Só sei que foi assim


E o menino estava deitado lendo um livro grande, de folhas velhas e amareladas, capa puída e meio rasgada. Não tirava o olho do livro. Não dava pra ler direito o título. Tinha uma “Pedra”, mas o resto não dava pra ver. Era maior do que o franzino menino. Mas ele lia com gosto. Era bonito de ver. O que ele lia era um tal de Ariano Suassuna. Disseram por aí que o cabra é bom, escreve do povo do nordeste e sabe do que fala. Vi umas folhas dele, e tá certo, o homem é bom mesmo.

Eu sou o menino. Eu li a “Pedra do Reino” (ou, para os detalhistas, “O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”) e fiquei boquiaberto. Como podia um livro ser tão maravilhoso, tão genial? Como podia alguém escrever daquele jeito? Como? Era o que me perguntava. Daí parti para o “Auto da Compadecida”. Ria tanto que me olhavam no ônibus perguntando “mas quem diabos deixou esse retardado embarcar?”. E foi lendo os dois mais famosos livros dele, que me tornei um encantado por Ariano Suassuna.

(E não foram só esses: Torturas de um coração, O santo e a porca, Sonetos com mote alheio, Uma mulher vestida de Sol, e etc)

Mais encantado ainda quando passei a descobri-lo como um defensor da cultura que coloca nos seus livros, que defende com veemência a Literatura. No fim da história, acabei eu me tornando um suassunariano.

 ***

Nunca gostei de feiras de livros.

Feiras, Bienais, Festivais e Festas Literárias sempre foram meu grande asco. Nunca tinha ido a nenhum desses eventos por total e pleno preconceito. Sou preconceituoso. E isso de feira de livros, pra mim, era o cúmulo da vergonha. Deixei de ir a algumas por desleixo, em outras por opção e ainda algumas, as poucas que senti vontade de ir, por contratempos. Mas uma hora a primeira vez acontece, uma hora a virgindade é rompida. E a minha virgindade literária foi rompida ontem, na XVI Feira Pan-Amazônica do Livro, que está (daqui a cinco dias não está mais) acontecendo em Belém.

Já entrei e começou a irritação: dois estandes gigantescos de editoras religiosas expondo suas edições de luxo da bíblia, aquele livro que todo mundo tem em casa. Mas ignorei. “Deixa de ser chato, Ricardo!”. O que eu queria não estava ali, naquele apinhado de gente com óculos de aros grossos, usando boinas, de senhoras tentando acompanhar seus filhos adolescentes que corriam de um estande para o outro procurando o último livro da série que eles estão acompanhando ou de hippies sem um vintém no bolso (meu grupo, o da pindaíba eterna) que estavam esperando a distração dos livreiros pra conseguir levar o livro que namoravam há meses nas vitrines das livrarias (e que custavam pequenas fortunas). Não estava ali quem eu procurava. Rodeamos, eu estava acompanhado de dois amigos, andamos um pouquinho mais, aumentamos um pouco mais a minha irritação com quem estava andando perdido no meio de tanto título e livro ruim (“Deixa de ser chato, Ricardo!”), quando, enfim, conseguimos descobrir onde estava quem eu estava procurando. Já na escada rolante, o meu estômago rolava. E aquele frio veio espinha acima. O nervoso já estava chegando. Quando, então, vimos o portão do salão onde ele estava. Abri e entrei tentando mostrar total naturalidade, posicionei a câmera, que vinha carregando no pescoço, e comecei o meu trabalho. Estava ali para registrar o momento. Mudei de lente, coloquei uma que pudesse me fazer ver os poros de quem eu mirasse. Mirei um salão grande, sóbrio, com decoração modesta, uma grande estrutura metálica atrás do palco, e todos rindo do convidado que estava sentado, falando com voz mansa e tranquila. Era ele, o tal do Ariano Suassuna. Cabra bom de livro. Falava, na hora em que entrei, sobre a beleza da língua portuguesa, de como era musical a “última flor do lácio”. E não dava pra sentir outra coisa em toda aquela defesa tão natural que não fosse paixão. Era com paixão que ele falava da beleza da língua portuguesa. Mas não aquela fria paixão (pois é, existem paixões frias também) acadêmica de quem se debruçou sobre ensaios e ensaios, e tem todos os argumentos na ponta da língua. Não era essa a paixão. Era a do outro tipo: aquela que só sente quem sua a camisa pra fazer com que o objeto de sua paixão seja melhor do que é. Ariano era um menino de 85 anos fazendo outros meninos bobões (um de 20 com uma câmera na mão, incluído nesse grupo) rirem como se só existisse aquele auditório no mundo. E o humor de Suassuna era daquele gaiato irônico. Lady Gaga entrou na roda: “Daqui a cem anos ninguém vai saber quem é essa Lady Gaga aí, mas ‘O Sertão’ continuará sendo lido”. E o público aplaudia.

Lembrou do seu tempo do seu curso de Filosofia. Falou mal do Kant e elogiou Nietzsche. Um conquistador, esse Ariano. Desmentiu a fama de ser inimigo do computador: “Não é que eu não goste do computador, ele que não gosta de mim!”. Tudo tinha uma piada no meio. Aos 85 anos, é arguto e tem uma memória “de cão vingativo”. Recitou poemas e mais poemas, e até declamou um cordel inteiro, só pra provar que sua memória era boa e não precisava de computador, pois “tinha tudo aqui”, era o que ele falava apontando pra própria cabeça.

E eu ali, na frente dele, com a câmera tremendo feito vara verde. Não conseguia fotografar, ficava com ela encostada no colo e o queixo apoiado na mão, como menino que fica admirado com as histórias do avô. Era o meu avô que estava ali. O avô que escreveu uns livros que eu tinha lido e me maravilhado, mas que ainda não conhecia. Cada vez que mirava a câmera, ela tremia. Tenta achar o foco, fazer ela ficar sossegada, mas ela não ficava. Quando ele me deu uma olhada, coisa rápida, de uns 10 segundos, descobri ali que eu tinha que ser escritor. Foi o que ele falou pra mim, porque agora já não tinha mais ninguém no auditório, era só eu e Suassuna: “Já li livros de mais de 400 páginas onde escritores do mundo todo diziam quais suas motivações para escrever e nenhuma era igual a outra. É porque ninguém sabe porque escreve, só escreve”.  Não falou pra ninguém aquilo, foi só pra mim. Escreve menino, escreve.

Quando terminou de falar, ele levantou-se e foi aplaudido. Larguei a câmera e aplaudi pra fazer a palma da mão ficar vermelha. Ele tirou o seu relógio de cordão e viu que poderia ficar mais um pouco. Aí a horda de jornalistas, dos estúpidos, fizeram suas repetitivas perguntas, que ele educadamente respondeu. Foi para a sessão de autógrafos. Meu coração doeu em ver uma penca desses frequentadores assíduos de feiras de livros, irem ao estande em frente ao auditório e comprar qualquer livro “daquele escritor ali que acabou de dar a palestra” e fazer uma fila gigantesca onde todos liam a orelha dos seus livros pra não ficarem desconcertados na frente do autor. Eu não tinha levado nenhum livro dele pra ser autografado, mas estava lá com a câmera na mão, na frente dele fazendo minhas fotos. Aí ele olhou pra mim e, numa tiração de sarro, mandou: “pra quê tudo isso de barba, menino?” e riu. Fiz mais algumas fotos e sai do salão. Sai sem nem olhar para os lados. Não, eu não tirei nenhuma foto com ele. Não precisava. Não tenho essa sede de exibição (não muito). O único lugar em que esse momento deve ficar, já guardou muito bem essa lembrança.

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Sobre Ricardo Silva

Desapega e vai!
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2 respostas a Só sei que foi assim

  1. Luis diz:

    Excelente texto ,compartilhando e emocionando com uma experiência tão pessoal. Conseguiu fazer o pessoal virar universal. Parabéns. Gostei muito.

  2. Cintia diz:

    Ricardo,

    Emocionante, um relato incrível que toca o coração dessa aqui que te conhece a pouco tempo e já é uma fã tremenda dos teus textos…tocou meu coração de forma que me senti no teu lugar…
    Parece a mesma sensação que tenho quando ouço Marina Silva falar, sensação de estar babando de admiração e de querer continuar babando por muito tempo…
    Parabéns querido, és um merecedor, que tenhas muito mais momentos como esse…

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