O equilíbrio nietzscheano em Cisne Negro


Estou maravilhado, deslumbrado, fascinado, abobalhado, encantado, estou em suspensão. Hoje tive a oportunidade de assistir o filme Cisne Negro (Black Swan).

Tenho algumas considerações “filosóficas” sobre a obra. Identifiquei nela muito do pensamento de um filósofo alemão chamado Nietzsche. Partirei do pressuposto de que vocês já conhecem o filme (se não conhecerem, calma, não darei nenhum spoiler). Vamos lá.

O enredo da obra dirigida por Darren Aronofsky relata a história de Nina (Natalie Portman) , uma bailarina que consegue o papel de rainha dos cisnes no ballet o “Lago dos Cisnes” do meu maravilhoso Tchaikovsky, e sua ardorosa luta para conseguir interpretar esse papel. Ela terá que interpretar os dois cisnes, Odete e Odile, o Cisne Branco e o Negro, de forma convicente e arrebatadora. O filme todo trata desta luta.

O filme levanta questionamentos muito relevantes. Como Nina é uma exímia bailarina, que se preocupa com a técnica, e com uma perfeita execução dos passos, ela acaba, por causa dessa disciplina, se comedindo e se trancando para  a possibilidade de viver de forma espontânea e intensa seu papel. Ela luta para ser disciplinada e intensa ao mesmo tempo, o que é um complexa e dificílima tarefa. Poder encontrar o equilíbrio entre o dionisíaco e o apolíneo. Mas Ricardo (esse é o meu nome ok), o que é isso?

Dentro do panteão de deuses da mitologia grega, existiam dois deuses contrastantes: o Apolo, deus da medida, do controle, da razão, da mensura; e o Dionísio, o deus do desvairio, da liberdade, da intensidade, da paixão. Eles se tornaram símbolos de contrastes. E nossa vida é pautada ainda sob a influência (metafórica diga-se de passagem) desses deuses. Até certo tempo, dentro do contexto história da Grécia antiga, o deus que possuía mais aceitação era o Dionísio, que era venerado, e seu comportamento imitado; com o passar do tempo (e o detalhes históricos disso, procure no google), alguns pensadores começaram a tirar Dionísio, a intensidade descomedida, do pedestal e colocar Apolo, a luz da razão, a racionalidade, no lugar mais alto. A partir de então, todos os nossos impulsos “carnais” começaram a ser reprimidos e combatidos (um exemplo notável disso é o cristianismo), contudo eles não desapareceram; e todo o discurso certo, tinha que ser um discurso pautado na razão. A vida correta era a vida comedida, controlada. Quem quebrasse essa regra áurea, era visto com maus olhos (ou queimado vivo). E todo o pensamento ocidental platônico-judaico-cristão fundamenta-se nisso. Mas, eis que no final do século XIX, aparece um pensador original, uma verdadeira dinamite destruidora de discursos vazios: Friedrich Nietzsche.

Este pensador de origem alemã, propõe a retomada do dionisíaco na vida do humano. Seria uma vingança de Dionísio. Nossa vida não é feita só de racionalidade e comedimento, ela é formada também pela intensa paixão pelas coisas, pela entrega aberta para as coisas. Mas Nietzsche não diz que se deve agir loucamente sem pensar nas consequências, sermos loucos. Agir por agir somente. Precisamos de chão, de algo que nos segure para que não sejamos trucidados pela nossa própria loucura. O que ele critica é forma como levamos nossas vidas: nos reprimindo. E ele oferece uma saída: o equilíbrio. Não ficar nos reprimindo como se esses desejos fizessem parte de um aspecto negativo de nossas vidas. Há uma metáfora que exemplifica muito bem isso: a vida é como um quadro, onde a moldura seria o apolíneo, e as cores, os desenhos que compõe o quadro, o dionisíaco. O dionisíaco é que daria beleza a vida, mas para que não extravase, seria contido dentro da moldura do apolíneo.

O problema de nossas vidas é que a passamos toda apenas como um esforço para reprimir nossos desejos, nossas reais vontades. Dentro do filme, isso é bem posto quando Nina tenta reprimir as forças do cisne negro, que fazem parte dela, que querem sair.

Não podemos fazer de nossas vidas uma eterna luta contra nossos impulsos. O que devemos fazer é lutar para chegar ao equilíbrio e se jogar para vida (desculpe o clichê), mas sem ser destruído por essa repressão da razão. Não devemos colocar um muro entre nossos desejos e a razão, mas fazer com que os dois andem juntos e em harmonia.

obs: esta não é uma crítica de cinema. Se você quiser ler uma boa crítica veja estas duas aqui: 1° http://migre.me/4amEY e a 2° http://migre.me/4amFz (copie os link e ponha-os na barra de endereços do seu navegador)

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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19 respostas a O equilíbrio nietzscheano em Cisne Negro

  1. Miller Souza diz:

    Há muito tempo não lia um texto de um graduando que estivesse tão bem fundamentado.
    O texto nos proporciona a visão de outras analogias, além da que foi exposta por você. Como o comodismo do capital social para com as imposições do Estado e que nada mais é do que o conformismo das pessoas com tudo o que o Estadado as impõe, tendo que se submeter a um modelo imposto e que só favorece o fortalecimento do comando sobre as pessoas, impedindo a criação de uma identidade. Diferente de tempos atrás, quando o movimento das massas se fazia necessário para reverter uma ditadura e as pessoas entenderam a identidade do movimento. Hoje estamos no processo do que pode ser o maior retrocesso constitucional da história da legislação ambiental brasileira: O novo Código Florestal, que ameaça converter metade da Amazônia em savana e áreas agrícolas. Com tudo, as pessoas ainda preferem se omitir de sua indignação e apenas acompanhar, como se estivessem tomando uma xícara de café.

  2. Kssiddy Weslley diz:

    Simplesmente concordo um pouco com a Katherine, menos na parte em que o equilíbrio entre a razão e o desejo seja inalcançável, nessa questão se dá créditos à Fabiane.

  3. O Ateu diz:

    Rapaz, existem poucas pessoas que são capazes de transmitir uma ideia de forma simples para que os que não possuem o devido conhecimento compreendam o assunto exposto. Você faz parte desse grupo.

  4. Kdanada diz:

    Xiiiiiiiii sumiu o meu comentário que deixei pra você. Vou postar de novo.

  5. Katherine diz:

    Ricardo você está de parabéns pela riqueza do texto e pelas associações de ideias. Que tal começar a escrever artigos científicos? acho que você tem um grande futuro. Vamos aos comentários sobre o texto, penso que seja inalcançável equilíbrio entre o desejo e a razão, quanto a Nietzsche acredito que ele criticava tanto a repressão por justamente ter sido criado sob os rígidos principios da religião. Em sua vida adulta ele também sofreu de solidão e se entregou ao isolamento, mesmo assim ele se tornou um dos maiores pensadores e acredito que ninguém melhor que ele para escrever sobre o assunto. Ricardo você tem qualidades que Nietzsche possuia espírito irrequieto e liberdade intelectual. Isso é muito bom. É continue sempre nos brindando com textos de qualidade como este.

    Bjos !!!!!

  6. Ricardo,

    amei!Ficou gostoso de ler e entender!
    Que bom respirarmos o mesmo ar.

    beijocas poéticas,

    dri

  7. Bom texto Ricardo!
    Não vi o filme, mas sem dúvida o equilíbrio entre nossos lados apolíneos e dionisíacos é importante para medir nossas atitudes e não ultrapassar nem um nem outro. O excesso de qualquer coisa sempre faz mal a pessoa.
    Parabéns!
    Vemo-nos à tarde. o/

  8. Ótimo texto, Ricardo, tá se tornando gente grande. Abs

  9. Fabiane diz:

    O problema de viver apolineamente a vida toda é que depois que se tenta botar um pouquinho mais de Dionísio na vida a gente se vê incapaz disso. Infelizmente não somos como o Neo, que roda um software e sabe kung fu. IRL somos mais como o Keiko, a baleia do filme Free Willy, que foi solto no mundo depois de viver a vida toda em cativeiro, não se adaptou e morreu, coitado. Eu tô quase indo pro mesmo caminho…

  10. Eliamar diz:

    Meu caro colega Ricardo, adorei seu texto, não sabia que escrevia tão bem. Parece-me profissional.. com a qualidade que não se encontra todos os dias.. você sabe disso. Quem dera se tivessémos jornalistas aqui no Estado com o porte que você escreve hein!

    Não sou uma profunda conhecedora de Nietzsche como você, mas adorei a ótica que colocaste sobre a película.. Realmente é um filmaço! Também fiquei maravilhada.

    Só para finalizar meu comentário não estou rasgando seda porque és meu colega.. rs. Realmente seu blog tá muito interessante. Parabéns!

  11. Wollia Vitorino diz:

    Olha, para ser sincera, não concordo com boa parte das teorias de Nietzsche , dessa vez foi bem posto e bem relacionado, nada melhor do que ler um texto de algum bem informado. Nada mais prazeroso do que entender uma opinião e aceita-la, ainda que contraria as suas. Meus parabéns.

  12. nina marcs diz:

    não conheço muito de nietzche mas assisti cisne negro e achei uma ótima associação.
    texto bem escrito, parabéns. (:

  13. Surpreendentemente bom o seu texto.

    Eu interpretei o filme como uma simbologia do processo de incorporação de um personagem… mas obviamente esta é uma película que dá margem a muitas leituras.

  14. Não é que o blog deu uma alavancada com essa postagem, já foram cinco comentários com praticamente 1/2 dia de postagem.

  15. Muito bacana seu texto.Objetivo e bastante claro.Conheci pessoas, ( que se dizem letradas),mas que não alcançaram a grandeza dessa obra.Viu o filme por vêr, ou apenas para criticar mesmo.Fato é que não sai de nossas cabeças e só por isso o diretor já merece nossos aplausos.Eis a função da arte: pertubar.
    parabéns!

  16. colozzo diz:

    Curti. Nunca li muito (leia-se: nada) sobre Nietzsche (praticamente tudo que eu sei das idéias dele acabei de conhecer aqui) e nem assisti o filme mas você explicou de uma forma que ficou fácil compreender, basicamente, o que Nietzsche propunha e me deixar com vontade de ver esse filme porque, obviamente, quero tentar entender seu ponto de vista. Está de parabéns

  17. Yuri Silva diz:

    Apesar de pedir dicas sobre a filosofia rasta em si, a sacada do Nietzsche foi muito boa.
    Ele e os rastas tem em comum o equilíbrio. Não sei se estou certo, mas os rastas de uma forma mais holística.

    Muito bom irmão! Parabéns pelo blog.

  18. TheBritneyFatal diz:

    Muito bom a critica, interessante so me deixou mais curiosa ainda em ver o filme.Parece uma historia fantastica

  19. Thamy diz:

    Se eu tivesse conhecido Nietzsche mais profundamente como li agora,minha vida nao estaria a droga que esta.
    Muito bom o post. É ótimo ler textos ricos em história, onde sempre se absorve conhecimento.

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