Eu não tenho, eu sou um corpo!


Gosto de ficar nu. Estou escrevendo este texto nu. Quando nu, o corpo fica solto. Roupas são prisões. Restringem, permitindo que se mostre somente aquilo que se quer, ou que se falseie característica do corpo. Gosta-se tanto hoje de fazer com o que o corpo transmita uma mensagem diferente daquela que ele carrega de fato. Gostam tanto, hoje, fazê-lo falar aquilo que ele não diz. O corpo acabou se tornando, depois de tanta insistência, uma pequena prisão onde guardamos aquilo que não queremos expor. Se tornou uma exposição barata de repressões e insinuações pobres. O corpo, que anda tão banalizado (não que precise ser sacralizado), hoje é uma obtusa máquina da hipocrisia.

Caminha-se bem na tentativa de libertação do corpo, de fazê-lo transpirar humanidade, de torna-lo uma fonte de felicidade, de contínuo prazer, e de dor confortável. Não existem tantos bloqueios quanto antes. Contudo, os que ainda existem tantos são, que custo acreditar que consigamos libertar, plenamente, o corpo. Ele continua preso, enterrado sob um monte de esterco conceitual, filosófico-religioso, que calca a forma como ele deve ser encarado. Afirma-se o corpo apenas dentro de uma dimensão pessoal e íntima, aquela que não será aviltada por olhares recriminadores e discriminadores. Essa dimensão pode ser potencializada, ampliada, ao ponto de não ter-se mais vergonha nenhuma do corpo. Por enquanto, o que há é a ignomínia. Culpa do Platão.

Antes de Platão, existiram alguns outros pensadores que formularam, de forma pobre e pouco sofisticada – mesmo que haja certo charme linguístico na exposição dos conceitos (vale dizer, sob a influência, nietzschiana, que quem de fato fez Filosofia foram os pré-socráticos, pois de Sócrates e 25 séculos adiante, fez-se de tudo, com algumas poucas e esparsas exceções, menos filosofar), a ideia de que existe, no mundo, uma divisão, de que tudo se compõe de dois elementos fundamentais: o ser e o não-ser. Platão, o mais pernicioso dos pensadores, foi o grande sofisticador desse pensamento. Graças a sua forte capacidade argumentativa, brilhantismo literário (muito de seus diálogos são escritos com uma qualidade tão alta, que ainda vejo sua influência ampliar-se para mais uma das tantas áreas não-filosóficas que influencia, a literária) e sua postura austera, Platão conseguem enraizar sua ideia da dualidade do mundo. Para o pensador grego, existem dois mundos distintos, que convergem em pontos de encontro: o mundo inteligível, onde jaz todas as ideias puras das coisas, onde elas existem de fato, são existências genuínas, originais; e em contraponto a esse, existe o mundo sensível, esse onde vivemos, onde tudo o que existe é apenas uma cópia defeituosa das ideias puras do mundo inteligível. Pronto, isso foi o suficiente para que essa noção dualista de compreensão da realidade se desdobra-se em tantas outras que tomam essa perspectiva para fazer com que determinadas manifestações humanas sejam tidas como positivas, enquanto outras fiquem à margem como negativas.

Todo o conjunto do pensamento platônico calca-se na negação do corpo, utilizando do argumento de que o que existe no mundo das ideias, o inteligível, é o que deve ser priorizado, enquanto essa dimensão terrenal é que deve ser marginalizada. A intensificação dessa ideia aconteceu com a apropriação do platonismo pelo cristianismo, que massificou isso de forma ainda mais prejudicial ao corpo, tornando-o um dos elementos da composição do humano dos mais repreensíveis. Sob a tutela platônica, o cristianismo promulgava (e ainda promulga) a noção de que o corpo é apenas o recipiente da alma, apenas uma caixa sem sentido, uma plataforma de atuação da alma. O cristianismo formulou a concepção de duas naturezas que compõe o humano: a primeira é a carnal, cujos desejos são apenas para destruição de si; a segunda, que é a espiritual, cujas vontades estão em desalinho com a carnal, pois o que essa anseia a outra repugna. E assim monta-se o esquema de percepção do corpo: como sendo um elemento a ser negado, reprimido. Graças à dimensão negativa dada ao corpo, enraizou-se, por meio da cultura sob plataforma cristã, o princípio de que o que o corpo deseja é o que não lhe faz bem. Graças a isso, a essa visão dual, cria-se as divisões diminuidoras do corpo, como o fato de achar que a razão e a emoção estão situadas em duas partes diferentes e, o pior, de que a razão nem compõe ou provenha do corpo. Um pensamento absurdamente aceito como sendo positivo e, mesmo, benéfico de encarar as coisas.

Entretanto, no decorrer de mais de 25 séculos em que o corpo foi rechaçado como prisão, houveram pensadores que, indo contra a predominância platônico-cristã,  deram ao corpo sua verdadeira importância e o situaram no devido lugar. Poderia destacar Nietzsche, meu predileto nesse e em outros tantos quesitos, que desmistificou o corpo, desvelando suas qualidades como de fato qualidades, o que antes eram vistos como defeitos a serem reprimidos. O corpo é a grande matéria potencializadora da existência, nele não há divisão, pois essa carne demasiadamente humana é perpassada por uma série de confluências construtoras de uma dimensão enriquecedora da vida. Quando tira-se a ideia de que o humano está aqui de passagem rumando para um mundo além (lembram-se de Platão como seu mundo das ideias¿), pode-se fazer com que essa existência, a única que se tem até que prove-se o contrário, seja plenamente valorizada. Ser carnal, dar vazão ao que o corpo quer, não negar sua própria humanidade, permite que a vida possa ser usufruída em sua plenitude sem a mácula da culpa (culpa essa formulada pra que a ações humanas sejam vistas como prejudiciais), do peso da consciência. O corpo deve ser estimulado, satisfeito. Ele não é uma caixa recipiente de nada; há um conjunto de elementos que o compõe, que o torna aquilo que ele é. Os pensamentos, sentimentos, mesmo a “voz” da consciência, são reações do corpo. É o próprio corpo dialogando consigo. Não existe nada externo a ele que o comande. É você com você. Negar isso, torna apenas a existência um fardo desnecessário. Não se tem um corpo, se é um. Essa miscelânea de carne, sangue, músculos, ossos e pelos deve ser o elemento de prioridade. Tem-se apenas uma chance de viver, de viver naturalmente, de ser carnal ao extremo, de ser sangue, ser dor, ser alegria, ser tristeza. Perder isso por causa de regras anti-naturais, anti-corpo, é uma ação ignorante, burra. O corpo pelo corpo, a carne pela carne. Por isso escrevi nu esse texto; por isso prefiro um corpo livre, a uma prisão que anule minha existência, fazendo-me com que eu exista, mas não viva.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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4 respostas a Eu não tenho, eu sou um corpo!

  1. Gostei do texto… Gosto muito também da liberdade de escrever sentindo o ar em todo o meu corpo, sem a interferência das roupas… MMMMMMM delícia ser libérrimo a esse ponto!

  2. As pessoas se preocupam com roupas que “escondam coisas aqui e acolá” quando na verdade a naturalidade é o que há de mais belo. Discordo apenas do pensamento sobre Platão, acredito que as idéias dele, assim como de Maquiavel, foram mal interpretadas. O período anterior à Sócrates, de fato não teve igual importância para a filosofia tal qual o período Socrático (É inclusive por isso, que a separação do tempo se faz com a expressão “pré-socráticos”).

  3. Tom R diz:

    Massa Ricardo, sempre quis ler/escrever sobre isso.
    Quando superei a dicotomia mente/corpo, minha vida melhorou drasticamente.

  4. Luciana diz:

    Ricardo,

    Como apreciadora dos seus textos, gosto de pensar que fomos livres e nos rebelamos com tamanha autonomia.

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