O Escafandro e a Borboleta


Numa nostálgica sessão, em um local onde caberiam com facilidade 100 pessoas, mas que estavam somente 7, tive a grata oportunidade de contemplar uma obra colossal do cinema francês: O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 2007).

Ainda não li nenhuma resenha ou crítica sobre o filme, mas tenho a mais plena certeza de que uma palavra está em todas as definições sobre esta obra: Poético. Venho aqui colocar o que senti com toda essa poeticidade. Os detalhes cinematográficos da película talvez não sejam o que mais queira enfatizar, porque esse filme tocou-me.

Mas calma, tomarei o devido cuidado para que esse texto não fique impregnado de pieguice.

A película francesa, baseada no livro homônimo , relata a pungente história de Jean-Dominique Bauby, editor-chefe da revista Elle, de como ele teve uma rara síndrome que privou todo o seu corpo, à exceção do olho esquerdo, de todos os movimentos. Foi com este olho que ele conseguiu “escrever” o livro que inspirou o filme.

No grande ecrã do diretor Julian Schnabel, possue características de um filme que pode ser classificado, sem exageros, como obra de gênio. Explorando a câmera de mão, ele nos transforma na personagem, dando-nos o seu ponto de vista (nos momentos em que a personagem chora, podemos sentir seus olhos enchendo-se de lágrimas com a lente da câmera perdendo o foco). Seguindo uma marca registrada do cinema francês, O Escafandro e a Borboleta explora os detalhes, com um minimalismo delicado, refinado. Brincando com o sentidos do espectador, o filme faz-nos sentir o vento da praia com os cabelos esvoaçantes, a agonia de estar trancafiado num corpo inerte, o desespero do querer sem poder, o olhar aflito de Jean-Do (como os amigos chamavam Jean-Domininque).

Os trechos em flashbacks do passado de Jean-Do, Schnabel mostra o contato que teve com a religião, indo para a cidade de Lourdes (popular por ter ser sido lá que uma santa possivelmente tenha aparecido) e o seu desapego da religiosidade. Mesmo sua terapeuta tentando levá-lo (forçado obviamente) à uma igreja, querendo fazê-lo crer que ele teria a ajuda de alguma força divina. Mas Jean-Do não se ilude. O roteiro neste ponto merece destaque. Com a voz do protagonista em off dialogando com as pessoas, o sarcasmo e a ironia da personagem se tornam patente. Jean-Do não cria falsas esperanças, não cria para si uma possibilidade de salvação. O realismo existência presente na obra é um outro mérito da película. Este realismo que não fica procurando, inventando, esperança onde não tem, e não se desesperar com isso.

E assim como Jean-Dominique Bauby estava preso ao seu corpo inútil, também estamos presos a esta vida inútil. E assim como Bauby não criou falsas esperanças em deus imaginários, também nós não devemos fazê-lo. Como metáfora para nossa existência, O Escafandro e a Borboleta mostra-nos que não devemos nos desesperar com o fato de que nossa vida caminha rumo ao nada.

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Sobre Ricardo Silva

Desapega e vai!
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