Evoé Terruá


O universo da valorização da cultura, por décadas, tinha pairado sob o parâmetro da classe média que pautava o que deveria ser consumido, o que deveria atingir o patamar de “sucesso”. Eles eram o público norteador do que poderia ser definido como o ‘bom” ou “ruim”. E por um tempo o que era considerado bom tinha quer ser assim: branco, hétero, classe média, e falando de um mundo que não parecia existir, de um Brasil que se limitava a centro-oeste, e sudeste. O que estava fora desse universo, tinha apenas o aspecto da excentricidade, como uma espécie de aborígene em terras europeias.

Mas o Brasil não é um país, é um continente. E suas manifestações culturais são tão diversas, diferentes e ricas, que não dá para ver apenas um Brasil, mas Brasis.

E desses Brasis tão miscigenados, misturados e mesclados, um Brasil que tem uma exuberância apaixonante é o Amazônico. A cena do que acontece na Amazônia é algo de tirar o fôlego, de total êxtase, assim nesses termos exagerados mesmo.

Uma das grandes potências de misturas e mixagens culturais na Amazônia, é o estado do Pará, que agrega essa capacidade de liquidificador de coisas: mistura tudo, de sabores a ritmos, que resulta numa das mais lindas explosões de  mundos que existem na cultura amazônica. O Pará é o estado que recebe de todos os lugares a sua influência. Sendo um lugar de grande fluxo de pessoas das mais diversas origens, o estado sempre absorve o novo, aglutinando ao que já existe em si e transforma isso em algo novo. Uma cultura verdadeiramente apaixonante.

Mas como ter acesso a tudo isso? Onde?

Se você não tivesse a oportunidade de vir ao Pará, ao norte do país, turistar um pouco e ver essa gororoba* toda, possivelmente teria apenas uma pálida impressão, ainda cheia de preconceitos, do que acontece nas terras paraenses. Mas lançou-se um projeto de projeção de todo esse acúmulo de informações, timbres e mixes que existem por essas bandas que exalam o cheio do camarão, do jambu, do charque e do açaí, mas que não limita-se a isso, o Terruá Pará, grande plataforma de exibição do fazer cultural paraense. Show lindo de se ver.

No Terruá Pará, que tem esse nome por causa do significado de terruá, palavra de origem francesa, que quer dizer alguma coisa do tipo “algo que só existe aqui”, que é da terra, toda essa expressividade da cultura paraense tem lugar de luxo, de destaque. E o show que se vê é algo de puxar o teu queixo para o chão.

Nunca tinha idao a nenhuma das edições do Terruá, apesar de muito ouvir. Tudo o que ouvi foi muito positivo. Mas entre ouvir sobre algo e ver, existe um abismo de sensações gigantesco. E o meu abismo foi diluído.

Pude ir nessa edição 2012 do Terruá e o que vi não chegava perto das descrições que tive. O Terruá é a grande plataforma da diversidade, do pólos que se convergem resultando num espetáculo de primeira linha. Sai apaixonado.

O que tem no Pará não é paraense. É brasileiro, brasileiríssimo.

É nessa terra de águas marrons, da pele bronzeada, do sorriso fácil que podemos ver um senhor de costas curvadas fazer uma multidão gritar, como só o Mestre Laurentino consegue, pulando de um lado para outro. Simpatia pura. E onde eu poderia ver o sorriso mais lindo do mundo, se não fosse o sorriso da querida Dona Onete? Ou ainda enlouquecer com a performance do Pipira do Trombone, ou de Toni Soares. Onde? Não existe lugar com cantoras tão doces quanto Lia Sophia e Luê, que não seja no Pará (e estaria sendo injusto se não adicionasse a linda Trelelê, a Aíla!). Você pode ir em qualquer lugar do Brasil, mas nunca poderá ver a beleza de uma apresentação como é a de Mestre Curica e Nilson Chaves. Não existe lugar no mundo que produza artistas assim. Não existe lugar que onde você encontre a profusão louca de brega com representantes tão fortes quanto Edilson Moreno, e outro tantos.

Mais do que isso, você não encontra por aí um cantor que misture o marabaixo, o carimbó, a guitarrada, o drum bass, o eletrônico, o analógico, o hype, o kirstch, o pop e o cult, que consiga sintetizar tão bem os sons do norte quanto Felipe Cordeiro, dono do bigode mais excêntrico da Amazônia. Não existe região do mundo que você encontre algo tão a cara do Pará quanto o eletromelody, o eletrobrega, tão bem representados pela Gang do Eletro e Gaby Amarantos, duas grandes atrações do estado que tomaram projeção nacional, e que têm uma história incrível. Sou apaixonado pela Gang do Eletro, que representam a vanguarda da música brasileira. A grande capacidade de mesclar, de remixar, de samplear, de fazer do antigo novo, de transformar, ressignificar e eletrizar. Um show da banda da Gang vale como uma experiência de vida. O mesmo pode se dizer de Gaby Amarantos, que se utiliza de recursos exploradores das tonalidades de outras músicas e forma outros quadros musicais. Ela é um furacão de mulher!

Tudo isso só mostra o seguinte: o que acontece no Pará é lindo e precisa ser cada vez mais visto pelo mundo! Precisa cada vez de olhares mais atentos. E uma grande vitrine para toda essa louca, caótica e encantadora criatividade do povo paraense, que se universalizou, é o Terruá Pará. Por isso: evoé Terruá! Vida longa a cultura do norte, do ribeirinho que usa um Macbook, do pedreiro que mixa seu som no quarto da sua casa, da vendedora de picolé que faz todo mundo cantar. Vida longa à cultura do Pará! Cultura que vem da rua, dos becos, das favelas, das tribos, dos terreiros, de todas as áreas! Vida longa Terruá!

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Sobre Ricardo Silva

Como não consigo pagar de gostoso, pago de intelectual.
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