza.

Por isso sou partidário da ideia de que não, ninguém ama ninguém. De que nunca uma pessoa ama a outra. Isso não existe, amigos. O amor não é uma projeção de nossos desejos em outra pessoa, não é ver a outra pessoa como a peça final de nosso quebra-cabeça. O amor é apenas nós nos vendo na outra pessoa. A outra pessoa nos serve de espelho para que possamos admirar nosso lindo reflexo. Não amamos a outra pessoa, amamos a nós mesmos. Já dizia Gabriel García Marquez: “Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo”. Não gostamos de ninguém pelo quê essa pessoa é em si, mas por quem somos quando estamos com ela. Melhor do que García Marquez foi Fernando Pessoa: “Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor.” O afeto por essa ideia que construímos sobre outra pessoa é o que teimamos em chamar de amor.

Só o nosso umbigo é que vale nessas coisas de amor. Somos uma espécie disfarçada de Narcisos. Mas não gostamos de revelar isso (e nem de quem ninguém revele). Mas já está dito, por isso da próxima vez que a pessoa “amada” perguntar para você: “Você me ama?”, não tenha medo de dizer: “Sim, eu me amo”.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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