Nietzsche e o Idealistas


Pensador explosivo

É necessário dizer quem consideramos nossos adversários: os teólogos e tudo que tem sangue teológico correndo em suas veias – essa é toda a nossa filosofia… É necessário ter visto essa ameaça de perto, melhor ainda, é preciso tê-la vivido e quase sucumbido por ela, para compreender que isso não é qualquer brincadeira (­o alegado livre-pensamento de nossos naturalistas e fisiologistas me parece uma brincadeira ­ não possuem a paixão nessas coisas; não sofreram). Este envenenamento vai muito mais longe do que a maioria imagina: encontro o arrogante hábito de teólogo entre todos aqueles que se consideram “idealistas”, entre todos que, em virtude uma origem superior, reivindicam o direito de se colocarem acima da realidade, e olhá-la com suspeita… O idealista, assim como o eclesiástico, carrega todos os grandes conceitos em sua mão (­e não apenas em sua mão!); os lança com um benevolente desprezo contra o “entendimento”, os “sentidos”, a “honra”, o “bem viver”, a “ciência”; vê tais coisas abaixo de si, como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais “o espírito” plana como a coisa pura em si, como se a humildade, a castidade, a pobreza, em uma palavra, a santidade, não tivessem causado muito mais dano à vida que quaisquer outros horrores e vícios… O puro espírito é a pura mentira… Enquanto o padre, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão for aceito como uma variedade de homem superior, não poderá haver resposta à pergunta: Que é a verdade? A verdade já foi posta de cabeça para baixo quando o advogado do nada foi confundido com o representante da verdade.

O Anticristo, VIII parte

Do que se trata?

Nietzsche como crítico da religião (principalmente do cristianismo), sempre teve ojeriza pelos idealistas e foi sempre contra esta forma de pensar. Uma forma canhestra e que nega a realidade, a vida, a existência como fonte de felicidade e potencialidades. No trecho acima, o filósofo elabora uma crítica contra esta mentalidade que se vê acima da realidade e sempre a julga como algo sobre o qual se deve desconfiar. Ele mostra como este idealismo teológico é arrogante e prepotente, mesmo se escondendo atrás de uma falsa humildade e que não se deve vê-los como uma espécie de homens superiores, pois eles não são.

Noções-Chaves

Idealista – Para Nietzsche, pessoa que busca (e acredita) numa realidade acima desta, para além, que pode ser alcançada através da religião ou da moral religiosa.

Verdade –  o que deixou de ser compreendido e se tornou distorcida por causa do envenenamento do pensamento religioso, quando pôs o “representante do nada” como seu representante.  A verdade ficou quase perdida devido à distorção que a religião fez dela.

Argumentação de Nietzsche          

O foco da argumentação de Nietzsche é o risco que se corre em colocar os teólogos ou idealistas no pedestal de boas pessoas, pois estes não o são por serem uns envenenadores de mentes, mentirosos e fabulistas, criando conceitos distorcidos da realidade, e sendo arrogantes como se possuíssem a verdade sob a sua tutela. Por isso Nietzsche os encara como inimigos. Para o filósofo alemão, estes desprezam os aspectos mais importantes da vida, relegando-os ao nível de inferiores ou desprezíveis.

Para Nietzsche os que já entraram em contato ou quase foram enganados pelas teias falaciosas da teologia, têm a real dimensão do perigo que esta oferece a vida e ao homem terreno, que quer potencializar sua existência neste plano e não correr atrás de uma realidade além dessa para viver de fato sua vida.

Comentário

É necessário dizer quem consideramos nossos adversários: os teólogos e tudo que tem sangue teológico correndo em suas veias – essa é toda a nossa filosofia… É necessário ter visto essa ameaça de perto, melhor ainda, é preciso tê-la vivido e quase sucumbido por ela, para compreender que isso não é qualquer brincadeira”

Os reais adversários da vida são os teólogos ou qualquer coisa que tenha “sangue teológico”, pois este ameaça a vida com sua falácia (porque mesmo os mais sofisticados teólogos nada mais são do que meros sofistas), com seu discurso de valorização da fraqueza, do fracasso, da penúria. E os que já entraram em contato com este discurso, podem perceber com maior clareza como ele pode ser pernicioso e ludibriante, e como esta ameaça é séria aos espíritos livres.

“Este envenenamento vai muito mais longe do que a maioria imagina: encontro o arrogante hábito de teólogo entre todos aqueles que se consideram ‘idealistas’, entre todos que, em virtude uma origem superior, reivindicam o direito de se colocarem acima da realidade, e olhá-la com suspeita…”

A teologia tende a ter o hábito que é muito visto entre aqueles que se denominam, ou são, idealistas: é o da arrogância de colocarem-se acima desta realidade e julgá-la como algo que mereça suspeita, fazendo isso em nome de uma virtude provinda de uma realidade além desta, superior.

“O idealista, assim como o eclesiástico, carrega todos os grandes conceitos em sua mão (­e não apenas em sua mão!); os lança com um benevolente desprezo contra o “entendimento”, os “sentidos”, a “honra”, o “bem viver”, a “ciência”; vê tais coisas abaixo de si, como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais “o espírito” plana como a coisa pura em si, como se a humildade, a castidade, a pobreza, em uma palavra, a santidade, não tivessem causado muito mais dano à vida que quaisquer outros horrores e vícios…”

O idealista possue o domínio da “capacidade” de conceitualizar tudo. E com essa “capacidade” ele menospreza as coisas que são do plano terreno como: a ciência, os sentidos, etc. Para o idealista estas coisas não ajudam o “espírito” se elevar, são coisas de um plano que está a um nível abaixo, e que devem ser devidamente ignorados. No entanto, Nietzsche, aponta vícios que são muito mais nefandos como os conceitos religiosos de humildade, pobreza, castidade, que causam mais males a humanidade do que se pode imaginar. Eles não são contestados muito mais por se estar habituados a eles do que por perceber-se sua real dimensão negativa para a vida. Estes conceitos são negadores da vida, negam o corpo, os sentidos, negam a realidade.

“Enquanto o padre, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão for aceito como uma variedade de homem superior, não poderá haver resposta à pergunta: Que é a verdade? A verdade já foi posta de cabeça para baixo quando o advogado do nada foi confundido com o representante da verdade.”

Não, estes tipo de homens não são virtuosos


Para Nietzsche é nesse ponto que está todo o problema da civilização ocidental: exaltar o que nega a vida. Como um padre (neste caso) pode ser considerado uma “variedade de homem superior” se ele vê a coisas da terra, a vida como uma prisão? Como se poder exalta algo que é decadente? Para Nietzsche isso é inconcebível. Ele diz que todo discurso idealista (como é o discurso religioso) é um discurso que coloca no pedestal a fraqueza. Como descobrir a verdade se o que é valorizado é aquilo que a desvaloriza? Não há possibilidade de se alcançar a verdade se o “representante do nada” continuar sendo colocado no posto de “representante da verdade”.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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3 respostas a Nietzsche e o Idealistas

  1. Arthur Goulart diz:

    Entendo a crítica de Nietzsche ao Idealismo, mas ao mesmo tempo, tenho dúvidas quanto ao caráter idealista do próprio Nietzsche. No “Anticristo”, Nietzsche mesmo escreve: “… mas que tipo de homem se deve criar, se deve pretender, como o de mais elevado valor”, também em várias de suas obras é citado a questão do “super-homem”. Então, este processo de idealizar, de pretender, de dar significância a um “homem ideal” (quase impossível), não dá a Nietzsche uma perspectiva idealista?

    • Thiago De Matos Guerra diz:

      Creio que Nietzsche critica o ideal que nao pode se concretizar nesse mundo e o Superhomem pode ser aplicado nessa realidade

  2. OTAKON diz:

    “O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos.” Friedrich Wilhelm Nietzsche

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