O Novo Pequeno Estranho


E o título lhe veio aleatório, meio perdido. Não sabia se seria um conto ou apenas mais um dos seus pretensos textos irônicos entupidos de adjetivos cômicos. Sentou na frente do computador e ficou perdido olhando o papel de parede estampado com uma mulher nua numa foto artística. Ele não gosta de vulgaridades. Vaginas por vaginas, todos os dias se vê uma. Gostava de procurar fotos fora daquilo que ele considerava padrão. Era melhor até na masturbação. Fazia cinco anos que não transava, por opção própria, segundo ele. Tudo porque ele estava se preparando para ter o maior orgasmo da sua vida com a mulher que ele conheceu na internet e que prometeu ir vê-lo. Isso há cinco anos. Mas ele ainda espera. Não faz mal esperar. Assim ele terminou os livros que se acumulavam no chão do quarto, conseguiu fazer aquele curso de inglês para poder ler Joyce com segurança, escreveu um livro de poesias imprestáveis, e conseguiu ver todos os filmes da nouvelle vague. Era um clichê meio irritante. Vagava com a barba por fazer, cabelos desgrenhados, unhas sujas, pelas ruas como se fosse um mendigo. Mas suas roupas estavam sempre limpas e perfumadas, o chinelo de couro marrom impecável no seu pé grotesco. Exalava certo charme com tudo isso. Tinha sempre uma nova aventura amorosa, tinha milhões de contatos na internet e toda semana via uma nova menina nua pela webcam. Todas amavam sua barba suja e empoeirada, seu olhar caído, seu rosto pontilhado de pequenas espinhas, seu cabelo grosso. Parecia que o segredo era o desempenho sexual. Nunca tinha decepcionado nenhuma das suas companhias e era muito elogiado pela sua habilidade oral. Uma figura estranha, com um inocente ar de normalidade. Não falava muito. Preferia ouvir a idiotice dos outros. As suas, guardava pra si. Era um tímido desinibido, pois era boa conversa quando queria conversar. Escrevia mais do que falava. Escrevia uns textos aleatórios contando suas histórias na pele de outros, inventando personagens que representavam ele desdobrado em outras realidades, realizando os seus desejos. Quase ninguém lia o que ele escrevia, e os que liam, queriam ler mais, pediam pra que mostrasse tudo pra todo mundo. Não queria. Seu botão de foda-se estava ligado. Isso de ficar mostrando-se para todos era complicado pra ele, mas foi pressionado e cedeu. Criou um blog besta com nome besta para leitores bestas. Muito bestas apareceram e os textos foram se espalhando. Não gostava dos textos, mas publicava. Queria ser escritor, não conseguia, a exigência que fazia pra escrever o impedia de produzir algo que achasse que valesse a pena ser lido por alguém. Não tinha estilo, não tinha conteúdo, e nem boas tramas, para, pelo menos, tentar encher a linguiça e fazer uns livrinhos desses que vendem bastante por aí. Não conseguia ser assim, por isso não fazia mais seus contos, nem as poesias (tão ruins), mas ficava arranhando umas crônicas que faziam algum pequeno barulho dentro do universo da internet. Era um menino na casa dos 20 que achava que poderia envelhecer mais rápido, e ser mais maduro do que os seus vizinhos de idade. Um pequeno rapaz, novo e estranho. Uma figura perambulante. Não acreditava no amor, mas esperava uma mulher há cincos anos. Criava elementos novos para nutrir sua vida com algo um pouco mais interessante do que livros, internet, filmes, cigarros, café, refrigerante e maconha. Tinha o costume de ficar tardes inteiras sentado numa praça, conversando consigo mesmo de boca calada, fazendo comentários mentais sobre os passantes. O seu dia era imóvel, mofava no quarto, escutando algo, quase sempre o mais novo do desconhecido, lendo algo, quase sempre o mais novo clássico perdido, ou comendo algo, nunca alguém. Quando sentava na frente do computador, seus olhos ficavam cada vez mais caídos. O horário dessa visita era pela madrugada, quando tudo está silêncio, todos estão dormidos, e os que estão acordados, pecando. Nessas visitas à tela branca do editor de texto no monitor, ele ficava horas com um olhar morto, quando então seus dedos se mexiam e as palavras começavam a formar frases, criando algumas linhas pretas na folha virtual. E hoje ele estava cansado: fazia algumas semanas que não havia escrito nada e os leitores estúpidos do seu blog de nome ridículo, faziam cobranças como se fossem editores petulantes pressionando por causa do prazo de entrega, então resolver escrever qualquer coisa. Sentou na frente do computador, abriu o editor de texto e ficou olhando, olhando. Até que lhe veio uma frase solta e dali ele começou a escrever o texto que ele deu o título da frase que lhe veio: o novo pequeno estranho.

 

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Sobre Ricardo Silva

Desapega e vai!
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