O melhor caminho


No decorrer de séculos a humanidade sempre esteve em busca da verdade. Sempre possuiu, e ainda possui, o desejo de alcançar o conhecimento pelo caminho mais confiável, o caminho que ofereça mais segurança, o caminho mais verdadeiro. Dentro de sua história, a humanidade já deu o posto de verdadeiro, seguro e confiável, para vários caminhos. Um deles foi da explicação mítica ou mitológica, para responder a indagações que brotaram na mente diante da impossibilidade de compreender alguns acontecimentos que ocorriam consigo e ao seu redor.

Desde muito antes de a palavra escrita ser usada para expressar, registrar, explicar, ou mesmo antes dela existir, o humano tinha perguntas e dúvidas sobre si e o universo: de onde vim? Para onde vou? Qual é a razão da minha existência? Por que quando chove aparece o arco-íris? Quem provoca as tempestades? Como posso sentir o vento e não vê-lo? Muitas perguntas e nenhuma resposta. É característica do humano, na ausência de uma coisa, criá-la. E foi isso que a humanidade fez, nos primórdios de sua existência já como seres portadores da razão: criaram respostas para suas dúvidas. A resposta para suas dúvidas foi o divino, o sobre-humano.

Na figura de deuses, seres que possuíam força e inteligência além da imaginação (mas curiosamente tinham os sentimentos e características muito humanos), que as perguntas começaram a ter respostas. Diante de uma tempestade, já se sabia que era aquilo era a manifestação de algum deus que estava irritado com alguma desobediência humana. Se se conseguia uma boa colheita era porque os deuses estavam a favorecer seus servos.

Essa ideia de que haviam deuses que tinham criado tudo que se via na terra, e que interferiam na vida humana, com o decorrer do tempo corroborou-se. E isso ganhou mais força quando entrou na história do mito a figura do idoso sábio e portador de um privilégio dado a poucos: o sacerdote. O conceito de sacerdote que se tem hoje não é         tão divergente da época que se está a tratar aqui. O sacerdote seria alguém que possui o conhecimento avançado sobre os deuses e que pode se comunicar com eles de forma especial. Essa pessoa tem uma importante missão dentro da comunidade ou tribo da qual faz parte: ela é a intermediadora entre os deuses e os humanos. Logo a figura do sacerdote criou uma preponderância muito elevada dentro de sua comunidade. Como era alguém que tinha acesso a um conhecimento privilegiado e tinha sob suas ordens pessoas que acreditavam piamente nos deuses aos quais representava, tudo o que era dito por esse sacerdote tinha valor de verdade absoluta.

Essa explicação mitológica do mundo começou a entrar em crise, quando surgiu uma explicação mais detalhada e que possuía uma dimensão totalmente humana. Quando a ciência começa a dar seus primeiros passos, a visão mítica do mundo começa a entrar num colapso. Uma crise sem precedentes. Começa-se então a ver-se que a simplista (mesmo que criativa) explicação mitológica dos fenômenos naturais e das atitudes humanas, não é verdadeira (ou tão verdadeira assim). A ciência então começa a ter uma grande visibilidade, e os cientistas, as pessoas que praticavam ciência, começaram a “tomar” o lugar dos antigos sacerdotes. São os cientistas agora que tomam para si o título de “detentores da verdade”.

A ciência tem grandes avanços intelectuais em relação ao pensamento mitológico. Explica com muito mais precisão, e sem a interferência de nenhum agente divino. Mostra com provas e experimentações, o que antes era apenas explicado com especulações que eram tidas como verdadeiras e que, a ciência, mostrou que não eram. Ao invés de ser fruto da raiva de um deus, a tempestade era conseqüência de uma precipitação pluviométrica que é alimentada por fortes correntes de ar. Ao invés de ser a beatitude um deus em dar uma boa colheita, a ciência mostra que uma boa colheita se tem quando se planta a fruta ou legume num período climaticamente favorável, e se faz uma irrigação adequada para o que se está a plantar.

Mesmo com essa aparente superioridade da explicação científica em relação à explicação mitológica (ou religiosa, apesar da religião não ser o foco do que está a se tratar no presente texto), ainda existe na contemporaneidade um séquito gigantesco de pessoas que dão mais credibilidade a visão mítica do mundo, do que a visão científica. Elas alegam que a verdade só se alcança pelo divino. Afinal, qual é o melhor caminho para se alcançar a verdade?

Atualmente existe um acirrado debate se a ciência é de fato o único e mais confiável caminho para se alcançar a verdade. Se é através da ciência que a humanidade irá de fato obter o verdadeiro conhecimento do mundo e de seus acontecimentos. Não se deve esquecer que a própria ciência admite não ter a resposta para todas as perguntas que a humanidade ainda se faz.

Dentro do atual debate entre o pensamento mítico e o científico, ambos defendem para si o posto de “donos da verdade”. Há um crasso erro nisso. Primeiro pelo fato de nenhum dos dois lados conseguirem dizer a absoluta verdade. Segundo, porque deve-se considerar que talvez não haja somente um caminho para se apreender a verdade. Terceiro, porque a discussão dilui-se quando ficar-se em confrontos desse teor pelo simples fato de querer para si um posto que não existe. É uma ousadia dizer isso, mas não existe um detentor da verdade absoluta, porque se quer existe uma verdade absoluta. Deve-se levar em conta a gama de pessoas que alegam dizer a verdade. O problema, o real problema, não está no fato de encontrar uma verdade, mas em ver qual verdade tem validade dentro do campo pessoal. Não se deve excluir, de forma óbvia, que sim existem regras, padrões, para a boa convivência entre os humanos, e também que algumas perguntas já tem resposta humana, demasiadamente humana e que não precisa de nenhum recurso sobrenatural para explicá-las, respondê-las. E também de que existem perguntas sem respostas até hoje (e algumas talvez mantenham-se sem resposta até a extinção da humanidade), e que não se pode ignorar que algumas possíveis respostas para essas indagações ajudam um grande número de pessoas. Do que se deve fugir é do fundamentalismo, do pensamento de que só existe uma verdade e de que todos devem acreditar e obedecer a essa tal verdade. Não existe só um caminho para a verdade (mesmo que essa alegação pareça ser um caminho). Existem mais opções do que meramente o viés científico e mitológico para se alcançar a verdade. Existe o caminho da arte, da literatura, da música, que são formas de se apreender determinadas verdades sobre determinadas coisas da vida.

Deve haver respeito entre os que defendem seus pontos de vistas como perspectivas viáveis para se obter determinadas verdades. Toda espécie de imposição não é bem-vinda numa época em que se prega a paz e a confraternização. Cada um tem o direito de acreditar na sua verdade, mas sem ter que impô-la a ninguém. Todos possuem o direito de serem felizes nas suas verdades e nos seus credos, mas não devem tirar dos outros esse direito pelo simples fato deles não acreditarem nas mesmas verdades que as suas. O verdadeiro caminho mesmo é o do respeito.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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