O Problema da Erudição


Texto originalmente publicado neste blog. Autora: Mônica Colacique. Apreciem.

Ter nascido mulher, brasileira e no final do século XX não foi culpa minha, obviamente. Não gosto de usar o termo orgulho para caracterizar coisas pelas quais eu não sou responsável, mas nunca tive problema com nada disso. Apenas não gosto de ser refém dos gostos populares desses grupos, uma vez que não me sinta lá muito bem representada pelos brasileiros, as mulheres e as pessoas da minha idade. Não vou entrar no mérito das brasileiras da minha faixa etária que, salvando-se raras exceções, são…bem, elas simplesmente não são. Eu tive a sorte de nascer em uma geração que tem acesso a tudo, e o azar de compartilhar esse prazer com pessoas que usufruem de nada. Em nossos HDs caberiam várias bibliotecas de Alexandria, a obra completa de Johann Sebastian Bach e, mesmo assim, não há uma motivação conjunta atrás de conhecimento e cultura. Não só não há, como as pessoas insistem em ser medíocres e taxam de chato ou ultrapassado aquilo que elas nem ao menos conhecem para tentar entender.

Comentar sobre os meus gostos artísticos me faz parecer, aos olhos de uns, arrogante e, muitas vezes, entediante. Isso quando acreditam que li tudo o que afirmo e não me chamam de mentirosa metida a cult. Encontro-me numa situação onde ser ignorante é a regra e erudição é frescura de elite. E é isso que me incomoda. Perturba-me essa restrição, a ideia de que certas coisas seriam inalcançáveis ou incompreensíveis por fazer parte de outra cultura ou geração. Há sempre pessoas que pensam assim. Essas nunca vão longe.

Devo eu dar preferência às representações nacionais em vez das estrangeiras e consumir trabalhos contemporâneos e não os clássicos? Eu devo é prestigiar o que tem qualidade, não me importando com esse tipo de amarra. Se tudo o que é produzido culturalmente no Brasil fosse ruim (o que não chega a ser verdade, a menos que você pense somente no que é feito para a massa), não haveria patriotismo que me fizesse bater palma. Assim como não torceria por nenhum filme ou artista brasileiro ganhar algum prêmio internacional se este não merecesse, pois o fato de eu ter nascido no Brasil não faz das coisas nacionais melhores ou piores.

É preciso ter mente aberta, mas não se pode perder o senso crítico. David Fincher, Stephen Daldry, os irmãos Coen, Quentin Tarantino são exemplos de que coisas boas podem ser feitas hoje em dia. Só acredito que seja fundamental conhecer Stanley Kubrick, Orson Welles, Luchino Visconti antes de sair por aí falando que James Cameron é um gênio. Assim como se deve ouvir um verdadeiro virtuoso como Jimi Hendrix para não ficar achando que o guitarrista daquela banda de pop/rock é a melhor coisa do mundo (convenhamos, se é de uma banda de pop/rock está muito, muito longe de ser a melhor coisa do mundo). As pessoas não se esforçam para conhecer e se enchem com filosofias baratas; deixam de ler sobre a vida, com Camus e Sartre, e vão para A Menina que Roubava Livros, achando que entenderam tudo sobre a morte.

Jean-Paul Sartre, filósofo e escritor francês

Eu não desprezo o axé por ser nordestino; Paulo Coelho por ser popular; Crepúsculo por ser para adolescentes; livros de auto-ajuda por mirarem o público feminino ou O Caçador de Pipas por ser atual. É porque são horríveis mesmo. Aliás, ser bom nunca foi uma alternativa. Se nem todos os que tentam fazer algo de qualidade conseguem, imagine quem se contenta com ruim. Dizer que qualquer rascunho é literatura, qualquer barulho é música é não ter respeito pelos verdadeiros artistas.

Não há pessoa de bom senso que não ria com as comédias de Molière, escritas há mais de três séculos, e que não perceba que as obras de Chopin cresceram e não diminuíram com o passar do tempo. Se nem o fato de eu não acreditar em Deus faça com eu fique indiferente a bela Missa de Lord Nelson, de Haydn, por que o fato de ele ser europeu importaria? Por acaso a obra de Dostoievsky deixa de atingir a todos porque nem todos somos russos?

A qualidade da Arte não está reservada a um período da história, a uma cultura, a um país, nem mesmo a uma ideologia. É claro que tudo isso importa. Todos nós somos produtos da época e do lugar em que nascemos. E nossas ideias se formam conforme nos debatemos com o que há a nossa volta. Qualquer trabalho é feito por humanos falíveis que vivem numa sociedade corrompida e defeituosa. E é nesse cenário deturpado que nasce a beleza. Pois a verdadeira obra de arte é mais forte do que os nossos preconceitos, maior que nossos medos e ultrapassa barreiras que nós mesmos criamos entre nós. A obra-prima é atemporal e universal, tornando-se assim maior do que o próprio artista.

Não se trata de ler por ler ou de tomar conhecimento para se vangloriar. Mas de reconhecer a verdadeira arte, desfrutar dela e apreciá-la. Ela é rara, mas existe. Precisamos apenas de um pequeno esforço para conhecê-la.

A erudição é um problema apenas para quem não a tem.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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2 respostas a O Problema da Erudição

  1. Embora não seja um erudito, concordo com você quando diz que as pessoas taxam as “incomuns” como “gente metida” e sei das dificuldades pelas quais passam por conta disso. Deve ser duro estar rodeado por uma multidão de pessoas e ainda assim sentir-se sozinho, mas infelizmente essa é a realidade dos eruditos que preferem manter-se no seu nível a baixar o nível para tornar-se sociável, até porque não seriam mais eles, seriam apenas uma representação.

    Outro favor que inclusive já tinha citado para amigos antes de ler seu texto, é a questão da universalidade da arte, ela ultrapassa a barreira da nacionalidade.

    Belo texto o seu, embora eu não seja alguém realmente capaz de fazer tal avaliação.

    Um forte abraço.

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