Sou Inteligente: Isso Te Ofende?


Imagine a situação: uma sala de aula (de escola ou faculdade, tanto faz) onde está havendo um debate sobre um determinado tema. O professor, como mediador do debate, lança um leque de perguntas, nas quais um aluno se destaca nas respostas, sendo eloqüente e respondendo com propriedade todas as questões propostas pelo professor. Na sala esse aluno se destaca pelo seu brilhantismo.

Pois bem, para nós que estamos vendo esta situação de fora, concordaremos que o aluno se destacou  por mérito (mesmo porque não temos como ser contra). Mas como os amigos de sala encararam seu colega brilhante? Você sabe a resposta. Já imagino as frases: “Hum… ele quer ser o bonzão”, “Lá vem o sabichão”, “Só ele quer ser o inteligente aqui”, “Esse(a) moleque (moleca) é muito(a) bossal mesmo”, “Viu como ele quer ser melhor do que a gente?”. Fico vendo a cara de inveja da pessoalzinho falando do destacado. Tenho certeza que você já deve ter dito (ou ouvido) essas frases aí. Tenho certeza que sim. Mas qual é a origem dessa raiva toda por uma pessoa que é considerada inteligente ou destacada por seu intelecto? Vamos ver.

Nosso Conceito de Humildade

Numa conversa você diz para alguém: “Parabéns! Você é muito inteligente!”, ou “Nossa você é muito bonito(a)!”. Qual é a resposta que todo mundo espera diante desses elogios? Até vejo a frase surgindo na sua cabeça: “Muito obrigado(a)! Muita gentileza sua!”, a pessoa respondendo com o rosto corado. Essa é uma pessoa humilde, você não acha? Agora imagine os mesmos elogios, só que com uma resposta diferente. Diante do elogio da inteligência: “Verdade, sou muito inteligente mesmo, você está totalmente certo. Sou um dos melhores no que faço”. Diante do elogio da beleza: “Sim sou muito bonito(a) mesmo! Lindo(a), mais do que muita gente aí”. Como você identificaria essa pessoa aqui? Humilde tenho certeza que não.

Freud disse: “Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio”. Mas vou falar algo pra você, leitor desconhecido: sabemos sim como nos defender de um elogio. Sempre temos a resposta na ponta da língua, mas nunca a pomos à tona. Sabemos de nossas qualidades, mas temos certo bloqueio para falar sobre elas. Culpa de quem? Da religião.

“Mas que cargas d’água a religião tem a ver com isso?”, já posso ver o leitor ingênuo me perguntando. Ela, a religião, está infiltrada em tudo. Mas vou explicar por que.

Quando falo de religião, me refiro especificamente a judaico-cristã, que é a que impera no ocidente. “Mas e a relação dela com o fato de eu ficar sem jeito diante de um elogio?”. Ok, leitor apressado, vou mostrar a relação.

A religião nos impregnou com um conceito errado de humildade. É bem possível que você chegue a considerar alguém que “se elogie” uma pessoa prepotente. Por quê? Porque desde muito tempo fomos condicionados a olhar que essa postura é uma atitude soberba, orgulhosa, logo prepotente,  por isso repugnável. Viu como os conceitos religiosos moldam nossa forma de pensar? (Mesmo hoje, com a religião não estando mais em voga, ela é muito influenciadora ainda).

Voltando ao exemplo. É por causa desse conceito distorcido de humildade, que julga-se a segunda resposta ao elogio, como uma afronta, uma verdadeira demonstração de prepotência. Como se não pudéssemos engrandecer nossas maiores qualidade.

(Meu conceito de humildade: ter forca de caráter para admitir seus próprios erros).

O Anti-Intelectualismo Atual

Sem mais delongas (e com as devidas reflexões), é fato claramente perceptível que existe um crasso anti-intelectualismo nesse nosso mundinho, constituído, em sua maior parte, por idiotas. Por que as pessoas sentem-se ofendidas quando alguém sabe mais do que elas? Achei uma resposta:

“Não gostamos de nos sentir estúpidos; (…) Respeitamos as realizações dos outros [ou deveríamos pelo menos], mas, as vezes, sentimo-nos ameaçados e ressentidos.” (Os Simpsons e a Filosofia , 2009, p. 41).

É exatamente por isso. As pessoas (estúpidas) recriminam, se distanciam, ou escarnecem dos intelectualmente destacados, porque esses segundos tornam pública a ignorância dos primeiros. Por isso que foi construída toda a imagem negativa (ou depreciativa) em torno dos inteligentes e/ou intelectuais. Nós (me incluo mesmo, porque estou muito acima da média, e eu sou muito mais inteligente do que quase todos os que convivem comigo) somos tratados como estúpidos, grossos, rudes, prepotentes, rústicos, metidos, bossais, e tantos outros adjetivos pejorativos mais. Tudo isso porque somos melhores do que a maioria.

Darei um exemplo bastante claro sobre como os intelectualmente melhores são vistos pelos babacas do senso comum. Dr. Gregory House (representado pelo ator britânico Hugh Laurie). Para quem acompanha a série, é clara  sua superioridade intelectual de House em relação aos demais personagens. Ele é um médico iconoclasta em seus métodos e sincero em suas colocações; ele não interpreta para ser agradável, logo isso irrita muito os “humildes” de plantão. House logo é taxado de arrogante e prepotente, tudo por ser melhor no que faz.

Para piorar a situação dos mais inteligentes, nosso século é um dos mais anti-intelectuais de todos (disputando em pé de igualdade com a Idade Média). Quanto mais idiota e patética for uma coisa, mais ela é idolatrada (e muitas vezes até respeitada). Essa é a geração da superficialidade, dos 140 caracteres (escreverei um texto sobre isso), onde qualquer coisa que se proponha a ser mais profunda é vista com maus olhos. Mesmo estando rodeados de informações, essa nossa geração (com poucas exceções) é burra, babaca e estúpida.

Hoje ser mais inteligente, mais intelectualizado, é uma ofensa. Os ignorantes ficam extremamente incomodados com a inteligência que eles querem, mas não têm. Mas não me modifico para agradar idiotas.

Se você faz parte dos leitores inteligente, te digo: você não perderá os amigos, selecionará os que merecem sê-lo. Mande os babacas tomarem no cu. Quanto menos amizades idiotas você tiver ao seu redor, melhor.

Mas se você faz parte dos leitores que acham que o que escrevi aqui é apologia a prepotência, só tenho uma coisa pra dizer: vá se fuder.

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Sobre Ricardo Silva

Sem talento para auto definições.
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2 respostas a Sou Inteligente: Isso Te Ofende?

  1. Danete diz:

    Este excelente texto foi escrito há mais de um ano, mas não resisto em comentar:
    Realmente existe este constrangimento com a inteligência. A área de humanas nos ensina a “ponderar” o racional, filtrando para as pessoas a realidade com palavras mais agradáveis.
    Eu prefiro o real, pois o desnudo me permite manter a objetividade e quase que imediatamente subir de patamar. Mas você perceberá: o que as pessoas querem mesmo é uma estrelinha no caderno.

  2. Kssiddy Weslley diz:

    A questão é que não devemos toda hora falar o quão somos bom. E admitirmos o nosso brilhantismo não devemos exagerar nas palavras, ser redundante.
    E para os idiotas que acham que estamos nos achando, são puros invejosos, pois não tem algo pra dizer em que é bom, e se tem (como é o caso da maioria),são tolos em perder tempo observando a vida dos outros!

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