O Último Beijo


Machado queria sair. Tinha que sair. Mesmo os grossos flocos de neve dizendo que aquela não era uma boa hora para sair do quente aconchego de casa. Mas ele queria dar uma caminhada, para ver se sua dor de cabeça aliviava. Carolina não queria que ele fosse dar esse “passeio” no dia em que eles comemoravam seus 15 anos de casamento.

* * *

Ela se lembrava nitidamente do dia em que eles se conheceram.

Machado tinha 27 anos. Um vagabundo. Vivia à custa dos pais. Mas era dono de um refinado intelecto. Escrevia contos para uma revista universitária, mesmo sem nunca ter sentado em um banco universitário. Ainda assim tinha conquistado o respeito dos universitários e professores que liam suas histórias. Entre os admiradores, estava Carolina, uma tímida garota de curtos e lisos cabelos, olhos expressivos, e carnudos lábios, sua característica física mais marcante a primeira vista.

Era a primeira vez que ela via Machado perambulando pelo campus. Não ficou impressionada. Ele era muito diferente do que imaginara. Os seus contos eram inadjetiváveis[1], tamanha era qualidade e engenhosidade de suas histórias. Mas o criador dessas histórias não causava nem um impacto com sua presença. Mas Carolina queria muito conheça o escritor por trás daqueles contos inadjetiváveis.

– Você é o Machado de Melo? – Carolina tentou timidamente puxar uma conversa com seu mais novo escritor favorito.

– Sou sim, por quê? – Machado estava tentando lembrar onde havia visto aquele lindo rosto.

Sem jeito Carolina disse:

– É que li seus contos na revista aqui da universidade e…

– Você gostou? – interrompeu Machado.

– Gostei, mas não compreendi muitas das suas histórias.

– Como não compreendeu? O que você não compreendeu?

– Seus textos são muitos obscuros, seus personagens parecem ter tantas camadas de personalidade que não consigo defini-los. Eles são decadentes e amorais.

Machado viu que Carolina carregava alguns livros e a revista para qual ele escrevia.

– Por que não vamos ao refeitório tomar algo, e eu lhe explico alguns de meus contos. Você tem algum ai com você?

O refeitório estava vazio (era horário de aula). Tomaram café, e começaram a conversar sobre escritores e livros. Machado falou sobre Kafka, Dostoievski, Faulkner, Hemingway, seus escritores prediletos. Carolina bombardeava Machado com várias perguntas acumuladas sobre os contos que ele escrevia. Ele respondia cautelosamente cada uma, sem explicar muito, sem esclarecer muito. Carolina estava gostando da prazerosa conversa que estava tendo com Machado. Ele não era engraçado, era divertido.  Ela estava se desinibindo. Machado estava revestido de orgulho por ter alguém que conhecia tanto e estava tão interessado nos seus contos.

A conversa entre os dois fluiu espontânea e gostosamente. Dois grandes conhecidos de algumas horas. Depois daquela conversa, foram necessárias apenas duas semanas para que eles começassem um namoro, e sete meses para Machado pedir Carolina em casamento, e um ano para eles morarem juntos.

* * *

 – Você sair agora, Machado?

 – Sim. – Machado foi seco na resposta.

 – E trocar esse calor aconchegante de nossa casa pelo frio lá fora?

 – Querida, você parece que não entende.

Machado, desde os tempos da revista universitária, nunca mais havia escrito um texto sequer. No entanto, com o passar dos anos, sua intelectualidade estava cada vez mais aguçada. Tinha muitos amigos escritores, que insistiam para que ele voltasse a escrever. Mas ele nunca aceitava os convites.

Carolina era criminalista. Mas ela se dedicava mais a Machado do que ao trabalho. Com raros desentendimentos, os 15 anos que ela passou ao lado de Machado tinham sido os melhores da sua vida. Cada ao lado de Machado sua vida se tornava cada vez mais cheia de clichês românticos. Ela era uma mulher feliz.

Mas naquela noite ela estava aborrecida com Machado. Por que ele queria dar um “passeio” no dia do aniversário de casamento? Havia algo errado. O que? Ele que sempre fora muito atencioso e romântico, características que acentuavam-se no mês de aniversario de casamento, estava frio e silencioso. Um pensamento quase natural veio a mente de Carolina: estaria ele me traindo? Na sua cabeça, na havia outra razão que justificasse essa mudança de comportamento em Machado.

– Tenho que ir? – disse Machado pondo um sobretudo preto.

 – Ir onde, Machado? E nosso jantar? – Carolina perguntou segurando as lágrimas.

Sem responder, ele dirigiu-se a porta, abriu-a e saiu. As lágrimas ficaram muito pesadas para os olhos de Carolina aguentarem, então caíram. Quem era aquele homem que estava indo dar um passeio? Por que estava fazendo aquilo? Carolina além de confusa estava ficando confusa.

Machado, sentindo o frio vento bater-lhe no rosto, caminhava olhando para o céu sem estrelas. No coração estava uma tristeza sem motivo. Ele também estava confuso.

Carolina não ia ficar ali esperando que Machado voltasse do seu “passeio”. Depois de pensar um pouco, resolveu sair e ir atrás de Machado para saber o porquê daquilo. Essa não era a única razão. Ela não queria perder Machado para ninguém. A ideia de traição ia ficando cada vez mais consistente na cabeça de Carolina.

Machado caminhava sem desnorteado. Depois de alguns minutos de caminhada, já bem longe de casa, ele parou. Levanta a cabeça e olha para o céu. A noite está linda. O céu está manchado de um azul quase preto. Uma sorrateira lágrima surge do olhar de Machado. Ele respira aliviado, como se de seu peito tivessem tirando um grande peso.

Teria ele coragem de me trair? Com quem ele me trairia? Carolina pensava, enquanto caminhava na direçãoem vira Machado seguir. Estava fora de si. Seu coração batia forte. Não gostava da torturante ideia de Machado estar lhe traindo. Para ela a traição era o único pecado. Os outros eram apenas derivados desse. Quando mentimos, traímos a verdade; quando matamos, traímos a vida; quando roubamos, traímos a honestidade. Por pensar dessa forma, Carolina se encolerizava apenas com a pálida ideia da traição de Machado.

Machado chega a uma praça e senta em um banco velho. Sua respiração está ofegante. Ele observa uma jovem que vem longe em sua direção. É ela, pensa.

Carolina vê Machado. Ele está só. Ela alivia-se. Ele está sentado em um banco de praça. Ele sabia que eu viria atrás dele! Deve estar preparando alguma surpresa. Carolina se sentia uma boba por ter desconfiado de seu marido. Então ela vê uma segunda pessoa naquele lugar. Surpreende-se. Vê uma jovem se aproximar de Machado. Não Machado! Não! Carolina deixa frias lágrimas descerem pelo seu rosto. Ela fica parada. Resolve ficar atrás de uma cabine telefônica que havia ali perto. Queria ver o que aconteceria.

A desconhecida é muito bela, mas sua beleza é ofuscada pelos seus péssimos e rotos trajes, seu odor forte. Ela chega perto de Machado, que se levanta como se já a conhecesse.

– Quero dinheiro – a estranha fala sem olhar nos olhos de Machado.

– Não tenho. – friamente diz Machado olhando-a fixamente.

– Mentira! Quero dinheiro! – a jovem diz num começo de grito.

– Disse que não tenho. – Machado diz mantendo o mesmo tom sóbrio e austero.

Eles continuam dialogando.

Ele não pode fazer isso comigo! E ainda com uma menina! A agonia de Carolina só aumenta em ver que Machado continua conversando com a jovem desconhecida de loiros cabelos. Machado estava traindo-a no dia em que completavam 15 anos de casamento. Mas isso não era de seu feitio. Carolina não podia confirmar essa sua desconfiança, pois Machado nem havia tocado na garota. Mas, para ela, não tinha como ser outra coisa. Por que ele sairia de sua casa nesse dia para se encontrar com uma garota numa praça deserta?

A jovem estava com os olhos avermelhados, com o cabelo desgrenhado, com a roupa suja e rasgada. Ainda assim ela exalava certa beleza. Os seus olhos eram  melancólicos, seus lábios, densos. Ela era linda. Naquele momento, em que estava na frente de Machado, tudo dentro dela explodia. Uma raiva, um ódio sem razão a torturava. Queria dinheiro. Seu vicio, forçava o corpo fazer o que a consciência não aprovava. Ela queria dinheiro e faria tudo para tê-lo.

– Me dê a porra do dinheiro! – ela gritou

– Já disse que não tenho – Machado continuava calmo.

Então a jovem percebeu o brilho do rolex de ouro maciço que estava no punho esquerdo de Machado. Pensou em algo.

– Você não me deixa escolha – ela falou já mais baixo.

– Sempre se tem escolha. Talvez você não esteja vendo agora. – filosofou Machado.

Então a jovem pôs em prática o seu pensamento. Era o dinheiro que importava. Levantou sua surrada blusa e tirou uma faca de cozinha enferrujada da cintura. Machado viu a faca, mas não se perturbou. Correr não seria a melhor opção. Sua idade não deixaria ele ser tão rápido quanto ela. A melhor escolha era negociar. A jovem se aproximou e sussurrou no ouvido de Machado:

– Me dê o relógio. – falou apoiando a faca no peito de Machado.

Calmo, ele tira o relógio e entrega a ela.

A jovem já estava há alguns passos de distância de Machado, quando então pensa algo. Se ele me deu o relógio é porque vai chamar a polícia para me pegar. Mas não eu. Rapidamente ela volta, e num gesto preciso, ela apunhala o peito de Machado, que se desequilibra ao sentir o objeto dentro do seu corpo. No seu olhar não há dor, medo, só uma distância serena. A jovem enterra mais duas vezes a faca no peito dele. E na terceira vez, ela deixa a enferrujada faca encravada, fixa no peito de Machado, que se estatela no chão.

Carolina fica extática com o que vê. A jovem corre tresloucadamente. Vendo tudo na sua visão se apagar, Carolina corre na direção de seu marido. Quando se aproxima dele, vê a aterradora imagem de Machado todo ensangüentado, deitado numa poça de sangue, com uma faca em riste no peito. Ela coloca a cabeça de Machado no seu colo. Grita por ajuda. No meio de seus gritos, ela ouve um sussurro lhe falando algo:

– Estou morrendo.

– Não fale assim. Não diga isso.  – respondeu Carolina em meio às lágrimas.

Machado olha nos olhos de Carolina com uma profundidade que não consigo descrever aqui. Forçosamente ele diz algo:

– Carolina, sempre te amei, com todas as forças desse meu frágil coração. Nem na morte se foge aos clichês – nesse momento, ele esboçou um sorriso fraco – Te amo.

Machado tosse e um filete de sangue sai do canto de sua boca.

Carolina soluça. Seu rosto está encharcado de lágrimas. Machado continua falando.

– Não chore flor – ele sempre a chamava assim quando estava com medo – As lágrimas não mudam nada. Me beije. Quero ir daqui com o gosto do teu beijo.

Com o coração sem controle, Carolina inclina-se para beijar seu único amor. Ela se recorda do primeiro beijo, que foi num… banco de uma praça. Macabra coincidência. Com os lábios quase tocando nos de Machado, ela diz:

– Também te amo.

            Em meio a lágrimas, sangue e soluços, os lábios de Carolina tocam nos de Machado. Um toque suave, sereno, calmo. Um beijo para a eternidade. Quando os lábios se afastam, Machado já está sem vida. Morto. Uma grossa lágrima cai dos olhos de Carolina e caem no rosto morto de Machado. Carolina também morreu. E sua morte foi no momento do triste, salgado, doloroso, último beijo.


[1] Inadjetiváveis: neologismo que significa que algo é tão bem construído, ou bem feito, que não há adjetivo que o possa descrevê-lo com precisão.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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3 respostas a O Último Beijo

  1. Eliamar diz:

    É.. as mulheres tem sempre razão.. se Machado tivesse ficado em casa!! rsrsrs..
    Muito bom o texo Ricardo! Gostei!!.. Dá até uma tristeza.. principalmente perto do dia dos namorados..ahh cê sabe!! coisa de mulher..rsrs

  2. Parabéns Ricardo, gostei bastante do texto. Agora fiquei curiosa para ler os demais! Olha que vc sempre coloca lá no face o link, e batia uma preguiça, hj bateu curiosidade…e que bom.

  3. Kdanada diz:

    Seu texto é Inadjetivável. Maravilhoso. É o Brasil ganha mais um excelente escritor. Você tem mesmo várias facetas. Cada dia me surpreendo mais com você.
    Bjos! ;*

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