A Cela


Onde estava não sabia. Não tinha como saber. Ali Tudo era Nada. Por quanto tempo estava ali, também não sabia. Como saber? Poderia ter nascido naquele insólito lugar. Estranho era o ar dali. Vento, cor, algo que pudesse ver, sentir, não havia. Mas havia uma coisa visível, talvez palpável: uma junção organizada de barras douradas, que na sua totalidade formavam algo parecido com uma gaiola. Dentro dela tinha uma espécie de cama com lençóis e travesseiros, todos dourados e reluzentes. Havia também um chaveiro de tamanho anormal com milhares e milhares de chaves que pareciam ser iguais. Tudo brilhante. E ele estava dentro da gaiola, sentado na cama. Estava atordoado, meio tonto ou fraco. Estava estranho. Ele tinha a sensação de que há muito tempo estivera ali, só que dentro dele havia algo que parecia estar vendo aquele lugar pela primeira vez. Com os cabelos eriçados, porém penteados; as roupas sujas, porém belas; o corpo fétido, porém esbelto; os dentes podres, porém eloqüentes, aquele Ser olhava as barras douradas como se fosse a primeira vez que as estivesse deslumbrando. Via fora da gaiola um branco sem horizonte, um ambiente finitamente infinito. Era como se nada tivesse inicio ou fim. Como se o fim fosse o começo de algo e esse algo fosse o começo de um fim. Tudo confuso. Nada era entendível. Desconhecia o tempo. Desconhecia seus semelhantes, pai, irmãos, mãe, humanos. Não se recordava de ter saído da cama, ter pisado no chão. Não sabia se ele existia. Tudo branco, dourado. Restava o olhar perdido no Nada.

Num dia sem nome, ele olhava para fora daquela sua estranha cela ou cela estranha, quando viu um corpo movendo-se sobre o branco chão (que existia) segurando aquilo que parecia ser um livro de negra capa com letras douradas. O ser assemelhava-se a uma mulher. O que era mulher? Ela rasgava as páginas do livro e as jogava para o alto. Porém as páginas continuavam caindo num abismo infinito com se o chão inexistisse. Mas existia (ou não?). Onde ela pisava? O ser se aproximava da gaiola. O olhar dela era desvendador. Os olhos pretos, totalmente pretos, os cabelos, as mãos, a pele, os dentes, pareciam de um imaculado ouro, como tudo naquele inexistente lugar era (ou parecia ser). Ela o fitava como se estivesse encantada, deslumbrada. Ela era linda. O corpo era mármore esculpido. Estava nua. Seios duros. As nádegas inamovíveis. Ele sentia um medo pungente que não sabia a origem. Um medo que corria suas veias e soltavam aos olhos. Tremia freneticamente, enquanto ela se aproximava. Era ela a fonte de seu medo. Era ela que trazia aquela forte dor que ele sentia no seu coração. Ela que o transtornava de maneira tal. Ela estava bem perto. Então ele, no meio do turbilhão que desenrolava-se dentro de si, conseguiu ler o título do livro que ela carregava: Bíblia Sagrada. Ela rasgava as folhas vorazmente. O livro perdia espessura. Ela não desviava o olhar dele. Aqueles olhos rasgavam-no. Não conseguia respirar, parecia estar a morrer.  Quem era aquela mulher? De onde viera? Como viera? Por que viera? A cabeça dele ia explodir. Perguntas e sangue fluíam descontroladamente naquela cabeça perdida. Ela chegou tão perto dele, que o único obstáculo que os separava eram as douradas barras. Dor. Uma prisão desnecessária. Uma punição infundada. Ou não? Todo o alvoroço que ele sentia foi mitigado quando ela tão perto aproximou-se. Sentiu uma tranquilidade absoluta. Foi levado aos extremos da agonia e da calmaria. O olhar dela estava tomando outra tonalidade. Diante do brilho das barras, seu rosto reluziu, e ele pode entrar nos seus olhos. O silêncio reinava. Ela abriu os lábios como se fosse dizer algo, A chave… liberdade falsa…, então chegou mais perto e, por entre as barras, o beijou. Os dourados lábios dela tocaram nos lívidos lábios dele num toque tão lento e afetuoso que parecia um beijo materno. Ele não respirava. Bom momento para a morte vim. Fecha os olhos. Seu pensamento esvazia. Surge uma leve brisa. A primeira brisa. Abre os olhos e nada vê. Onde estava aquela criatura? O ar entra rasgante nos pulmões dele. O que tinha acontecido? O que significava A Chave e Liberdade Falsa? Ele não entendia.

A Chave. Liberdade Falsa. Aquelas palavras giravam na sua cabeça. O que significavam? O chaveiro gigante com suas pequenas chaves. Era daquelas chaves que ela falava? E a Liberdade Falsa? Foi aí que ele percebeu que aquela cela onde ele estava tinha uma espécie de porta. Era por aquela porta que ele tinha entrado? A pergunta mais apropriada seria: era por aquela porta que ele sairia? Nela havia uma fechadura. Tudo dourado. Ele olhou as chaves e a fechadura. Seria isso? Poderia sair dali? Continuava olhando para as chaves. Elas eram milhares, incontáveis. Os fatos recentes pareciam estar mais compreensíveis. Ele podia abrir a porta! Com qual chave? Pensando como sair dali, ele viu um corvo se aproximando. Ele nunca havia visto um corvo, por isso não estranhou o fato dele ser azul. Difícil ser livre, não acha? começou o corvo, Não entendi, eu nem sei o que é ser livre, Ser livre é um condenação que temos que acatar. O corvo tinha um ar de malandro na fala, Mas por que eu fui condenado a ser livre? Ser livre é apenas uma condenação, é só isso que deves saber, o porque dessa condenação isso não te interessa agora, não deves saber tão rápido assim, Quando é que eu devo saber? Ele estava cheio de interrogações. Qual é o nome desse lugar aqui? O nome eu não sei, mas sei o nome desta tua cela, Qual é o nome desta minha cela? O corvo soltou uma risada discreta e pensou, Que homem ignorante! O corvo foi na parte da frente da cela, Olhe aqui, nessa plaquinha está escrito Liberdade, esse é o nome desse lugar onde você está, Mas quem me prendeu aqui? Ninguém, nasceste aí, Mas vou morrer aqui? Isto é opcional, você já viu aquelas chaves? elas não te dizem nada? Posso sair daqui? Sim, Com que chave? Eu não sei, adeus amigo. Terminando de falar o corvo bateu asas e voou, voou até sumir no Nada.

Agora ele tinha certeza de que poderia sair dali. Que eram aquelas chaves a sua porta de libertação. Só que elas eram milhares. Todas pequenas e quase iguais. Quanto tempo demoraria a achar a chave que abriria a porta da cela? Ele queria sair logo dali. Sentia-se mal lá dentro. Uma náusea forte. Sempre com aquele sentimento de que não poderia fazer aquilo, se culpando por ser inútil. Ele se sentia assim: um inútil. Aquela Liberdade o impediu de ser livre. Ele queria sair daquela Liberdade para ser livre. Tinha que abrir aquela porta. Com qual chave? Não sabia qual, mas iria descobrir. Começou a colocar um por uma na fechadura. Alguma daquelas seria a chave libertadora. Quando? Ele não sabia. Mas ela um dia apareceria. Colocava chave atrás de chave, sem perder tempo. Não é essa, nem essa, essa também não, nem essa. Os dias se transformaram em semanas, e as semanas em meses, e a chave certa não aparecia. Mas ele estava resoluto. Não ia desistir. Os meses, se transformaram em anos. A chave ainda não havia surgido daquele gigantesco chaveiro. Mas já faltavam algumas poucas chaves. As mãos dele sangravam, ele já estava morto com a aquela procura. Tudo na cela estava sujo com seu sangue. A última chave. Ele estava livre pra sair daquela dourada cela e ir rumo ao Nada, ser livre. Era agora um homem livre, cansado, ensangüentado, ferido, mas livre. Com a respiração falhando, ele encaixa a última chave na fechadura. A chave que traria à ela a sua liberdade. Ele tenta girar a chave. Nada acontece. A porta sequer move-se. Não era possível. Ele não tinha pulado nenhuma chave. Havia tentado todas. Tinha que ser aquela. Era aquela. Não havia como ser nenhuma outra. Todos aquele anos angustiosos foram jogados dentro daquela fechadura. Ele chorou. Era a primeira vez, desde que ele tomara consciência de que estava lá, que ele chorava. Chorou como uma criança decepcionada por não ter uma promessa que foi feita à ela cumprida. Além de um homem preso, era agora um homem triste. Como ele não conhecia as palavras chulas pra aliviar sua decepção, sua raiva, ele apenas chorou. Não gritou, não esperneou, só chorou.

Chorou por semanas. Já estava apresentado a Tristeza com sua prima Decepção. Ele remoeu tudo o que acontecera com ele. O dia em que se encontrara com aquela mulher. O que ela tinha dito à ele. “A chave… liberdade falsa…”. A chave. Não era o mesmo que AS chaves. O que aquilo iria mudar? O corvo disse  que eram as chaves que abririam a porta, e elas não abriram. Que chave era essa que a mulher se referia? Que chave? Se aquilo era um quebra-cabeça, ele não estava nem com as primeiras peças colocadas em ordem. Ele perdeu-se em pensamentos. Ficou tão perdido que não percebera que uma pena branca manchada de vermelho caia dentro de sua cela. Quando viu a pena, assustou-se. Tentou ver o que estava manchando ela. Viu algumas letras, que lhe pareciam familiares:

“EERLDIADB UE A OSU AMHIN”

               O que aquelas letras significavam? Ele não entendia. Não faziam sentido pra ele. Ficou olhando fixamente para aquelas letras vermelhas, sem entender o que via. Agora tinha outra ocupação. Obstinou-se em saber o sentido daquelas letras. Ficou algum tempo (que não sei se foram dias, semanas, meses ou anos), até que identificou o primeiro conjunto de letras como sendo a palavra Liberdade. Essa Liberdade que o perseguia, que não lhe dava paz. O que era (ou quem) era essa Liberdade? Ele passou mais algum tempo até ver o que estava escrito na pena:

  “LIBERDADE EU A SOU MINHA”

            Ainda sem sentido. “Liberdade eu a sou minha”? Mas logo ele viu as palavras na ordem correta:

“ EU SOU A MINHA LIBERDADE”

            Mas aquilo não possuía um significado que fosse claro para ele. Ele ficou pensando naquela frase. A Chave. Seria aquela a frase a Chave? Foi então que percebeu que não era a frase a Chave, mas o que ela dizia. Ele era a Chave. Ele era a Liberdade. Então a pleno pulmões ele gritou: Eu sou a minha Liberdade. Nada mudou. As lágrimas já enchiam seus cansados olhos, quando então aquela dourada cela com tudo que havia dentro dela, transformara-se em pó. Literalmente pó. Um forte vento bateu levando aquilo que tinha sido uma sólida gaiola de ouro. Ele fechou os olhos. Outro tipo de lágrima lhe encheu os olhos. Era a primeira vez que ele se sentia alegre. Ele estampou no rosto seu primeiro sorriso. Ao abrir os olhos, ele não estava mais naquele mar branco. Ele estava em algum lugar que parecia ser uma floresta em primavera. As flores, as verdes folhas, o barulho da água, o cheiro de terra, mostravam àquele Ser que ele tinha conseguido. Ele respirou fundo outro ar, um ar diferente. O ar da Liberdade. O seu ar. Era um homem livre.

Advertisements

Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
Esta entrada foi publicada em Divagações Literárias. ligação permanente.

2 respostas a A Cela

  1. Luana diz:

    História bem elaborada, intensa e cheia de mistérios. Cada acontecimento/descoberta proporciona um impacto e faz você ficar vidrado(a) na história. Tema interessante com o enredo abordando bem sobre ele. Essa foi a primeira coisa que eu li sua, e gostei… Você tem realmente dom de ser escritor =)

  2. Estranho, este texto só apareceu pra mim na versão mobile do blog, só hoje o vi no rol de postagens e precisei recorrer ao link usando o browser do celular para poder postar esse comentário. Quanto a postagem, antes de colocar gostaria de saber se o texto é de sua autoria, em todo caso o achei muito bom, tirando alguns detalhes como os diálogos sem com o corvo sem identificação de quem está falando, embora em todas as falas os personagens sejam compreensíveis, além de algumas palavras estarem sem espaços, mas isso é o de menos, o conteúdo da narrativa em si é um assunto que sempre abordamos e que nunca deixará de ter sua importância, independente de quantas vezes ele for tema, sempre será algo que dará uma boa história metafórica, desde que seja bem produzida, como foi o caso desta.

Faça seu comentário. Exponha sua opinião!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s